sexta-feira, 6 de abril de 2012

A água de riacho que virou água de oceano


O título pode parecer meio estranho, mas talvez reflita o que eu senti há uns dias atrás. que eu de repente me vejo como algo maior do que sequer imaginava que poderia ser.


Dia 04 foi um dia em que foram vividos dois extremos. Uma experiência boa e outra não tão boa. A não tão boa foi, como dizem por aí, um osso de ofício, o que não deixa de ser doloroso. A boa foi uma espécie de retorno. Já fui mais apegada a passado, até começar a aprender que sou mais mãe do futuro do que filha do passado. Bem, tive um compromisso relacionado a assuntos acadêmicos e o local onde fui  ficava no mesmo perímetro do meu antigo colégio. Um dos meus professores de cursinho, cujo filho cursa medicina, disse pra mim: “Parecia que era ontem que eu ainda estava te dando aula nessas salas. Antes vocês eram dois garotos agora estão crescendo”. Quando saí, fui andando, lembrando dos lugares que tinha passado, das lanchonetes e restaurantes em que tinha comido por ali. Cheguei a uma das entradas, a que fica nos “fundos” por assim dizer, já que não é a principal. Logo vi a quadra de esportes, parecia ser a hora do recreio, fui passando pelas crianças com seus uniformes, que cá entre nós, não mudou desde que saí. Olhava aqueles rostos jovens, lembrando de quando eu era quem usava aquele uniforme e no último ano tirei tantas fotos com minhas colegas de turma.  

Cheguei ao pátio principal, em frente á cantina. As cadeiras, os bancos, o balcão onde se pagava e comprava pirulitos, balas e fichas. De cara, reconheci um dos funcionários e fui dar um abraço nele. Para nós, os maiores na época ele era o Zé, pois fora admitido no nosso penúltimo ano, para os menores provavelmente era o tio Zé, toda escola tem. É aquele tio ou tia que manda todo mundo pra sala, ou subir porque o recreio já acabou ou que entra na sala pra dar recados aos professores. Conversamos por alguns minutos, ele lembrava de mim, eu sempre falava com ele e sempre o achei divertido. Foi me falando das mudanças, dos professores que saíram, dos que entraram, das substituições administrativas, enfim. Eu disse que já estava no meu último ano da universidade, parece que se passa um filme e cinco anos soam como um dia que passou rápido demais.

Subi as escadas após o término do recreio junto com os alunos. Senti bem o corrimão nas minhas mãos, pensando quantas vezes havia subido aquelas escadas e descido junto de meus colegas ou discutindo com algum deles. Cheguei no andar da biblioteca, não resisti. Passei boa parte da minha vida escolar dentro dela, lendo gibis ou outro livro qualquer, a bibliotecária não era a mesma, disso eu já sabia, mas entrei. A disposição das prateleiras havia mudado, os computadores, as mesas, o quadro da fundadora, até haviam portas diferentes que davam para a varanda da frente da escola, transparentes, eu conseguia ver a rua e os carros que passavam.

Subi mais um lance de escada. Dessa vez por uma escada diferente. A escada dos professores. É meio exclusiva, só pra professores, funcionários e pais de alunos, no entanto alguns alunos são meio do contra e subiam por ela no fim do intervalo. Lembrei dos meus colegas indisciplinados e eu que ficávamos sentados perto da “escada exclusiva” e subíamos por ela á menos que tivesse uma daquelas tias pra nos barrar. No entanto, não sou mais aluna, então subi por ela sem problemas.

Vi as salas onde meus amigos de séries mais baixas estudavam, lembrei que foi naquele corredor que conheci o amor da minha vida, melhores amigos pra uma vida inteira e pra vidas depois da vida, professores por quem nutri um imenso carinho. Logo avistei um e saí correndo ao seu encontro, na série em que ele me ensinou, sempre foi tido como um verdadeiro paizão, ele inspira essa imagem. Me disse que sua filha se forma esse ano também.  Perguntou o que pretendo fazer depois da universidade e eu comentei de meus planos.

Ele tinha que dar aula e eu ainda andei um pouquinho por lá. Começou a chover, uma chuva fininha que logo se transformou em um verdadeiro pau d’água. Eu me considero espírita, embora tenha fortes raízes católicas e meu próprio colégio é dito “de freiras”. Daí entrei na capela, a capela onde também estive por muitas vezes, onde rezei pedindo proteção, agradecendo, para onde eu ia quando queria ficar só, havia um senhor lá tocando violão, a música da Ave Maria pra ser mais exata, fiquei lá por alguns instantes.  Observei que as paredes haviam sido pintadas, alguns elementos no altar modificados, uma parte de uma imagem estava quebrada, mas ali naquela capela, com o som da chuva eu me voltei para meu interior e senti paz.

Se passou um filme na minha mente, desde quando eu era uma gotinha, com cabelo fofo e meio dentuça. Cresci, usei aparelho, me apaixonei, me fixei, fiquei, tirei o aparelho e saí da escola. Até hoje eu continuo caminhando, mas o que passou não vai voltar, a garotinha dentuça de 6 anos já não é mais dentuça e tem cabelos lisos agora.As pessoas que conheci, algumas estão com um ótimo futuro pela frente, outras talvez nem tanto. Algumas cresceram de sobremaneira, amadureceram e não são sombra do que eram, outras podem ter escolhido criar raiz em um tempo que não volta mais e passam a idéia de estar paradas. 
Eu era como um riacho, bem pequeno, me contentava com pouquinhas coisas, com brincadeiras, passeios e excursões. Á medida que fui crescendo, meu horizonrte foi aumentando e logo eu me encaminhava para o oceano vasto. Hoje, já caminho para objetivos maiores, já adquiri responsabilidades diferentes daquelas que eu tinha, no entanto, de vez em quando me permito olhar para onde comecei, para o lugar onde comecei como gota e hoje sou parte de algo muito maior. 


E olhar e verque já tenho um afluente atrás de mim mostrando o quanto já fui para frente é algo que me faz muito, muito feliz...

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