Ela sempre adorou o inverno. O
fato do frio predominar na cidade quando o normal é estar quente. Ela sobe até
a cobertura do prédio, todos a essa hora estão ou dormindo ou assistindo as
novelas da noite. Não há ninguém, ninguém que veja.
Enxerga o banco de cimento, mas o
frio faz com que ele pareça de mármore de tão gelado. Ela tira os chinelos,
está vestindo uma camisa e um shortinho. Deita de barriga para cima, cruza as
mãos atrás da cabeça e olha para o céu.
É curioso observar as nuvens,
impera o tom de negro com umas manchas brancas esfumadas. Ao longe, o céu até
tem um tom alaranjado. Ela sente um pingo no rosto, logo esses pingos aumentam.
Uma chuva fina. Os pingos parecem pequenos flocos de neve, leves, branquinhos,
mas que se sente o toque deles na pele, gelados, se sente o impacto deles no
rosto.
A visão se concentra no céu. Os outros
sentidos buscam seus estímulos. Consegue ouvir o barulho do trovão ao longe,
mas ela não se assusta, quem dera que todo tempo nublado fosse assim e viesse
com esse som. Escuta algumas falas, vozes confusas, não consegue entender as
palavras, provavelmente são os vizinhos conversando ou o som da televisão.
Tenta ouvir o som da cidade, aquele som agitado que se concentra lá embaixo na
rua. Pessoas caminhando, buzinas (e quantas buzinas!), sirenes de ambulância e
de polícia. Deixa sua mente livre...
Lembra da infância, cenas de
crianças brincando em parquinhos ou com bonecas. Como seria bom voltar, uma
máquina do tempo talvez, quem sabe, seria oportuna nesse momento. Avança mais,
as mãos saem de debaixo da cabeça e se estendem ao longo do corpo, é preciso
mais conforto no momento. Entra na adolescência, o primeiro beijo na
brincadeira com os amiguinhos de verão, a obsessão em ser a melhor da turma,
tempos bons de festas e infindáveis bailes, o papel forçado de cupido e de
amiga conselheira.
O cheiro, agora ela sente o
cheiro que se acostumou desde sempre a definir como “cheiro de chuva”, na
verdade podia ser o cheiro do asfalto quente molhado com água fria, mas não importava,
a impressão estava imortalizada dentro dela. O cheiro, os sons e a visão das
nuvens: o conjunto. O que ela era agora, ambiente propício para eventos
completos. Fecha os olhos. E vislumbra o presente. Algumas cenas passam na
cabeça sobre o que passou até chegar ali. As lágrimas derramadas, as perdas, os
aprendizados a duras penas, os porquês das coisas sem explicação e também as
vitórias. Lembra das marcas no corpo e na alma até aquele dia.

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