sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A despedida é uma dor tão doce...




Temos estado emotivos nestes últimos tempos, me refiro a minha turma de universidade e eu. Na missa de formatura, foram lágrimas pra cá e pra lá, na solenidade, discursos, todo mundo vibrando pelo diploma merecido depois de 5 anos. Adorei o discurso da nossa amiga Pamella, realmente o que todos nós queremos é sermos felizes, felizes neste mundo que ás vezes parece tão grande e nos abocanha com seu grande bocão.

Nestes momentos, parece que a gente lembra do primeiro passo dado dentro da universidade, quando entramos pelo corredor e nem sabíamos pra onde devíamos ir muito menos a quem perguntar. Eu nunca tinha andado sozinha pra lugar nenhum e tive que aprender rotas de ônibus, paradas e sinal. Comprei caderno novo e uma bolsa, coisa que até hoje não sei bem como se usa, tamanho nem o que ao certo guardar dentro, mochila era tão mais simples. 

A gente se olhava meio sem saber com quem falar, olhava as garotas, os meninos carecas (aqui é uma tradição os meninos rasparem a cabeça quando passam no vestibular) e ficava pensando no que os veteranos fariam conosco. Bem, não foi nada demais, apresentações, umas brincadeiras, amostra dos laboratórios, do centro acadêmico do qual ainda fiz parte por uns 6 meses. Namorei com um dos membros do centro, foi uma experiência, ele era meio grosseirão e abusivo, mas aprendi muito com toda a situação. 

Divisão de subturmas e uma confusão com horários, teoria-prática, aulas extras varando a noite. Trabalhos em grupo onde o computador dava defeito, aula de bioquímica e um livro recomendado pra estudo onde ninguém entendia nada. Primeiras notas baixas, dependências e ali a gente via que a universidade não concedia muitas regalias.

Uma preocupação no primeiro ano eram os jalecos, sempre passados e branquinhos. Depois do 3º ano a gente metia dobrado como dava dentro de uma sacola de supermercado e ia pros estágios, quem vai começar a trabalhar talvez reveja esse costume. Aulas de anatomia eram uma coisa, cheiro de formol, lágrimas nos olhos, falta de professor. Tomava banho assim que chegava em casa, minha avó nem me abraçava, me mandava logo pro banheiro. Não me saí muito bem nas primeiras provas, meu amigo Thyago me passou muita cola de estruturas que não tinha estudado, fiquei relaxada no primeiro semestre, mas vá lá.

2º ano. Começamos a ver um pouco da prática mesmo, as aulas de hidroterapia tínhamos em uma piscina o dobro do tamanho de uma banheira e dávamos o jeito de caber 15 pessoas lá dentro e um medo da água não ter sido limpa e a gente pegar uma dermatite, mas era bem divertido. Quem estudou sabe o aperto que foi pra decorar o nome de todos ou praticamente todos os músculos do corpo, onde começavam e onde terminavam, o medo ao escolher os papeizinhos que a professora colocava pra escolher com o segmento a ser dissertado. 

3º ano muita gente busca estágio em variados lugares, eu também busquei o meu. Tem alguns que se valem do Q.uem I.ndica, porém eu fui de porta em porta. Nesse ano também nos é ensinado a fisiologia de todos os sistemas do corpo e avaliação. O modo correto de aplicação de correntes e tempo de técnicas envolvendo gelo. Nas clínicas, atire a primeira pedra, nos estágios quem não tremeu ao mexer pela primeira vez com os aparelhos que mal tínhamos nos nossos laboratórios.

No 4º começamos a ir pra hospitais e ter contato com aquelas equipes que nos tratam como se tivéssemos algum tipo de doença, tem aquilo de avaliar e evoluir e prontuário sem borrar, usar corretivo nem escrever “sinais normais” no lugar de “normocárdica, normotensa e eupneica”. Era uma coisa com os borrões, o tempo era curto e não podia fazer rascunho, era preto no branco. Daí era baixar a cabeça e entregar a mão á Deus. Começamos a ver pacientes que não colaboravam, que perguntavam “tem mesmo que ser agora?”, com espaços clínicos nos quais não era possível colocar os eletrodos autoadesivos porque não tinha nem o paciente ficava posicionado naquele ângulo exato que mostrava o livro e os aparelhos eram tão antigos que a gente rezava pra não dar bug com o paciente usando ele.

Último ano começaram as sagas dos tcc’s, corre pra achar orientador, corre pra pegar assinatura de banca, acha o lugar mais barato pra imprimir, hackeia os sites de artigos internacionais. Pura prática agora, nos indicam o lugar pra onde ir e lá tem pacientes, nos viramos e no nervoso esquecemos dos passos da anamnese, dos testes que tem que ser feitos, não lembramos nem nosso nome. Todo dia fazia um rascunho da sequência que devia seguir e ainda assim ficava meio insegura. 

Nos deslocamos pra lugares longe de casa, tivemos que visitar Google maps pra saber que ônibus pegar, onde descer, nomes de ruas. Alguns mal dormiam, tinham rotina dupla, ficavam nervosos só ao ouvir falar daquele professor que tinha fama de carrasco e nas aulas se apaixonaram aos pouquinhos até desfazer a primeira má impressão. Nas UTI's tinhamos receio de esbarrar em algum cabo, desconectar ou bagunçar o aparelho e só ao pensamento do aparelho apitando sem parar, já nos causava desespero. As aulas foram divertidas em muitas ocasiões, tanto que nem pareciam aulas, encarei assim Saúde do Trabalhador, onde eu levava meu speaker nas salas de uma empresa e colocava todo mundo pra alongar e fazer as coreografias do Michael Jackson.

Minha turma foi pioneira na universidade, um projeto pedagógico novo se adaptando (de verdade!). Como toda turma tinha seus grupos ou as chamadas panelinhas, das mais diversas que no final formavam um jogo e tanto. Tinha a panela de pressão, com os que gostavam de ir pra cima do sistema e reclamar; o caldeirão, largo e espaçoso, aquelas pessoas que são sempre as alegres, rindo da vida; a panela de vidro, gente rara de se ver, mas admiráveis de graça; a churrasqueira, o pessoal que sempre tá pronto pra um churrasco, uma festa universitária ou um bom pagode/reggae/sertanejo. Me isolei nos primeiros anos, por culpa minha em grande parte, sorte que mudou depois, acho que meu grupo era como uma daquelas panelas que fazem de tudo, gosto muito deles embora eu ache que era meio atrapalhada ás vezes e ficava meio sem graça por isso ^^’. Esse jeito me rendeu uma faixa bem legal na aula da saudade.

Agora que temos os diplomas em mãos, vamos atrás das carteiras profissionais, registro em conselho, mensalidades de pós-graduações, bolsas de mestrado, roupas para festa. Fica uma sensação estranha de que tudo foi muito bom, mas que seria muito legal que continuasse. Alguns viajam, outros mudam, porém as lembranças permanecem e estas não nos deixarão. Torço pra que todos alcancem seus objetivos e deixo meu “muito obrigada” pelos anos partilhados.

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