sábado, 6 de abril de 2013

Casa de ferreiro, espeto de ferro

 Pra quem não sabe, há uma moça que é a Fluvia Lacerda, uma modelo internacional do calibre da Gisele Bündchen e adivinha, ela é uma "gordinha". 



Nós da área da saúde falamos e não fazemos  ás vezes. Digo isso porque vejo o quanto somos displicentes com nossa própria saúde. Não raro na universidade, eu notava aqueles meus coleguinhas comerem todo dia no intervalo aquele croissant, pizza e derivados com refrigerante, comi assim algumas vezes, mas logo voltava pra minha rotina de maçã embrulhada no papel filme. Ás vezes ficava abismada, minhas colegas continuavam magras e na moral não faziam exercícios.

Tive algumas crises por causa disso. Ficava pensando no porquê, não que fosse inveja porque não acredito que alguém inveje esse tipo de coisa, mas genética pode ser uma grande porcaria. Os últimos meses foram aventuras em termo de saúde pra mim. Devo ter feito mais exames e ido mais no médico do que devo ter ido em anos anteriores.

Tudo começou com um exame de sangue básico passado pelo dermatologista. Há um elemento chamado hemoglobina glicada (HbA1C), desde que inventaram isso, ninguém nunca mais conseguiu trapacear um exame de taxa de glicose. O motivo é simples: a HbA1C é o registro de três meses, é como se o seu organismo dissesse no exame: “Não importa se ontem ele comeu só alface, nos últimos três meses esse indivíduo comeu uma barra de chocolate por dia”. 

E no meu exame, a minha estava gritando. O normal é abaixo de 6.0, com uma glicemia média de no máximo 120 mg/dL. O meu acusou uma HbA1C de 7.7 com glicemia média de 174 mg/dL, isso é alto até pra quem é diabético confirmado, me preocupei e fui pesquisar á respeito. Mil e uma coisas passavam pela minha cabeça e nessa hora todos os genes podres que você tem te massacram com força total.

Minha família por parte de mãe tem um fantasma chamado diabetes que vem assombrando por pelo menos três gerações. Minha bisavó faleceu disso, uma das minhas tias-avós perdeu uma perna, minha avó morria de medo, minha mãe idem e um dos meus tios desenvolveu a doença com 30 anos e um dos filhos dele também. Minha mãe é magra, segundo minha avó dizia, desde bebê ela não era muito dada a comida nem doces. E minha avó se forçava a não gostar de um belo bolo de chocolate e me atormentava quando eu queria saborear o meu pedaço. Além do diabetes, problema cardíaco também é um gene podre. 

Por parte de pai, o negócio é explícito. O pessoal gosta de comer, o que pra alguns resultou em obesidade mórbida. Alguns já fizeram redução de estômago, uma tia por sinal morreu tempos depois por conta de complicações. Algumas tias minhas já atingiram a morbidade. E lá o pessoal gosta de uma boa festa com comida e bebida.

Daí, quando minha HbA1C me acusou, comecei a pensar no que poderia ter acontecido. Eu fui no médico pra tratar um problema de pele e sai com uma recomendação pro nutricionista e pro endocrinologista. Ok, fiquei desanimada e procurei diminuir a quantidade de açúcares. Fui na nutricionista como me foi recomendado e ela me disse que eu estava com sobrepeso (Oh jura? Sei disso desde... bem desde que soube o que sobrepeso era). Quando ela me perguntou o que eu comia, diferente de muitos casos que leio nas revistas, eu não tive vergonha de dizer. Por uma razão simples: porque não comia o que a maioria dos gordinhos comem.

Sério, refrigerante é coisa de festa. Lanche de escola era coisa de dia D. Minha casa nunca foi casa de guloso, nossas despensas não são cheias de guloseimas nem a geladeira abarrotada de congelados e doces. Doces e comidas diferentes é coisa de feriado especial, chocolate é coisa de páscoa, sorvete só quando tem visita, o que já é raridade. O normal é feijão com arroz, carne ou frango e sem muito enfeite.

Daí devem se perguntar como se chega ao sobrepeso comendo assim. Bem, acredito eu que foi coisa de anos, um kg depois do Natal que não saiu emendou com o 0,5kg do ano novo e ficou por isso mesmo. Sem contar que sempre fui meio grande, culpa da genética de novo. Parte de pai me deu um belo conjunto de quadril-coxas-pernas-bumbum, este último foi uma fatia bem generosa. 

Não nego que disso eu gosto, afinal meninas (os), eu tenho consciência do país em que nasci, não que uma menina deva ser só isso, mas por aqui bumbuns e coxas são bem admirados, se quer seios e bumbum reto, vá para os E.UA. Olho as artistas tidas como lindas e a primeira coisa que noto são suas pernas que unidas dariam uma minha e fico pensando que se fosse homem teria medo de pegar e ficar um hematoma (não é machismo ok? É só uma observação).

Me chateei muitas vezes de ficar realmente mal com uma insinuação aqui e outra ali, imagine se eu fosse obesa de nascença. Podem falar dos meus kg a mais, contudo tenho orgulho de dizer que nunca comi uma caixa de bombom ou ovo de páscoa de uma vez sozinha, nunca escondi comida dentro do armário, nunca levantei de madrugada pra tomar sorvete e comer besteira e nunca fui fã de carne gordurosa, sério, eu não consigo nem separar no prato, me dá agonia pra não dizer nojo. 
 
Falam e falam que sobrepeso é ruim, e isso e aquilo, porém eu sou curiosa: e como é ser magro? Tipo, como é poder comer tudo que quiser, na hora que quiser e quanto quiser sem ninguém olhar e ficar jogando zica em cima? Como é comer pão todo dia? Mas assim, pão de verdade com queijo de verdade, não alguma coisa queimada cheia de grão com alguma outra coisa que se parece vômito de gato dentro.

Eu não sei. Não comia pão á menos que estivesse com muita vontade ou quando viajava. E me desascotumei. Mas também não lembro de nenhuma vez que não me preocupei com o dia seguinte. Me acho bonita, com tudo a mais, mas me acho. Acredito também que estou melhor do que muitos com o tal de IMC dentro da média, minha pressão é normal (100/60 mm/Hg), minha glicemia é 70 mg/dl (o normal é de 70-110mg/dl), meu fígado não tem nada de gordura (peguei o exame hoje) e consigo correr 3km.

Ás vezes, apesar desses fatos, me sinto chateada e doente. Não por causa dos genes que podem me matar, não por causa do IMC alterado, mas porque mesmo eu gostando de salada (eu gosto!), nunca vou gostar MAIS disso do que de pavê de leite condensado, mesmo eu  aguentando e até curtindo correr, nunca vou gostar MAIS disso do que de jogar Minecraft ou escrever. O que leio nos blogs de ex-gordinhas que supervalorizam isso é que temos obrigatoriamente que gostar mais de correr, gostar mais de alface, gostar mais de exercícios, dizer não pra açúcar e passar mais de 3h sem comer é a morte.

Vou continuar comendo alface, tomate e muuuuuuuuuuita pimenta. Mas vou gostar também de cozinhar strogonoff e de ver as pessoas comendo, porque querendo ou não, comer vai continuar sendo, independente do que digam, um prazer primitivo do ser humano.




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