Tell me would you kill to save your life?
Tell me would you kill to prove you're right?
O negócio tá gerando uma polêmica
louca, devo dizer. Antes de começar, já vou logo adiantando: entendo
perfeitamente o fato de que a descriminalização do aborto não ia gerar aumento
do aborto, mas diminuição de mortes maternas; entendo os argumentos utilizados
de que as pesquisas com células tronco irão retroceder, de que o estado deve
ser laico, de que é uma injustiça obrigar uma vítima de estupro a conviver com
seu agressor, assim como entre estar grávida e doente, vão priorizar seu bebê e
tals. Não sou idiota, sou da área da saúde e compreendo os argumentos remetidos
á parte biológica e á parte social, porque tive aulas de ética, mas ainda assim
sou contra. Contra a qualquer tipo de aborto.
Nem vou entrar no mérito da
religião pra começar, porque acredito na explicação dos porquês de não se fazer
um aborto, não simplesmente na excomunhão ou na condenação ao inferno, que por
sinal não acredito. Li hoje uma matéria falando que ninguém curte aborto ou
acorda dizendo que vai fazer um, porém também não veem problema nenhum com
isso. O negócio que me faz pensar é em quantas vão usar esse discurso de pró-vida da mulher pra fazer abortos deliberadamente, ir no vácuo da proposta sem qualquer caráter ou decência.
"Ah, mas é um amontoado de células", bom, eu respeito opiniões, mas penso naquela mulher cujo maior desejo é ter um filho e vê nesse amontoado uma possibilidade de um sonho. Penso em mulheres com endometriose que queriam ter um tecido íntegro, que passam por cirurgias querendo muito algo e quando recebem a notícia de que estão com esse amontoado, é como uma luz numa zona abissal.
Ofereço uma solução: lares de
adoção ao invés do aborto. Não são lugares lá muito legais, não é fácil, mas
acredito em aprendizados. Então, se for pra mãe fazer uma raspagem legalizada, se
furar com agulha de tricô, jogar o filho numa lixeira ou num cano abaixo, acho
mais humano dá-lo e de preferência assim que nascer, pra que ele não tenha
tempo de sequer guardar nenhuma impressão materna.
Aí vem a questão do estupro. O
Estatuto do Nascituro estabelece que a vítima grávida não poderia abortar, mas
teria direito a uma bolsa pra ajudar a criar a criança. Pessoalmente, abortar,
ou como se diz, expulsar o fruto de uma violência, não apaga as marcas. O contrário,
no entanto, pode acontecer, da mãe aprender a ter força e tirar recursos da
situação. É uma questão de aprendizado e disposição para tal.
O fato da violência não será
apagado, mas ao contrário, pode agravar. Já li relatos de mulheres dizendo: fui
estuprada ou sofri violência sexual. Isso é uma coisa. Dizer: Fui estuprada e
abortei é outra. E olha, essas duas palavras são de uma dor extrema pra mim que
leio, o que dirá pra quem vive. Acho que abortar quando a gravidez é
consequência de estupro é mais um acúmulo de trauma e dor. É como colocar açúcar
em cima de uma brigadeiro e dar para um diabético.
“O Estatuto limitará as pesquisas”.
Fiz uma pesquisa sobre isso na universidade para ética, que como todos sabem
não se ensina. É algo que vem de berço, de caráter. Mencionei em uma aula um
fato: há menos de um século, nos campos de concentração, os nazistas abriam as
pessoas e colocavam combustível em nome de pesquisas. Era cruel, desumano,
embora um avanço ou outro tenha nascido disso. Hoje, os alemães admitem seus
erros, admitem que tomaram o caminho errado, mas procuraram tirar o melhor de
tudo que viveram e fizeram (segundo informações de uma alemã nata). Nós podemos
ser melhores.
Antigamente, digo desde que o
mundo é mundo, matar e morrer tinham significados fechados. Hoje parece que
não. Existe matar quando não há mais possibilidade, matar como ato
misericordioso e por aí vai. Conheço uma pessoa, mãe de uma menina especial, de condição delicada e pouca massa cefálica, pra quem não foi dada nem uma semana de expectativa de vida e para a mãe em
questão fora dada a opção do aborto. Esta recusou e a menina hoje tem 13 anos,
enfrentaram dificuldades, hospitais, mas aprenderam a ter entre si um amor e
respeito impressionantes.
Me pergunto o que seria dessa mãe
se ela tivesse escolhido a segunda opção, provavelmente seria diferente de
hoje, independente, teria sofrido menos, talvez nem melhor ou pior, só
diferente. Porém, ela escolheu outro caminho e tornou-se muito mais do que
pensava que podia ser. Escolheu, arcou com a escolha, amou e aprendeu. Simples assim.
Mas devo dizer que a história dela me traz grande admiração.
Se você leu até aqui e por acaso
formulou alguma idéia á meu respeito, só quero deixar algumas coisas bem claras: acredito que
todos somos responsáveis pelo que fazemos, crime ou não, parecendo justo pra
você ou não, e isso é algo que pra mim é universal. Independente de você
acreditar em Deus ou não, de você acreditar que algo é errado ou não, de você
encarar bem a palavra “responsabilidade” ou não, sua colheita é obrigatória.
Antes de caírem matando em cima
de mim, sou da geração do filho único, não tenho um bocado de irmãos pra usar
como argumento de pró-vida, minha mãe foi filha única e pode-se dizer que é uma
mulher de muita fibra, não sou mimada ou egoísta como se supõe que filhos
únicos são; meus pais são liberais e detestam machismo e autoritarismo; com
relação a religião, não tenho nada contra ateus nem sou católica fervorosa, porém
acredito que devemos ser gratos por TUDO, não tem haver com submissão, mas com
tirar o que uma situação tem de melhor, porque sempre tem.
E eu não conseguiria viver em um mundo sem o quarto movimento da nona sinfonia *0*
ResponderExcluirEnfim, amei o post e, realmente, aborto só sendo natural mesmo (ou seja, só quando a alma não quer encarnar).
Até mais ;)
Ah, enfim alguém que enxerga o lado negativo do aborto com mais força.
ResponderExcluirPessoalmente, não acredito que uma política do tipo da bolsa nascituro dará certo sem que antes alteremos uma série de outros pontos da nossa estrutura social. Pelo que li das opiniões por aí, a maioria das pessoas vê isso como um ferimento à liberdade de escolha da mulher...mas o que eu acho mais bizarro é que ninguém, ninguém mesmo, parece dar a mínima para o fato de estar em jogo uma vida em potencial.
Não tenho muito conhecimento em biologia para saber o ponto que um feto passa a ser considerado um humano consciente, mas independente do tempo há alguma vida se formando ali. Talvez eu seja meio suspeito para falar: eu mesmo fui um filho fora de um casamento, de uma mãe solteira e ainda terminando a faculdade...sim, eu estava em um contexto em que havia motivos para ser abortado.
É uma solução pró-vida: O Estado poderia dar condições de uma vítima ter uma gravidez segura, limpa e, caso ela não desejasse o filho, simplesmente poderia direcioná-lo para alguma casa de caridade (como você mencionou). A mãe teria que passar por uma gravidez indesejada, é claro, mas não teria outras obrigações após o parto. Seria uma solução que valorizaria a vida. No entanto, a mentalidade geral não considera um feto como ser vivo até um certo instante t. E criar uma lei para proteger algo não-vivo enquanto a mãe tem que sofrer o peso de uma gestação causada por um ato de violência não soa nada justo.
Em outras palavras, embora a lei tenha um caráter pró-vida, não acredito que seja coerente implantá-la em um contexto em que boa parte da população não valoriza o lado da criança (que só é criança após um certo período...se bem que, para alguns, só deve ser considerado ser humano depois do nascimento).
Resumindo tudo: a lei valoriza a vida, mas pouca gente entende isso.
Muito, muito obrigada pelo comentário! Me alegra muito ver um desse tamanho! Consideram vida após a oitava semana de gestação, ou seja dois meses, porém como eu disse, é algo em potencial. Já vi um documentário sobre mulheres com endometriose, que passaram por cirurgias e tratamentos cujo maior sonho era ter um filho. O "amontoado de células de oito semanas" como dizem é algo extraordinário para essas mulheres.
ResponderExcluirA violência não é apagada com um aborto, com uma bolsa, com apoio do governo, nada, será algo com o qual a violentada terá que conviver da melhor forma possível, no entanto, certos fatores podem gerar acúmulo sobre essa situação. Abortar é um deles, passar pelo processo todo de hospitalização e levar isso dentro de si são exemplos.
É complicado também a questão que envolve uma doença por parte da mãe e o aborto espontâneo, contudo, fé pra mim é algo indispensável pra vida como um todo.
Me surpreendi com sua história, fiquei realmente surpresa e admiro por usar isso para fundamentar a crítica. Tal qual Beethoven, ás vezes há grandes potenciais ceifados por um aborto, o que ás vezes também inclui o da mãe.
Obrigada pela crítica e por entender os argumentos, sei que super racionais, feministas cheias de opinião ou pessoas que defendam arduamente a legalização do aborto podem ler o texto e me achar uma idiota, tola que não sabe o mundo que vive ou romântica, mas se não fosse assim não seria eu.
Muito obrigada Will!