quinta-feira, 6 de junho de 2013

Meu teco no Estatuto do Nascituro


Tell me would you kill to save your life?
Tell me would you kill to prove you're right?

O negócio tá gerando uma polêmica louca, devo dizer. Antes de começar, já vou logo adiantando: entendo perfeitamente o fato de que a descriminalização do aborto não ia gerar aumento do aborto, mas diminuição de mortes maternas; entendo os argumentos utilizados de que as pesquisas com células tronco irão retroceder, de que o estado deve ser laico, de que é uma injustiça obrigar uma vítima de estupro a conviver com seu agressor, assim como entre estar grávida e doente, vão priorizar seu bebê e tals. Não sou idiota, sou da área da saúde e compreendo os argumentos remetidos á parte biológica e á parte social, porque tive aulas de ética, mas ainda assim sou contra. Contra a qualquer tipo de aborto.


Nem vou entrar no mérito da religião pra começar, porque acredito na explicação dos porquês de não se fazer um aborto, não simplesmente na excomunhão ou na condenação ao inferno, que por sinal não acredito. Li hoje uma matéria falando que ninguém curte aborto ou acorda dizendo que vai fazer um, porém também não veem problema nenhum com isso. O negócio que me faz pensar é em quantas vão usar esse discurso de pró-vida da mulher pra fazer abortos deliberadamente, ir no vácuo da proposta sem qualquer caráter ou decência.

Primeiro argumento: mães que não tem condições e oferecerão lares desestruturados. Entra em choque com o fator dos métodos anticoncepcionais, nos anos 60 as mulheres lutaram arduamente para a liberação da pílula, lembro até de um bolero antigo que dizia: “Pare de tomar a pílula e deixe nosso filho nascer” e hoje elas lutam pelo direito de abortar. Não preciso ir muito longe pra ver o que um lar desestruturado faz com uma criança, acredite. Apliquei em uma pesquisa o questionário de qualidade de vida em um bairro pobre e o negócio não foi legal. Contudo, também sei que não se pode isentar uma pessoa de responsabilidades. E dizem: “Métodos falham”, mas qual a probabilidade disso?

Criticaram a cena da novela na qual uma mulher com dois filhos grávida do terceiro queria abortar e o médico se recusou. Disseram que era hipocrisia ele evocar  juramento, dizer que o aborto era causa de morte materna e enfatizaram o argumento de que os métodos podem falhar. Caramba! Eu assisti a cena e mesmo a mulher dizendo: “Eu esqueci de tomar a pílula, ele tava sem camisinha e rolou um clima e aconteceu” caíram em cima do médico mesmo assim. Numa coisa eu concordo: ela foi responsável pela situação. Parece que o mundo de hoje não está aceitando essa expressão muito bem, o fato de que você é responsável pelas consequências dos seus atos. E estou falando de uma gravidez e de um aborto também, legalizado ou não.

 "Ah, mas é um amontoado de células", bom, eu respeito opiniões, mas penso naquela mulher cujo maior desejo é ter um filho e vê nesse amontoado uma possibilidade de um sonho. Penso em mulheres com endometriose que queriam ter um tecido íntegro, que passam por cirurgias querendo muito algo e quando recebem a notícia de que estão com esse amontoado, é como uma luz numa zona abissal.

Ofereço uma solução: lares de adoção ao invés do aborto. Não são lugares lá muito legais, não é fácil, mas acredito em aprendizados. Então, se for pra mãe fazer uma raspagem legalizada, se furar com agulha de tricô, jogar o filho numa lixeira ou num cano abaixo, acho mais humano dá-lo e de preferência assim que nascer, pra que ele não tenha tempo de sequer guardar nenhuma impressão materna.

Aí vem a questão do estupro. O Estatuto do Nascituro estabelece que a vítima grávida não poderia abortar, mas teria direito a uma bolsa pra ajudar a criar a criança. Pessoalmente, abortar, ou como se diz, expulsar o fruto de uma violência, não apaga as marcas. O contrário, no entanto, pode acontecer, da mãe aprender a ter força e tirar recursos da situação. É uma questão de aprendizado e disposição para tal.

O fato da violência não será apagado, mas ao contrário, pode agravar. Já li relatos de mulheres dizendo: fui estuprada ou sofri violência sexual. Isso é uma coisa. Dizer: Fui estuprada e abortei é outra. E olha, essas duas palavras são de uma dor extrema pra mim que leio, o que dirá pra quem vive. Acho que abortar quando a gravidez é consequência de estupro é mais um acúmulo de trauma e dor. É como colocar açúcar em cima de uma brigadeiro e dar para um diabético.

“O Estatuto limitará as pesquisas”. Fiz uma pesquisa sobre isso na universidade para ética, que como todos sabem não se ensina. É algo que vem de berço, de caráter. Mencionei em uma aula um fato: há menos de um século, nos campos de concentração, os nazistas abriam as pessoas e colocavam combustível em nome de pesquisas. Era cruel, desumano, embora um avanço ou outro tenha nascido disso. Hoje, os alemães admitem seus erros, admitem que tomaram o caminho errado, mas procuraram tirar o melhor de tudo que viveram e fizeram (segundo informações de uma alemã nata). Nós podemos ser melhores.

Podemos, com nossa grande capacidade, encontrar meios novos de fazer as coisas, de avançar sem entrar em certos méritos. Então acho que não vão parar de buscar algo só porque um caminho foi bloqueado. Esse argumento também vale para casos de doenças que não poderiam ser tratadas caso a mulher estivesse grávida. E quanto ao aborto espontâneo, considero aquelas que repetem pra si mil vezes durante o dia: Não quero esse filho, não quero esse filho, não quero esse filho. Não parece espontâneo pra mim.

Antigamente, digo desde que o mundo é mundo, matar e morrer tinham significados fechados. Hoje parece que não. Existe matar quando não há mais possibilidade, matar como ato misericordioso e por aí vai. Conheço uma pessoa, mãe de uma menina especial, de condição delicada e pouca massa cefálica, pra quem não foi dada nem uma semana de expectativa de vida e para a mãe em questão fora dada a opção do aborto. Esta recusou e a menina hoje tem 13 anos, enfrentaram dificuldades, hospitais, mas aprenderam a ter entre si um amor e respeito impressionantes.

Me pergunto o que seria dessa mãe se ela tivesse escolhido a segunda opção, provavelmente seria diferente de hoje, independente, teria sofrido menos, talvez nem melhor ou pior, só diferente. Porém, ela escolheu outro caminho e tornou-se muito mais do que pensava que podia ser. Escolheu, arcou com a escolha, amou e aprendeu. Simples assim. Mas devo dizer que a história dela me traz grande admiração.

Se você leu até aqui e por acaso formulou alguma idéia á meu respeito, só quero deixar algumas coisas bem claras: acredito que todos somos responsáveis pelo que fazemos, crime ou não, parecendo justo pra você ou não, e isso é algo que pra mim é universal. Independente de você acreditar em Deus ou não, de você acreditar que algo é errado ou não, de você encarar bem a palavra “responsabilidade” ou não, sua colheita é obrigatória.

Antes de caírem matando em cima de mim, sou da geração do filho único, não tenho um bocado de irmãos pra usar como argumento de pró-vida, minha mãe foi filha única e pode-se dizer que é uma mulher de muita fibra, não sou mimada ou egoísta como se supõe que filhos únicos são; meus pais são liberais e detestam machismo e autoritarismo; com relação a religião, não tenho nada contra ateus nem sou católica fervorosa, porém acredito que devemos ser gratos por TUDO, não tem haver com submissão, mas com tirar o que uma situação tem de melhor, porque sempre tem.

E só pra terminar, a mãe do Beethoven tinha todos os motivos do mundo pra abortar, dentre eles: possibilidade de deformidade do feto, sua doença (sífilis), uma família já com muitos filhos e pobreza, sorte nossa que ela não o fez. Não conseguiria viver num mundo sem Moonlight Sonata.



3 comentários:

  1. E eu não conseguiria viver em um mundo sem o quarto movimento da nona sinfonia *0*
    Enfim, amei o post e, realmente, aborto só sendo natural mesmo (ou seja, só quando a alma não quer encarnar).
    Até mais ;)

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  2. Ah, enfim alguém que enxerga o lado negativo do aborto com mais força.

    Pessoalmente, não acredito que uma política do tipo da bolsa nascituro dará certo sem que antes alteremos uma série de outros pontos da nossa estrutura social. Pelo que li das opiniões por aí, a maioria das pessoas vê isso como um ferimento à liberdade de escolha da mulher...mas o que eu acho mais bizarro é que ninguém, ninguém mesmo, parece dar a mínima para o fato de estar em jogo uma vida em potencial.

    Não tenho muito conhecimento em biologia para saber o ponto que um feto passa a ser considerado um humano consciente, mas independente do tempo há alguma vida se formando ali. Talvez eu seja meio suspeito para falar: eu mesmo fui um filho fora de um casamento, de uma mãe solteira e ainda terminando a faculdade...sim, eu estava em um contexto em que havia motivos para ser abortado.

    É uma solução pró-vida: O Estado poderia dar condições de uma vítima ter uma gravidez segura, limpa e, caso ela não desejasse o filho, simplesmente poderia direcioná-lo para alguma casa de caridade (como você mencionou). A mãe teria que passar por uma gravidez indesejada, é claro, mas não teria outras obrigações após o parto. Seria uma solução que valorizaria a vida. No entanto, a mentalidade geral não considera um feto como ser vivo até um certo instante t. E criar uma lei para proteger algo não-vivo enquanto a mãe tem que sofrer o peso de uma gestação causada por um ato de violência não soa nada justo.

    Em outras palavras, embora a lei tenha um caráter pró-vida, não acredito que seja coerente implantá-la em um contexto em que boa parte da população não valoriza o lado da criança (que só é criança após um certo período...se bem que, para alguns, só deve ser considerado ser humano depois do nascimento).

    Resumindo tudo: a lei valoriza a vida, mas pouca gente entende isso.

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  3. Muito, muito obrigada pelo comentário! Me alegra muito ver um desse tamanho! Consideram vida após a oitava semana de gestação, ou seja dois meses, porém como eu disse, é algo em potencial. Já vi um documentário sobre mulheres com endometriose, que passaram por cirurgias e tratamentos cujo maior sonho era ter um filho. O "amontoado de células de oito semanas" como dizem é algo extraordinário para essas mulheres.
    A violência não é apagada com um aborto, com uma bolsa, com apoio do governo, nada, será algo com o qual a violentada terá que conviver da melhor forma possível, no entanto, certos fatores podem gerar acúmulo sobre essa situação. Abortar é um deles, passar pelo processo todo de hospitalização e levar isso dentro de si são exemplos.
    É complicado também a questão que envolve uma doença por parte da mãe e o aborto espontâneo, contudo, fé pra mim é algo indispensável pra vida como um todo.
    Me surpreendi com sua história, fiquei realmente surpresa e admiro por usar isso para fundamentar a crítica. Tal qual Beethoven, ás vezes há grandes potenciais ceifados por um aborto, o que ás vezes também inclui o da mãe.
    Obrigada pela crítica e por entender os argumentos, sei que super racionais, feministas cheias de opinião ou pessoas que defendam arduamente a legalização do aborto podem ler o texto e me achar uma idiota, tola que não sabe o mundo que vive ou romântica, mas se não fosse assim não seria eu.
    Muito obrigada Will!

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