sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A Síndrome do Gladiador






Coloque uma música lírica triste e imagine a cena. Um homem todos os dias dizia: "Pai abençoado, defenda minha família com espada em punho. Mãe abençoada, proteja minha mulher e meu filho, diga que vivo apenas para abraçá-los de novo". E depois, por traição, sua família é morta, queimada e pendurada na varanda da casa onde viviam. Ainda que ele tivesse corrido o máximo que podia para impedir, não conseguiu.

O general Maximus era impecável e muito respeitável. Chegou muito próximo de se tornar imperador, mas recusou. Num momento tinha tudo em suas mãos e uma hora depois, o que era mais valioso lhe foi tirado. E naquele instante, seu melhor pedaço,o melhor que tinha dentro de si se perdeu. Assim, quando o vazio tomou conta dele, só houve duas opções: ou deixar esse vazio sugá-lo ou preencher isso de alguma forma. Maximus escolheu os dois.

A Síndrome do Gladiador é isso. É uma espécie de reação a algo, ou uma situação ou alguém, mas isso acontece de uma forma meio torta, modificando completamente a pessoa em personalidade e sentimento, havendo um foco em si mesmo e na sua melhora. Voltando a Maximus, sua família foi morta e nada mais lhe importava, embora fosse jovem e forte ainda. Ao se transformar em escravo, o vazio permanecia, mas nas arenas ele derramava sangue e se deixou levar pelos aplausos, não por gosto, mas por falta de sentidos maiores em sua vida. Se se parar pra pensar um pouco, ele tinha aversão e repulsa a toda exibição a que era submetido.

Quem tem Síndrome do Gladiador, é indiferente a muitas coisas. Maximus na hora da classificação dos escravos em amarelo-vermelho, joga fora a espada de madeira, mesmo sendo batido permanece com seu olhar firme, mas com uma expressão de: "To nem aí pra você". A síndrome faz da pessoa indiferente pelo vazio que sente, porém obstinada pra tentar preencher isso de alguma forma, embora não se consiga muitas vezes gerando uma grande revolta. Quando Maximus joga a espada na arquibancada gritando: "Não se divertiram?! Não se divertiram?! Não foi por isso que vieram?!" e cospe no corpo do seu adversário exprime o momento do vazio convertido em revolta contra o mundo.

E a questão dos aplausos? "Darei a eles algo jamais visto", as pessoas querem ser vistas, querem notoriedade, não por vaidade ou arrogância,mas por sentir que ao lhe darem valor, ela pode recuperar o seu próprio e se preencher. É como no coliseu cheio de gente, todos assistem a cada movimento seu, há um silêncio e o barulho que emerge em seguida faz você se sentir um deus, mas depois... o vazio. É como comer e não se sentir saciado, porque não tem fome do que está lhe sendo oferecido.

A Síndrome do Gladiador é uma constante luta contra um vazio interior utilizando indiferença e obstinação, não impede de ser bem sucedido, porém é como um espinho não retirado, que continua doendo. E como um gladiador, não se demonstra dores, só a concentração para a próxima luta. Só se alcança a cura, quando o vazio é preenchido, no caso de Maximus, quando reencontrou sua família na vida após a morte. Nesse momento, seus feitos ecoaram na eternidade e como na música  de Enya, ele ficou finalmente livre.

Tive isso por um tempo, mas me equilibrei quando minha vida mudou de fase. Na época de escola, era bem obstinada em notas e aplausos, achava que o eco disso era o bastante, embora em alguns momentos algo além fizesse certa falta. Tentava ficar indiferente ás vezes, não estar ou fingir não estar nem aí pro resto, queria que me vissem, queria aplausos da multidão. Quando descobri novas coisas, tudo mudou. Descobri que havia mais, coisas que me relaxavam, tipo conversar com as pessoas, ler histórias, me dedicar a algo mais relax. Talvez esse seja o segredo para se livrar da Síndrome do Gladiador, após tantas batalhas, busca incessante (e inútil) por aplausos e multidões mas que no fim te deixam só consigo mesmo, coisas simples que tragam vida são as que conseguem trazer a verdadeira liberdade.


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