segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Click: minha visão




Eu sou o tipo de pessoa que esqueceu a paciência no útero. Nasci de quase 10 meses, esperei muito pra respirar por mim, esperei muito pra chorar, esperei muito pra ver a luz do lado de fora, esperei muito pra tocar as pessoas. Esperei tanto que no momento que pus minha cara no mundo algo dentro de mim deve ter decidido que não queria esperar por mais nada. Daí, consigo entender perfeitamente o contentamento e fascinação que o Michael sentiu quando estava diante de um controle que podia assim num click acabar com as esperas que acabam com todos nós.

O modo como ele via a vida era uma faca de dois gumes. Não há nada de muito errado em querer crescer logo, desejar algo muito e logo. Contudo, nesse desejo, sua família, que também era importante, ficava á margem. Michael era um homem meio estressado, perdia a paciência com o filho do vizinho, com o chefe, com a secretária. Ainda que em casa tivesse aconchego e carinho, não conseguia passar por cima desse cansaço que foi se instalando em sua vida.

Noites em claro eram perdidas fazendo projetos na tentativa de conseguir uma promoção, xingamentos no trânsito, de novo o filho irritante do vizinho e seus caprichos, eis que um dia ele vai a uma loja comprar um controle universal e desaba: "To tão cansado da minha vida". E uma solução lhe é apresentada: o controle mágico.
Acredito que inicialmente ele não tinha a noção do que podia acontecer, estava tão empolgado que não pensou que pular etapas pode ser até muito rápido e eficiente para alguém que não possui paciência alguma, contudo até mesmo pra mim, reconheço que é inegável o aprendizado que se perde ao longo do processo. Morth, seu anjo salvador, até o alertou que ele não poderia voltar atrás e que o pote de ouro no fim do arco-íris poderia estar mais perto e ser bem mais simples do que se imaginava.

Michael, no entanto, pulou essa parte antes de descobrir. Conseguiu suas promoções, sucesso, dinheiro, a fama que tanto almejava, porém foi perdendo a família e o carinho dos pais. Não só isso, trânsito também era perda de tempo, não havia mais porque sentir o frescor de um banho, meros minutos desperdiçados; mesmo doenças, pra que sentir dor? Avançar o tempo podia até ser bom, mas ele perdeu sensações também. Percebe a importância de tudo que perdeu quando sua família, que já não era dele, fica em volta no seu leito de morte.
Bem, não posso negar que na minha visão, assim por um segundo avançar o tempo é tentador. Só que ás vezes é mais como uma fuga do que necessariamente por vontade. Sempre se quer fugir daquilo que nos machuca e sempre queremos logo aquilo que supostamente nos daria grande prazer, porém quando Michael conseguiu esse controle nas mãos, percebeu que avançar para tudo que sempre quis poderia privá-lo de muita coisa boa que só na caminhada existe além de trazer muitos dissabores e amargos arrependimentos. É duro pra uma pessoa impaciente como eu admitir, mas por mais difícil que sejam os passos, a felicidade ás vezes se encontra mais no caminhar do que na chegada.

E só por curiosidade: Michael teve uma segunda chance. E procurou aproveitar cada segundo, aprender cada detalhe, acompanhar cada pedra e flor ao longo do caminho. Muitos não conseguem essa chance, mas os que a possuem, uma forma de vencer a impaciência é buscar sempre olhar as mesmas montanhas por diferentes ângulos.




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