quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A Carangueja e o Porco Espinho



A carangueja  andava desconfiada. Fruto da fortaleza que criara desde que seu mangue fora destruído.

A carangueja sempre fora meio fechada, seus sentimentos interiores eram lindos, porém assumiam cores oscilantes, tornavam tudo tão incerto. Ela sempre fugia de tudo, protegia seus sentimentos ao passo que também se escondia do mundo. Subestimava sua própria força. Sempre viveu na água, dançava nas ondas, mas sempre voltava para sua casinha amedrontada de seguir mais em frente no oceano que se punha diante dela.

O porco espinho vivia na terra. Era seguro, obstinado, andava sempre pra frente ainda que o terreno fosse arenoso e hostil. Seus olhos miravam o horizonte, mesmo sempre sentindo a terra aos seus pés, por vezes eles ficavam no ar e ele seguia um caminho do qual acabava voltando ao ponto de partida.

O porco espinho levava sua proteção consigo. Não sorria deliberadamente, sempre mantinha uma postura ereta e séria, poucos realmente viram um sorriso vindo do fundo de sua alma. Seus espinhos logo se eriçavam ao menor sinal de invasão de espaço, logo ficavam afiados e prontos para se fecharem numa carapaça de modo a se proteger. Ele sempre voltava para sua toca, embora naturalmente já fosse protegido ainda que inconscientemente.

Eis que o mangue da carangueja se vai. Ela se vê sem uma coberta, sem uma proteção e aí se lembra de suas pinças. Começa a se fortalecer, começa a andar e descobrir que os galhos retorcidos e a lama eram uma parte dela, mas que o mundo era maior do que isso. Ela passou a andar para frente e sem medo de olhar para trás, sem o impulso de ao sinal de qualquer perigo voltar para seu mangue.

E o porco espinho continuava andarilho na terra, procurando a cada dia pisar mais forte de modo a se estabilizar, a deixar sua marca, a mostrar sua capacidade, pode-se dizer que o porco espinho tem algo de muito perfeccionista em seu sangue, não admite um túnel mal feito.

E num desses caminhos o porco espinho e a carangueja se encontram. Como sempre, estavam andando. E distraídos, houve uma cruzada de olhares. A carangueja notou algo logo nos olhos do porco espinho, uma seriedade mas no fundo também uma doçura diferente. Logo ainda que de naturezas diferentes, seus olhares e palavras cruzaram-se novamente. Por uma coincidência, o porco espinho saiu de seus espinhos, abriu um pouco seu espaço e a carangueja, mais fortalecida não tinha medo de se aproximar dessa espécie que ainda que austera a primeira vista, tocou-lhe o interior.

Os dois sem jeito a primeira vista, era uma situação diferente para ambos, olhos baixos, sorrisos sem jeito, toques trêmulos... e depois, a entrega total e a troca dos elementos aos quais pertenciam e assim tem sido desde então. Algo mágico e marcante, algo que quebrou os espinhos do porco espinho de certo modo e permitiu a carangueja uma liberdade fora do seu mangue que não havia ainda sentido.

Dizem que água com terra dá lama, porém todos sabem que a lama é uniforme.

2 comentários:

  1. Deixo as palavras de Camões para vcs. Vivam esse sentimento.

    Amor é fogo que arde sem se ver,
    é ferida que dói, e não se sente;
    é um contentamento descontente,
    é dor que desatina sem doer.

    É um não querer mais que bem querer;
    é um andar solitário entre a gente;
    é nunca contentar-se de contente;
    é um cuidar que ganha em se perder.

    É querer estar preso por vontade;
    é servir a quem vence, o vencedor;
    é ter com quem nos mata, lealdade.

    Mas como causar pode seu favor
    nos corações humanos amizade,
    se tão contrário a si é o mesmo Amor?

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  2. *-* Muito obrigada, Heber! Fiquei emocionada com o comentário!

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