quinta-feira, 10 de abril de 2014

Eu não mereço ser estuprada. Ninguém merece, aliás



"Eu não mereço ser estuprada". Essa frase nas últimas semanas fez sucesso. Tudo devido a pesquisa polêmica afirmando que mais da metade da população acredita que se as mulheres soubessem se comportar haveriam menos estupros e que mulheres de roupa curta merecem ser estupradas. E mesmo depois de provado que foi um erro do IPEA, a polêmica continuou e a repercussão idem. Estupro normalmente é um tema polêmico e quando vem acompanhado das palavras "merecer" e "roupa curta", a coisa pega fogo.

Primeiramente, estupro não tem a ver com sexo, tem a ver com violência. Não uma violência qualquer, é aquela do mesmo princípio de pessoas que torturam e serial killers: elas se comprazem do sofrimento alheio, é como se medissem sua força, seu poder e dominação utilizando a fraqueza do outro como cobaia. Com relação a roupa, uma frase que li desmistifica isso. "Se um bebê é estuprado, a culpa é da Pampers?". A culpa nunca é da vítima, nem da roupa nem das paredes do local, a culpa do estuprador, porém mais ainda da cultura de desrespeito que se instalou na sociedade.

Sabemos que há estupradores em potencial, assim como ladrões, assaltantes e assassinos e procuramos nos proteger, uma vez que se está a mercê de tais riscos. Compartilhei um texto que mostra uma ótica social parecida com todo esse rebu da pesquisa. Imagine que você sai de casa ornamentado, com seu anel de formatura, correntinha de ouro e tablet checando suas mensagens. Não raro alguém dirá: "Tá pedindo pra ser assaltado", "Que perigoso sair com tantos bens amostra" e se acontece o pior sempre tem: "Bem feito. Agora vai ter mais cuidado e deixar de ser besta." É bem familiar com a pesquisa não? As pessoas tem o direito de usar e sair com o que dá na telha, porém se abstêm disso em função de um perigo/ameaça que nada tem a ver com suas vontades. A culpa não é delas, é de pessoas cuja noção de respeito e compaixão é quase nula.  E pode crer, isso está muito além de machismo, paternalismo e outras palavras, é um problema da sociedade em geral.

E é claro, que uma pesquisa como essa gerou reação violenta. Protestos pipocaram em blogs, redes sociais, noticiários, o mais famoso é o de meninas seminuas com a frase escrita no corpo: "Eu não mereço ser estuprada". Acredito na validez da ação, nas intenções de chocar. Muitas toparam e entraram de cara, outras tem certo receio, já que nudez exposta sempre envolve muitos fatores. Ao mesmo tempo em que houve apoio maciço, também houve parcela rechaçando a idéia, afirmando que mostrar o corpo publicamente (ainda que a intenção fosse boa) só agrava o fato de verem a mulher como um pedaço de carne. E ainda questionarem a seriedade do protesto. Conhecidos (as) meus participaram do protesto, seja curtindo, compartilhando, escrevendo textos ou mesmo fazendo fotos. De alguns era tão esperado que o fizessem que não foi surpresa alguma suas atualizações.

Pessoalmente falando, ver meninas com seios de fora ou cobertas por um cartaz foi um protesto que não me impressionou nada. Acho que tenho alma de legista, ao meu ver anatomicamente, tirando a questão dos biotipos, somos muito parecidos por fora e internamente, daí ainda que haja uma questão de atitude envolvida, a nudez das moças (e alguns rapazes) protestando não me tocou, do mesmo jeito como não tocou a muitos. Devo dizer, todavia, que uma imagem realmente tocante foi uma na qual a moça estava coberta e com o rosto enfaixado, havia tanto significado e impacto ali, que pode ter causado mais efeito e chacoalhado mais do que as moças seminuas e seus cartazes.

A pesquisa, mesmo que falha, ajudou a mostrar como ainda encaramos essa questão da roupa curta-estupro-culpa. Ajudou também a visualizar que o problema é maior do que se pensa. Afinal, mulheres, homens, crianças, bebês e até pets que tenham donos com taras estão sujeitos ao risco de estupro e a questão da roupa curta cai por terra. Vai muito além de uma questão de machismo, feminismo radical, protesto, revolução, ou qualquer palavra dessas que se possa usar. 

"Meu dono é zoófilo.
Eu não mereço ser estuprado"
É uma questão de respeito, pura e fundamentalmente, tanto ao próximo quanto a si mesmo. O necessário é desenvolver uma consciência de que precisamos respeitar o outro, enxergar como um ser humano como nós, pois a partir do momento que se enxerga como uma pessoa digna, merecedora de paz e felicidade, se passa a ver o próximo da mesma forma. Só assim se evitarão estupros, assaltos, sequestros e catástrofes.




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