domingo, 6 de julho de 2014

A copa e nós



Parece que passamos da fase difícil e vamos para a semi-final, claro com a baixa do Neymar, mas ainda assim, lá. A copa no Brasil gerou tanto barulho, tantas declarações polêmicas, protesto aqui e acolá que nem nos perguntamos: qual a importância desse título? Jogar pedra no evento e realmente efetivo?

Ao meu ver, a taça não é tudo isso, pelo menos não o tanto a ponto de infartos e pressões arteriais elevadas. Afinal, ganhando ou não, os jogadores ainda que meio desmoralizados, voltarão aos seus times de origem, os turistas voltarão para suas terras natais e nós continuaremos aqui, com os resquícios da bagunça, os problemas de antes, só que com uma estrela a mais nas camisas e estádios enormes. Talvez esse big evento como foi pintado seja um manjar de contradições. Ao passo que alguns idolatram, outros repudiam e outra parte não se importa com nenhum dos lados.

Pra início de conversa, é notório o quanto foi gasto com os estádios e infra estrutura esportiva quando outros serviços básicos de suma importância se sucateiam. Quem vem de fora deve ter ficado impressionado com tamanha grandeza, porém é como eu disse, eles se vão. Podem comentar de como a casa do anfitrião possui belezas, mas não vão deixar passar o quanto tem bagunça, já que em seus países (em maioria) saúde e educação são funcionantes.

Nesse ponto eu até compreendo os protestos, a reivindicação era por melhores condições, o fato da copa ter grandes somas envolvidas foi só o bode expiatório. Não raro a medida que se aproximava a data de estréia e a afirmação "Não vai ter Copa" caindo por terra que se começou a ouvir declarações como: "Não temos nada contra a copa, ou contra os jogadores, ou contra a FIFA, temos contra corruptos que se aproveitam disso para desvio de recursos". A coisa mudou um pouco de tom nesse contexto. Esse discurso anti-copa perdurou até pouco menos de um mês antes do início, talvez as bandeiras asteadas, e as camisas amarelas tenham abafado o grito. Ou pior, os que gritavam tão ardorosamente, aos poucos contagiados, já marcavam até o churrasco do primeiro jogo do Brasil. Na verdade, todos nós, querendo ou não, pagamos um pouco por isso, pelos estádios, pelo marketing, pela decoração, pelas chuteiras. Então, á menos que se colocasse uma bomba nos estádios antes dos jogos durante a noite ou se encontrasse o Magneto, o início e ocorrência da copa eram totalmente inevitáveis.

Como já disse em outro post, os protestos tem seu valor, contudo dependendo do modo como o façam não se consegue muito além do ignorar do resto tão empolgado com os jogos e serem chamados de chatos. No dia do primeiro jogo, por exemplo, vi uma declaração: "Esse povo fica fazendo protesto e barulho logo no primeiro jogo. Vamos assistir em paz comendo pipoquinha. Povo chato esse." Eu pessoalmente, desde o início não fiquei super empolgada para a copa nem pela seleção, porém mesmo assistindo aos jogos, não banquei a estraga prazeres, afinal, seu direito acaba no momento em que o do outro começa. Quer protestar, mas não tem ninguém pra ver seu protesto? As ruas estão vazias? A multidão maquiada de verde amarelo sufoca suas reivindicações? Proteste do seu jeito, oras. Não use verde amarelo, não tire sua camisa cheirando a naftalina do armário, alugue filmes no dia do jogo, feche as cortinas, não saia pra gritar gol, torça contra, não participe da coleta do seu bairro pra pintar a rua, peça pra trabalhar no dia do jogo no lugar daquele seu amigo fanático por futebol e que coleciona figurinhas, não é o mesmo que sair na rua com faixas e cartazes, mas se é pra fazer algo, comece com essa pequena parte.

A copa de certo modo anestesiou a população, porém querendo ou não, também mobiliza a muitos. Nós devemos saber equilibrar isso, perceber o que vai continuar e permanecer após toda essa comoção. E mais do que protestar em conjunto, usar nosso poder individual para mudar algo. Alguns boatos na rede dizem que a copa foi comprada, desde o início ao se escolher o local onde seria realizada. Imagino as mães dos jogadores, que dão tantas entrevistas, falam tanto de como seus filhos sonharam, ao lerem essas declarações, devem se sentir ofendidas, brigar, defender a honestidade, etc. Todavia, se o Brasil comprou ou não, consigo dizer que os outros não aceitaram isso tão facilmente, já que muitas seleções deram seu sangue em campo. Se foi comprada, não sei, mas as outras seleções não aceitaram isso assim tão passivas.

E por falar em passividade, está tendo uma super reação por causa da joelhada no Neymar, eu só fui saber depois, bem á noite, pois não assisti o jogo e tão pouco prestei atenção. Estão caindo em cima do jogador colombiano e de sua filhinha de dois anos, como se isso fosse consertar a coluna do Neymar de algum jeito. A copa tem evidenciado como nós vamos do patriotismo a bizarrice em segundos e volta-se a revolta em tempo igual. Fatos assim que deixam muitos de nós e os de fora sem saber o que pensar.

Cheguei a ver gente mandando a FIFA e quem queria a copa pra bem longe, e sem reticências, com as palavras bem literais e os xingamentos habituais de burguês, idiotas e outros. Pessoalmente, sermos e nos mostrarmos tão excitados com a copa e esquecermos do resto é ruim, porém mandar os outros tomar no orifício anal como um bando de birrentos tão pouco resolve as coisas também. Vaiar o hino do país adversário não nos fará mais merecedores da taça e querer impedir as pessoas de verem os jogos não fará ninguém mais consciente dos problemas sociais. Quer mudar? Comece por você, há coisas que são grandes demais pra se abraçar, mas há outras que estão ao nosso alcance. Pensar bem em quem colocar no poder é uma delas.

Acredito que a copa toda e seu rebu é um divisor de águas. O mundo está virado pra nós e nossas bagunças, nossas condutas e confusões. Espero que possamos tirar algo de proveitoso disso, que possamos melhorar de algum modo e termos mais consciência de onde vivemos e das nossas falhas. Afinal, uma coisa é estarmos acostumados com nossa bagunça rotineira, outra bem diferente é termos hóspedes e eles repararem nessa bagunça. Vamos torcer pra que, conscientemente e civilizadamente, tenhamos mais vontade para arrumá-la.

E só acrescentando, no último jogo não estava pensando em copa, nem em jogadores, nem na joelhada no Neymar, estava ocupada demais em um evento de cultura japonesa visitando salas e tirando fotos. E tão pouco apoiei os desejos de morte ao jogador colombiano por parte dos "patriotas brasileiros".



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