quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Preconceito: o que você é?



Um novo mês começou. E já começou com muitos abalos. Pegando o gancho do que ocorreu com o goleiro Aranha do Santos, mais o protesto antigo do Daniel Alves com a banana e as plaquinhas de Somos Todos Macacos, eu me senti com mais inspiração pra falar sobre. Quando houve o protesto das placas, havia também o contraponto, o contraprotesto e porque não dizer, um pouco de zoeira com o assunto.

Não é de hoje que sentia vontade de escrever especificamente sobre preconceito, existe uma energia muito densa em torno do tema e os questionamentos de onde ele começa, quando e o que é considerado preconceito, uma simples palavra tem mesmo todo o poder de ofender um povo e ser considerada crime? Ou a palavra nada tem a ver e são as pessoas que dão tal poder? Já li sobre preconceito em blogs que gostam de falar a respeito, há vários tipos, dos mais comuns de cunho histórico até aquele contra grupos que a maior parte da população nem conhece. E formei uma opinião: quando se trata de preconceito, as coisas são como uma via de mão dupla, os dois carros a serem considerados nessa via são a ação e a intenção, eles podem seguir direções opostas ou ir para o mesmo lado dependendo de quem estiver dirigindo-os.

Por exemplo, o fato de chamar "preto (a)" por si só é uma fala. "Preto" é uma cor, mas pelas regras do português pode ser usada como adjetivo, daí pode-se dizer: "a blusa é preta" ou "a pessoa é preta" que preto assumirá função sintática igual. A coisa toda muda caso a palavra dita venha acompanhada de tom ofensivo e intenção de desrespeito, nesse caso, os dois carros estarão indo na mesma direção rumo ao preconceito. E preciso dizer que isso também se aplica a palavra "branco", pois muitos são olhados de cima a baixo, como ets e playboys sem caráter.

No caso do racismo, é compreensível que se tenha uma lei punitiva para tal, considerando todo o histórico de segregação, prisão e humilhações. E mesmo após a liberdade, a áurea de desconfiança em torno dos negros pós escravidão tidos como vagabundos e bandidos, os empregos, mesmo que remunerados, ainda permaneciam subaproveitados e em ocupações subalternas. Já vi uma capa de revista na qual uma atriz negra disse que quando vai a um restaurante vê pessoas como ela somente servindo ou limpando, o que implicitamente dá a impressão de que negros só servem pra isso. Bom, outras questões entram nesse ponto, pois há muitos brancos servindo mesa, porém o que quero dizer é que não se deveria estereotipar as pessoas dessa forma, pois devo lembrar, o juiz (aposentado) do Supremo, um dos melhores que o país já teve é negro e teve infância pobre.

Voltando a repercussão com o goleiro Aranha, ás vezes a competitividade e rivalidade entre times promova com mais frequência esse tipo de atitude. Explica-se, mas não justifica-se. Em uma visão geral, é uma falsa impressão de que xingando o time adversário, de algum modo o seu pode melhorar, quando não somente não há melhora como a sociedade passa a ver tal torcida com maus olhos. Talvez exatamente por isso que os responsáveis pelo time do Grêmio se retrataram.
O preconceito envolve mais do que cor da pele, uma vez que este é somente um tipo deles. Envolve falta de amor ao próximo. E não é uma frase "clichê de livro de auto-ajuda", ou como já ouvi "frase feita" na qual muitos estufam o peito dizendo que não acreditam, é uma verdade absoluta. Uma vez que há amor ao próximo, há um modo de enxergá-lo como se enxerga a si mesmo: como um ser humano merecedor de respeito, independente de opções, cor da pele, partido político ou religião. Há uma simpatia em enxergar o próximo como "pessoa" propriamente dizendo, alguém que possui sonhos, desejos, que sente, tem capacidade igual, sendo que esta não é medida pela cor, sexualidade, mas pela força de vontade e vontade de melhora pessoal.
E com essas concepções, vi vário tipos de preconceito, dos mais comuns até os mais estranhos. Há aqueles entranhados desde muitos séculos atrás, alguns surgiram agora, conforme algumas coisas novas também surgiram. A homossexualidade já sofria preconceito, hoje em parte se acentuou e em parte se amenizou. Ao passo que há leis que os beneficiam, ainda se escuta: "Querem convencer a gente de que isso é normal". E eu me questiono: "E não é normal?". Não é doença, porque não tem nenhum microorganismo ou distúrbio envolvido. Não é propriamente escolha, porque quem é, assim o nasce. Não é deformidade porque não envolve distorção de nenhuma estrutura física. É uma preferência apenas diferente do que a maioria está acostumada a ver, porém com todos os elementos que o "usual" possui: amor, respeito, vontade de ter alguém, prazer... Eu não vejo nada de errado.

Alguns mais encobertos também tem aparecido nas novelas: o que ocorre com os gordinhos. Bom, antes era por estética, mas hoje há os modelos plus size que em muitas vezes são mais simpáticos e carismáticos que os magrinhos. Provaram que há beleza também em roupas maiores. O preconceito, embora, exista, já tem dissolvido um pouco aquela idéia de que é só uma questão de tamanho ou estética, um fato de que o "magrinho é mais bonito". Acredito que a questão não é tanto essa, mas de saúde e porque não dizer, educação. Há magrinhos que se aproveitando de seu biotipo, comem todo tipo de gordura possível e imaginável e em quantidades surreais. Nas festas de família ou em churrascarias, o gordinho pode comer a quantidade média que é dois pratos médios, porém a tia e o dono do estabelecimentos vão olhar com aqueles olhos de abutre, mas o magrinho pode comer a mesa inteira, um espeto inteiro que não vão julgar com tanto rigor. Afinal, há uma crença de que magro quando come é fome, mas gordo quando come é gula. E no fim, sabemos que alguns gordinhos são mais bem condicionados que magros e tem exames laboratoriais singularmente melhores.

Eu já sofri preconceito. Preconceito por ser inteligente, por gostar mais de biblioteca, por não me interessar por algazarras de pátio e por gostar de ficar na minha e não sair. Sofri preconceito pelo modo de ver a vida, recebendo palavras muito ásperas, duras, magoantes... preconceito por seguir a risca a crença que me foi ensinada, uma que nos coloca como responsáveis pelo que pensamos e atraímos e prega a reforma íntima de nossos defeitos, que considera Deus como Pai, não como um Samu192 só para emergências ou fazer de nossa relação com Ele uma barganha de bençãos. Sofri preconceito por gostar de Chaves com a idade que tenho, por fazer cosplay... Acredito que se todos os preconceitos fossem punidos por lei como o racismo e homofobia, faltariam cadeias para ladrões e assassinos.

O preconceito para acabar exige uma reforma íntima, uma monitorização de atitudes. Tal qual a moça que chamou Aranha de macaco serviu de exemplo, devíamos observar melhor as atitudes que temos com relação ao outro, não necessariamente por causa da lei, afinal o caráter de alguém, o verdadeiro, se dá na presença ou ausência de lei ou quem esteja vendo, tem a ver com o quanto você se importa com quem está recebendo a mensagem.


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