quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Aborto: uma opinião


Pense rápido: o que é aborto? Comecei com esta pergunta no post de preconceito e acho muito pertinente começar com a mesma pergunta neste assunto tão polêmico e controverso.

Sei que a questão toda gira não só em torno do aborto em si, mas em torno da legalização dele, que nada mais é do que a permissão que ele seja feito com "segurança", "humanização", "toda assepsia que os hospitais possam oferecer". Antes, era tudo muito fechado: era proibido. Hoje, pelo menos aqui no Brasil, é permitido em casos de estupro, risco pra mãe e má formação. A luta atualmente é pra permissão em qualquer situação.

Mas e aí? O que é um aborto? Uma dica: lembre daquele filme Juno ou daquelas cenas de novela da mulher sangrando e se contorcendo de dor, é por aí... Aborto é a expulsão ou remoção do feto ou embrião do útero resultando na morte deste, sendo natural, ou seja, por questões fisiológicas da mãe que acabam por expulsar o feto ou provocada, quando há intervenção externa.

As feministas e simpatizantes são os que mais lutam pela legalização do aborto sob o argumento que a mulher deve ter o total direito sobre seu corpo incluindo escolher se quer prosseguir ou não com uma gravidez. Bom, sempre apoiei a idéia de que TODOS nós somos livres pra fazer o que quisermos com nosso corpo, nossos valores, nossas idéias e sonhos. Caso contrário, não haveriam abortos.

De uma forma mais clara, se não houvesse liberdade sobre o corpo como em muitos posts e notícias é pintado, nenhuma mulher faria abortos, pois ela não teria a escolha nem iniciativa de se dirigir a uma clínica e realizar o procedimento. Aí é que se esbarra num outro ponto da discussão: o que se quer na verdade não é poder fazer o que se escolhe, mas é o direito de realizar um procedimento de escolha com a máxima segurança permitida.

E então tudo se complica. Pois para que seja permitido algo do gênero, ou seja a legalização, se precisa de pessoas simpáticas a causa e que saibam fazer o procedimento. O que inclui uma equipe médica composta por médicos de várias especialidades, enfermeiros, técnicos, fisioterapeutas, psicólogos e assistentes sociais. Logo a escolha pode ser de outro, mas é inegável que outras pessoas serão envolvidas. E cá entre nós, quase todos os profissionais da área da saúde em seus juramentos dizem palavras bem parecidas: as de que usarão todo o seu conhecimento, recursos e capacidade em prol da vida humana. Daí, um feto ainda que seja só uma célula ou mal formado ou pequeno ainda pertence a nossa espécie.

Todos nós temos poder de escolha sobre nossos corpos, incluindo uma mulher grávida, porém quando se trata de aborto, além da sua escolha há a escolha de outras pessoas serem compatíveis com a sua e aceitarem arcar com ela junto com você. Daí me surge uma teoria: a de que o problema todo não seja escolha (pois ela você já tem e tem quem acompanhe), nem o local (visto que há médicos que também se dispõem e drogas vendidas livremente), talvez seja o fato de saber que não vai receber punição por isso e o aborto se tornar algo neutro ao invés de aversivo.

"Ah, mas sou contra o aborto, mas a favor da legalização". Tipo, é possível se dizer: "Sou contra o casamento gay e contra eles formarem uma família, mas tudo bem que eles namorem", "Sou contra a pena de morte, mas a favor de se matar em legítima defesa ou os policiais os matarem em operações"? O que quero demonstrar é que ser contra uma coisa mas a favor dessa mesma coisa poder ser praticada livremente com total aval da população e ser considerada natural, não faz ser contra a coisa em si. Dizer que é contra o aborto, mas não ter problema se dirigir a uma clínica, sugar/cortar/despedaçar o feto com um aparelho e sair me parece meio contraditório. Afinal, pode ser feito com a luva estéril mais cara do mercado, com a psicóloga segurando a mão da paciente, com o aparelho mais high tech do mercado num ambiente limpo e bonito, mas o desfecho ainda vai ser o aborto. Só vai ser maquiado pra ver se fica mais "bonitinho" e causar menos aversivos, mas ainda assim a escolha da mulher seria respeitada sobre seu corpo. O mesmo contudo não pode-se dizer do feto. Houve um caso nos Estados Unidos de um ginecologista que trabalhava em uma clínica de abortos. Um dia sua filha estava fazendo um trabalho sobre o assunto e ele viu que no momento do procedimento o feto apresentava uma reação. E ela era a de encolher. A mesma reação que adultos têm quando sentem medo ou ameaçados.

"Não será usado como método anticoncepcional". Considerando o fato de que as pessoas são diferentes, não duvidaria. Há um século atrás as mulheres também lutaram por emancipação e poder de escolha sobre o corpo e lutavam pra se libertar da opressão que sentiam, para poder usar métodos anticonceptivos e decidir assim quando engravidariam. Hoje, ainda que os métodos tenham evoluído e se diversificado, são negligenciados e acabam na questão do: não é 100% seguro, ainda que hajam exceções, alguns métodos são 99% seguros se utilizados corretamente. A mulher obteve sim liberdade pra usar seu corpo, caso contrário hoje não seria permitido fazer sexo na primeira noite, ou poder ter relações sem compromisso, ou até mesmo ter sexo com dois de uma vez só, enfim, aproveitar o prazer do sexo da forma mais pura sem que haja a consequência disso que é a gravidez. Por isso eu nunca menciono gravidez indesejada, digo gravidez inesperada, porque indesejar algo significa evitar de todas as formas possíveis e imagináveis; inesperada é saber que se corre o risco de acontecer, se prevenir, mas esperar que nunca aconteça.

"E o estupro?" Sempre acreditei no ser humano, embora sim, há dias em que vendo e ouvindo as pessoas em volta eu perca totalmente minha fé nas pessoas. E o estupro é um trauma, é uma violência, é algo que deixa marcas, mas nada impede a mulher de procurar se reerguer. Há uma diferença entre ser uma vítima e se tornar uma eterna vítima e com relação a gravidez decorrente de um aborto, ouvi uma frase também nesse contexto que dizia: "é um ser que cresce dentro de mim e isso é maior que qualquer violência", claro que eu posso entrar naquele critério de "a criança não tem culpa", mas vou além. Questiono se um aborto não é a pá de cal na situação da vítima. Uma coisa é ser estuprada e já ter todos os traumas que o ato traz, mas sofrer a violência e se submeter a outra que é o aborto, por mais consentido que seja, ainda acarreta mais traumas e mais dor. E será uma lembrança marcante para o resto da vida, capaz até de gerar aversão caso haja desejo por uma gravidez nova.

"E fetos mal formados?" A medicina avançou muito e quando se diz mal formados não são só anencéfalos, mielomeningocele também é um tipo de malformação, síndrome de down é um acidente genético que gera algumas formações diferentes, então talvez devêssemos analisar se abortar devido a uma "má formação" é realmente um argumento que não vai contra dar uma chance possível a vida. 


Enfim, acredito que escolha sobre nosso corpo assim como sobre nossas escolhas nós temos, mas é necessário falar que as consequências por essas escolhas, sejam elas quais forem, também nos são cobradas. Muitas dizem que não sentem culpa por fazer um aborto, e sentem orgulho disso, disseminam suas idéias, conseguirão falar disso com orgulho anos a fio? Abortar por mais seguro que seja, isenta uma mulher de ter repercussões futuras, o que inclui depressão, lesão de órgãos ou síndromes psicológicas? Ainda que seja legalizado, o ato em si diminui de impacto? O procedimento será menos doloroso e todos os sentidos? E se em um futuro próximo, houver a real legalização e assim como aconteceu com os métodos anticoncepcionais isso se tornar, digamos assim, obsoleto? Qual será a próxima sugestão? Direito por remoção de órgãos reprodutores ainda em tenra idade ou talvez, laqueadura com menos de 30 anos? Eu não duvido, porém assim como temos direito de escolher temos em igual proporção capacidade de lidar com as consequências.

Pessoalmente, ainda que a legalização seja confirmada, ainda serei contra. Há pessoas que se disponibilizam a fazer, outras que se submetem ao processo, então haverá a discussão. Eu tenho meus argumentos de como sou contra. E olha que nem citei Deus...




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