segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A experiência de um assalto


Ontem fui assaltada, não foi concretizado porque gritei e não quis largar a bolsa, levei um soco no rosto, caí e fiquei com uns machucados. Claro que uma experiência assim faz a gente repensar em fatores, imaginar mil e uma reações, querer fazer defesa pessoal, além de ficar meio desolado, afinal quem quer ser agredido e ver a pessoa ir?

Bem, eu poderia evocar vários discursos contra o governo, acusar a presidente e outros mais de não investirem em segurança, pensar em penas mais severas e tal, mas curiosamente comecei a pensar em outra coisa. Os bandidos, assim como os dos direitos humanos que muitas vezes os defendem, assim como o governo que não investe em segurança tal qual quem o formou são o que? PESSOAS. E tal como pessoas, são dotados de pensamentos e consciência (em teoria), além disso há o caráter, que possibilita você saber o que é certo e o que é errado. Que possibilita você saber que roubar e matar não é certo e isso estar claro na sua cabeça a ponto de o mundo exterior não interferir.

Eu sempre acreditei em escolhas. Acredito que as pessoas tem esse poder dentro de si e que ninguém é destinado a ser fantoche de nada. Afinal, se você é o espelho do outro ou meramente reproduz o meio, que personalidade é essa? É claro que muitos tem criticado os direitos humanos porque ele utiliza esse fator de oportunidades/meio para justificar crimes e defender quem os pratica. É uma visão meio torta, afinal, todos independente de idade, classe social ou meio precisam colher os frutos de seus atos. E encobrir isso tal qual apagar o que os autores de atos vis fazem é desleal para com os outros que ou são os sofredores com tais atos ou os que vivem a mercê deles.

Pode ser muito antiético o que falarei a partir de agora, mas talvez seja algo que passou pela cabeça de muitos. Se os direitos humanos justificam os atos vis através do argumento de "falta de oportunidades", não se pode por acaso justificar outros atos talvez tão vis quanto através do argumento de "justiça"? Muitos sabem que sou da área da saúde e ainda que tenha pouco tempo de experiência já atendi muitos meliantes e garanto que eles não são tão assustadores nem marrentos quando estão com um tubo na boca precisando de ajuda até pra respirar. Talvez seja por isso que não e revoltei tanto, porque já vi ao vivo a colheita da semeadura de um indivíduo que opta por esse caminho.

Sou eu e mais uma equipe multidisciplinar que trata deles quando eles se tornam retalhos do que já foram, medica, eu por exemplo já aspirei cérebros escorrendo pelo nariz, já vi eles agonizarem, talvez nós da saúde sejamos a última parada deles antes da funerária. E aí pergunto: o que nos impede de fazer algo sob o argumento de "justiça"? Sabendo que é um meliante diante de nós, o que impede de ministrar um medicamento que acelere o coração e leve ao óbito? Por 23h o paciente fica sob os cuidados da equipe e quando há uma ameaça, todos são solidários uns com os outros, portanto, haveria uma solidariedade mútua em livrar a sociedade de um perigo em potencial. Pra que devolver um individuo assim para a sociedade? O ventilador mecânico é minha responsabilidade, o que me impede de virar um botão e aumentar uma pressão além do que o pulmão suporta? O que me impede de aumentar a frequência respiratória e fazer um pulmão explodir? O pulmão de uma pessoa que ao sair pode me assaltar, fazer mal, a mim ou qualquer outro? Isso não seria fazer uma justiça para o mundo, para as vítimas? Ou em outras palavras, não seria até mesmo, cumprir um dever cívico? Livrar a sociedade de um mal não seria contribuir para o bem estar geral? O que me impede de "fazer justiça" com um simples virar de botão? Eu refleti e cheguei a conclusão de que o que me impede é a CONSCIÊNCIA.

A consciência do outro ou a falta de uso dela por parte do outro não determina a minha nem como vou usá-la. Não tenho medo de punições, este mundo foi feito pra ser de prova e expiações, nos ensina muito mas também pune, então só de viver aqui você está sujeito a punições. Mas não explodo pulmões de meliantes ou de quem quer que seja porque minha consciência me diz que isso não é certo, não cabe a mim punir ninguém pois todos colhemos de acordo com o que plantamos. Essa é a verdadeira justiça: a que vem do universo. Eu não me sentiria bem matando. Por mais "justificado" que fosse o motivo e por mais "merecido" que fosse para a pessoa. Tal como eu falei, o retorno não depende de mim.

A experiência com o lado mau do mundo é meio humilhante, talvez por um segundo ou dois a gente queira mudar e querer fazer a justiça nós mesmos, o serviço que a quem compete não é feito. Começa a pensar e cultivar ódio se deixarmos essa semente crescer. Mas talvez ainda com a dor física e lá dentro, a consciência fala mais alto. E pensamentos bons sempre ajudam. E com toda a certeza, minha consciência está limpa. E com isso, não tenho medo das minhas colheitas.

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