Eu poderia dizer: "é uma porcaria", mas serei mais detalhista. Segundo uns textos aqui e ali, dizem (com muita enfatização): que só o fato de ser homem é fazer parte da cultura do estupro. Bom, analisando por esse lado, eu devo me sentir obrigatoriamente vítima dessa cultura só pelo fato de ser mulher. Mas a pergunta é: e se eu não me sentir?
Segundo os mesmos textos é normal que os homens se sintam ofendidos. E pra ser sincera, se eu fosse acusada de ser estuprador em potencial só pelo fato de ter um pênis, também ficaria. O fato todo é que de acordo com as fontes, a cultura de estupro está relacionada com o fato de que por causa das concepções do patriarcado, do modo como a mulher foi vista anos a fio, ela vive com a insegurança de ser estuprada constantemente.
Eu compreendo, cara, eu sou uma menina, lembra? Eu ando sim com pressa, evito passar perto das pessoas, não caminho perto de grupos reunidos, se fazem psiu,psiu pra mim nem olho e se por acaso olham na mesma direção que eu, viro a cara. Tipo, devo ser alguma espécie de fura ideologia ao dizer isso mas a insegurança que eu possa vir a sentir não é com relação a estupro, na verdade quando estou na rua, penso mais onde quero ir e hoje, se o caminho é seguro a ponto de não haver algum trombadinha no meio. Mas a real é que sempre fui muito nem aí com psiu, psiu, eu simplesmente finjo que não ouço nem fico neurada com isso. Embora compreenda que a educação dos homens deve ser pautada em respeito e entendimento de que por mais que eles possam "aparentemente" ser dominantes, isso não os dá o direito de obrigar uma mulher ou quem quer que seja de qualquer coisa.
Voltando para as concepções, a cultura de estupro se estabelece devido a transformar o corpo da mulher num objeto de prazer. A mídia e cultura populares também propiciam isso. Logo, por esse raciocínio, músicas, novelas, propagandas e até a história da Branca de Neve entram no meio de "fatores que propiciam a cultura do estupro", sério, os príncipes que despertam as moças com um beijo são vistos como "abusadores" por muitas nos dias de hoje.
Contudo, alguns pontos são muito pertinentes nesse bolo todo. Estupro é uma palavra chocante. Ela remete ás vias de fato, porém algumas atitudes também possuem uma vilania do mesmo naipe. A questão dos homens "pegadores", por exemplo. O fato de se relacionar com muitas meninas e isso comumente vir acompanhado da concepção de que elas são objetos ou devem fazer o que quiser, também é considerado parte da cultura de estupro. Já ouvi que esse fato dos pegadores começa a ser incentivado na adolescência e em parte pelas próprias meninas. Se lembre dos tempos de colégio, quem eram os "sonhos de consumo"? Eram aqueles fortões, populares, boa pinta independente que fossem os mimados que pensam que o mundo os servem. As meninas só tinham olhos para esses e as mais quietinhas se sentiam subjulgadas por pensar que nunca teriam chance. Os garotos quietinhos, ratos de biblioteca e na deles eram tidos como panacas, ainda que fossem os mais legais. E aí começa o processo dos que no futuro podem se tornar os machões que não aceitam um não como resposta, incluindo de uma mulher na balada.
Essa situação puxa o assunto de que em situações nas quais ocorre um estupro ou assédio, por vezes culpam a vítima. Pela roupa, pela condição, pelo lugar onde estava (a história da insegurança). Esse ponto é ruim, pois a vítima não tem culpa, seja quem for. Eu quero dar a enfatização para a palavra "vítima", pois ela é unissex. Portanto, pode ser homem, mulher, criança e não limita somente ao estupro feminino. Afinal, os homens podem ser crucificados por serem homens, porém mulheres também estupram, mesmo em quantidade ínfima. E outra coisa: homossexuais são estuprados também, por outros homens e não duvido que também sejam assediados por mulheres. Porque pode parecer chocante dizer,mas mulheres secam bundas e peitos tanto quanto homens e tem também imaginação fértil, só não falam. O assédio também é considerado apologia a estupro, sendo algo muito negativo seja em atitudes ou palavras, porém sempre digo que ainda bem que ainda não se pode ler mentes, pois se assim fosse a proporção de assédio seria 50-50. Quem assedia vê o outro como objeto e isso independe de ser homem, mulher, hetero ou homo. E do mesmo jeito que homens podem ter ter uma ereção mental e assediar explicitamente, mulheres podem ter orgasmos mentais sem dizer nada, embora o pensamento seja o mesmo.
Qual a minha crítica a isso tudo? O modo como tem sido passado. Concordo plenamente que vítimas não tem culpa, que todos deveriam se sentir seguros pra ir e vir, que os homens devem ser ensinados a respeitar e não o contrário, ou seja, ensinar a evitar agressões. É válido criticar as agressões sexuais e também não fechar os olhos quando elas ocorrem, não é não afinal. Porém, pelo que vejo o modo como isso tem sido passado tem um tom mais próximo de agressivo do que de elucidador. Não faltam textos dizendo que "todo homem é estuprador em potencial" só pelo fato do homem ser homem, não escondo que palavras como tudo, todos, sempre, nunca devem ser usadas com cuidado, pois pode-se incluir fatores que nada tem a ver com o caso e o ideal tão defendido vira falácia.
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| Nem preciso dizer o que achei dessa budega ¬ ¬ |
Nem todo homem é estuprador em potencial pois muitos foram ensinados por uma mulher como se portar e não sucumbem ás pressões sociais. Muitas regras ditas ainda que influenciem em aceitação de um determinado grupo não são seguidas regiamente por todos, pois parte desse todo pensa antes de agir. Os filmes e novelas podem mostrar o que for, muitos tem o discernimento de pensar e perguntar pra si mesmo: "isso é certo?" e se não for, não fazem. Simples assim. E ainda criticam quem o faz. Portanto, pra quem usa a palavra "todos", lamento pelo pai e amigos homens dos ditos cujos.
Por essa ótica, muitas músicas iriam pro brejo. Tal como filmes. A Branca de Neve morava com sete anões bagunceiros, cuidava de uma casa e foi beijada quando estava dormindo. "Apologia a estupro!", mas tipo vamos considerar que o filme era de 1937, uma época em que o patriarcado era fortíssimo e que a massa de meninas e mulheres sonhavam com casamento e uma casa bonita pra chamar de sua. Uma época em que a mentalidade era essa, fomos evoluindo com o tempo, questionando e mudando, mas exigir idéias que não se tinham na época e criticar ferozmente um filme dessa mesma época é meio injusto e sem senso.
Outro ponto é: e se eu como mulher não me sentir inserida nessa cultura? E se eu não considerar homens estupradores em potencial? E se eu, só pelo fato de ter uma vagina, não me considere oprimida pela mídia, propagandas, o escambau? E se eu não aceitar que me inflijam uma vitimização e idéias que sinto que não que faço parte nem compartilho? Seria eu menos mulher ou acreditaria menos na igualdade por causa disso? Compartilharia menos a idéia de não violência por causa disso? E se eu, ao ouvir aquela música do Nego Bam "Ah eu vou gozar, vem que eu vou te tacar o peru" diga: 'Oh vamos, é engraçada!' ao invés de 'isso é um absurdo!', seria eu considerada apologista a estupro? É possível eu ser vítima de mim mesma? Porque acima de tudo é o modo como se interpreta. Eu posso considerar uma música e um filme inofensivos, posso não ligar pra cantadas, mas ainda assim saber que estuprar é errado, que mulheres devem ser respeitadas ao dizer não e passar isso para meus filhos, sobrinhos, primos... E passar isso para que eles aprendam a pensar e assim crescer.
E o mais importante: ensinar e elucidar dando a eles a consciência de que tem potencial para serem de bem e respeitar. Isso é diferente de já jogar sobre eles a capa escrita "estuprador". E é só uma opinião...



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