segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

"Que horas ela volta?", o que é esse filme



Motivada pelo fato de que o tão premiado, aclamado, ulalá filme brasileiro "Que horas ela volta?" ia passar na Rede Globo decidi assistir logo pra ver se era realmente tudo isso. Ler resenhas antes de assistir ao filme já dá uma noção do que se trata, mas ver e formar a sua é fundamental.

Preciso dizer que o filme é bom, é bem escrito, os atores escolhidos souberam passar o que seus personagens eram e o que a diretora queria que passassem. Foi essa estrutura que possibilitou os prêmios e críticas favoráveis e sucesso para a diretora. Lindo. Só que analisando por uma ótica mais fria, o filme passa a mensagem que se propõe, contudo deixa obscuras e abafadas algumas outras que também existem. Pelo menos a olhos mais atentos.
 
Como é de praxe, primeiros encontros requerem apresentações. Tudo no filme começa com a empregada e babá Val, que sai do Nordeste e vai para São Paulo buscando uma vida melhor, ainda que precise deixar sua filha Jéssica. Em São Paulo, ela passa a ser responsável pelo menino Fabinho, filho de seus patrões, Bárbara e Carlos, além de cuidar da casa. Assim se vão dez anos até que Jéssica diz que quer ir para São Paulo prestar vestibular, o mesmo que Fabinho. Neste ponto é que, segundo resenhas, tudo que parecia tão sólido começa a se romper. O sólido aqui refere-se a ordem na casa de Bárbara na qual Val fica restrita a seu quartinho e a cozinha.

Jéssica em tese vem para bagunçar essa estrutura com seu gênio e sua independência, o que realmente ocorre só que ela não abala somente a questão do tratamento às empregadas como a diretora quis passar, mas quem soube olhar, percebeu que abalou outras coisas também.

Devido ao tempo, Jéssica nem ao menos chama Val de mãe, mas pelo nome. E quando Jéssica chega, parece que Val é a única interessada em se aproximar. Ainda que digam que o afastamento entre mãe e filha seja o tema central do filme, eu não vi isso. Para mim fica bem artificial na verdade. Talvez fosse o contrário, usaram o afastamento das duas, para entrar na questão que mais foi debatida nas resenhas: o tratamento de Val pelos patrões.

Quando Jéssica chega, logo pergunta onde vai ficar e fica revoltada ao descobrir que Val mora na casa dos patrões, num quartinho e mais revoltada fica ao saber que é para lá que está indo. Com o passar dos dias, as alfinetadas continuam. Ao ser ciceroneada pelos donos, pega livros sem nem perguntar “Posso?”, entra no quarto de hóspedes, experimenta o colchão e diz: “Um quarto tão bom e ninguém dorme aqui?”, “É o quarto de hóspedes”, “É onde eu vou ficar então?”. Bárbara, a dona, fica brava e faz uma cara de contrariedade, mas concorda.

Daí, outros fatos marcantes como a adoração do dono da casa por Jéssica, o famigerado sorvete que ela sempre pede ou simplesmente pega escondido quando não estão olhando, mesmo sendo avisada que é de Fabinho, o pulo na piscina com o próprio Fabinho e o esvaziamento desta a mando de Bárbara, a briga de Val e Jéssica, a filha acusando a mãe de aguentar como “pessoa de segunda classe”... Tudo isso serviu de prato cheio para que enfatizassem a questão de: classe das empregadas oprimida e que Jéssica fez questão de quebrar o ciclo de exploração com suas atitudes e questionamentos.

Só que eu digo: Hipócritas.


Começa do ponto que depois de dois dias procurando textos sobre o filme e só achei resenhas de empregadas, filhas de empregadas, ex-empregadas e claro, um guest post no blog de Lola, todos dizendo o quão são a favor de Jéssica estudar, que o preconceito é real, que há abusos. Tudo bem, não desconsidero que haja, porém não achei justo que dentro desse todo só tenha achado uma, UMA única entrevista que falasse do outro lado, do lado dos empregadores e ainda assim, super tendenciosa e mal interpretada. Na qual usaram as palavras da entrevistada contra ela, ainda que ela não tenha dito nenhuma mentira ou devaneio. Já que histórias de patrões bons e justos e de patrões com más empregadas (maus empregados) também existem. Histórias nas quais este não cumpre as funções estabelecidas, nas quais a patroa diz “sirva batata” e o funcionário serve couve ou alguns se encostam, abandonam o serviço, maltratam crianças e idosos que ficam sob a responsabilidade destes e surrupiam objetos ou dinheiro quando ninguém está olhando.

Primeiramente, “Empregada” talvez deva ser uma expressão obsoleta já que gera tanto rebu e pano para as mangas da acusação. Pessoalmente, uma expressão mais adequada seria “Funcionária (o) doméstica (o)”. Quebra o ciclo que enfatiza a questão de “opressor-oprimido” e reduz a relação ao que realmente é: uma relação profissional, de negócios, com direitos e deveres, com punições passíveis para AMBAS as partes. Noto aversão à expressão “Quase da família”, com o profissionalismo, a coisa muda, a pessoa tem possibilidade de ser “amiga da família” ou não.

Mas voltando a Jéssica. Pode parecer lindo aplaudir quando ela experimenta o colchão e se convida a ficar no quarto de hóspedes, porém se você tem um funcionário, os familiares dele não são responsabilidade sua. Jéssica ao contrário do que falaram não “quebrou o padrão” por aceitar ser tratada como hóspede, ela SE intitula como tal, isso implica que por mais que alguém trabalhe em sua casa, um familiar desta pessoa não é um hóspede nem tem direito de chegar “abalando as estruturas da casa”.

Sendo mais clara, porém ainda assim sutil. Tal como Bárbara foi no momento em que pegou Jéssica tomando o sorvete de Fabinho escondido e descobriu que sua bandeja estava quebrada logo em seguida, disse respectivamente: “É por isso que o sorvete do Fabinho acaba” e “Pode não parecer, Val, mas essa casa ainda é minha” pode parecer lindo que muitas pessoas aplaudam o modo de Jéssica agir, que muitos incentivem e admirem que ela chegue e abale tudo, porém muitas dessas são aquelas que não aguentariam metade desses abusos nem de parentes.

Parece muito contraditório para mim que muitos ovacionem as atitudes de Jéssica, porém não suportariam nem parentes que fizessem o mesmo. Que se auto convidam para ficar em alguma dependência da casa tomando espaço, que bagunçassem seus pertences, quebrassem bibelôs e tomassem a liberdade de abrir e pegar coisas na geladeira sem pedir permissão ou sabendo que são especificamente para uma pessoa. Muitas dessas pessoas se ofendem quando uma visita chega e pede para que se prenda o cachorro, alegando que este mora na casa e a visita não, porém parecem achar perfeitamente normal que a filha de uma funcionária chegue e bagunce a casa.

Digo que achei a Jéssica abusada sim! Porém, no filme há essa caricatura de que o patrão é sempre vilão e que os abusos da filha da funcionária não são abusos, mas “quebras de padrão” que devem se exaltados desconsiderando o constrangimento que eles causam e que mais ainda, devem ser amenizados já que é a “filha da empregada explorada”. Afirmo que o tanto de senhoras ditas de “zonas nobres” que se levantaram das sessões de cinema talvez nem tenham levantado por serem esse retrato de patrão explorador, pois há patrões muito bons, mas se levantaram porque não aceitariam esse tipo de atitude dentro de casa e o tanto que li de críticas apoiando esses abusos e metendo pau nas patroas não tá no gibi.

Sempre entra a questão da luta de classes, porém me cabe falar que se fosse feito um filme com a vida de Jéssica após passar no vestibular o retrato seria o seguinte: ela poderia se transformar em uma arquiteta famosa, trabalhar, ganhar dinheiro e com isso faria parte da classe à qual pertencem as pessoas que tanto criticou, mas isso é coisa para um outro post. Não nego que admiro esse ponto da garra da personagem, garra essa que incentivou Val a sair da casa onde serviu. Acredito que o respeito mútuo deve ser fundamental e este deve se estender para ambas as partes. O empregador deve pagar o salário, garantir direitos trabalhistas e estabelecer horários de entrada e saída ao passo que o funcionário deve cumprir suas obrigações. Ambos não podem esquecer que sendo uma relação profissional, a vida de ambos fora desse âmbito deve ser preservada, portanto o empregador é livre pra sair sem chamar seu funcionário para ir com ele e seu funcionário é livre para ter sua vida pessoal igualmente.
 
Sei que o filme passou sua mensagem. Todos têm o direito de ter uma vida melhor, Jéssica por ser filha de empregada não precisa seguir os passos da mãe e pode e deve buscar uma vida melhor, melhores oportunidades e não aceitar quando dizem “Não”, contudo o modo como Jéssica faz isso causa aversão. Palavra de quem já recebeu hóspedes (da família) em casa. Pessoas que ocuparam um espaço bagunçando não só este, mas a casa como um todo, coisas sumiram, outras foram quebradas pela filha do casal, usaram pertences que não eram seus e a família tratava os donos da casa como seus funcionários e a casa como se fosse um hotel onde tudo era permitido.


Então, vem a pergunta: Quem aguentaria abusos dessa natureza da filha (o) de um funcionário? Por mais que o filme mostre uma boa lição de como devemos respeitar as pessoas, não exclui as atitudes de Jéssica, afinal falta de educação não é exclusividade. E não sendo exclusividade, não deveria ser amenizado independentemente de onde e de quem viesse. Seja do filho do patrão ou do filho da empregada.

2 comentários:

  1. Gostei muito da sua analise, enquanto assistia o filme batia uma revolta do tipo "se fosse eu tirava essa pelos cabelos" kkk obrigada por vossa opinião flor :3

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  2. Eu que agradeço seu comentário! Agradeço que tenha gostado e lido, foi como eu disse: todo mundo tem direito de ter uma vida melhor, agora entre você ter esse direito e querer usar ele pra abusar com o espaço do outro não cabe. Fico grata por sua opinião também e por ter passado por aqui ^^

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