Motivada pelo fato de que o tão premiado,
aclamado, ulalá filme brasileiro "Que horas ela volta?" ia passar na
Rede Globo decidi assistir logo pra ver se era realmente tudo isso. Ler
resenhas antes de assistir ao filme já dá uma noção do que se trata, mas ver e
formar a sua é fundamental.
Preciso dizer que o filme é bom, é bem
escrito, os atores escolhidos souberam passar o que seus personagens eram e o
que a diretora queria que passassem. Foi essa estrutura que possibilitou os
prêmios e críticas favoráveis e sucesso para a diretora. Lindo. Só que
analisando por uma ótica mais fria, o filme passa a mensagem que se propõe, contudo
deixa obscuras e abafadas algumas outras que também existem. Pelo menos a olhos
mais atentos.
Como é de praxe, primeiros encontros
requerem apresentações. Tudo no filme começa com a empregada e babá Val, que
sai do Nordeste e vai para São Paulo buscando uma vida melhor, ainda que
precise deixar sua filha Jéssica. Em São Paulo, ela passa a ser responsável
pelo menino Fabinho, filho de seus patrões, Bárbara e Carlos, além de cuidar da
casa. Assim se vão dez anos até que Jéssica diz que quer ir para São Paulo
prestar vestibular, o mesmo que Fabinho. Neste ponto é que, segundo resenhas,
tudo que parecia tão sólido começa a se romper. O sólido aqui refere-se a ordem
na casa de Bárbara na qual Val fica restrita a seu quartinho e a cozinha.
Jéssica em tese vem para bagunçar essa
estrutura com seu gênio e sua independência, o que realmente ocorre só que ela
não abala somente a questão do tratamento às empregadas como a diretora quis passar,
mas quem soube olhar, percebeu que abalou outras coisas também.
Devido ao tempo, Jéssica nem ao menos chama
Val de mãe, mas pelo nome. E quando Jéssica chega, parece que Val é a única
interessada em se aproximar. Ainda que digam que o afastamento entre mãe e
filha seja o tema central do filme, eu não vi isso. Para mim fica bem artificial
na verdade. Talvez fosse o contrário, usaram o afastamento das duas, para
entrar na questão que mais foi debatida nas resenhas: o tratamento de Val pelos
patrões.
Quando Jéssica chega, logo pergunta onde
vai ficar e fica revoltada ao descobrir que Val mora na casa dos patrões, num
quartinho e mais revoltada fica ao saber que é para lá que está indo. Com o
passar dos dias, as alfinetadas continuam. Ao ser ciceroneada pelos donos, pega
livros sem nem perguntar “Posso?”, entra no quarto de hóspedes, experimenta o
colchão e diz: “Um quarto tão bom e ninguém dorme aqui?”, “É o quarto de
hóspedes”, “É onde eu vou ficar então?”. Bárbara, a dona, fica brava e faz uma
cara de contrariedade, mas concorda.
Daí, outros fatos marcantes como a
adoração do dono da casa por Jéssica, o famigerado sorvete que ela sempre pede
ou simplesmente pega escondido quando não estão olhando, mesmo sendo avisada
que é de Fabinho, o pulo na piscina com o próprio Fabinho e o esvaziamento
desta a mando de Bárbara, a briga de Val e Jéssica, a filha acusando a mãe de
aguentar como “pessoa de segunda classe”... Tudo isso serviu de prato cheio
para que enfatizassem a questão de: classe das empregadas oprimida e que
Jéssica fez questão de quebrar o ciclo de exploração com suas atitudes e
questionamentos.
Só que eu digo: Hipócritas.
Começa do ponto que depois de dois dias
procurando textos sobre o filme e só achei resenhas de empregadas, filhas de empregadas,
ex-empregadas e claro, um guest post no blog de Lola, todos dizendo o quão são
a favor de Jéssica estudar, que o preconceito é real, que há abusos. Tudo bem,
não desconsidero que haja, porém não achei justo que dentro desse todo só tenha
achado uma, UMA única entrevista que falasse do outro lado, do lado dos
empregadores e ainda assim, super tendenciosa e mal interpretada. Na qual
usaram as palavras da entrevistada contra ela, ainda que ela não tenha dito
nenhuma mentira ou devaneio. Já que histórias de patrões bons e justos e de patrões com más empregadas
(maus empregados) também existem. Histórias nas quais este não cumpre as
funções estabelecidas, nas quais a patroa diz “sirva batata” e o funcionário serve
couve ou alguns se encostam, abandonam o serviço, maltratam crianças e idosos
que ficam sob a responsabilidade destes e surrupiam objetos ou dinheiro quando
ninguém está olhando.
Primeiramente, “Empregada” talvez deva ser
uma expressão obsoleta já que gera tanto rebu e pano para as mangas da acusação.
Pessoalmente, uma expressão mais adequada seria “Funcionária (o) doméstica (o)”.
Quebra o ciclo que enfatiza a questão de “opressor-oprimido” e reduz a relação
ao que realmente é: uma relação profissional, de negócios, com direitos e
deveres, com punições passíveis para AMBAS as partes. Noto aversão à expressão “Quase
da família”, com o profissionalismo, a coisa muda, a pessoa tem possibilidade
de ser “amiga da família” ou não.
Mas voltando a Jéssica. Pode parecer lindo
aplaudir quando ela experimenta o colchão e se convida a ficar no quarto de
hóspedes, porém se você tem um funcionário, os familiares dele não são
responsabilidade sua. Jéssica ao contrário do que falaram não “quebrou o padrão”
por aceitar ser tratada como hóspede, ela SE intitula como tal, isso implica
que por mais que alguém trabalhe em sua casa, um familiar desta pessoa não é um
hóspede nem tem direito de chegar “abalando as estruturas da casa”.
Sendo mais clara, porém ainda assim sutil.
Tal como Bárbara foi no momento em que pegou Jéssica tomando o sorvete de
Fabinho escondido e descobriu que sua bandeja estava quebrada logo em seguida,
disse respectivamente: “É por isso que o sorvete do Fabinho acaba” e “Pode não
parecer, Val, mas essa casa ainda é minha” pode parecer lindo que muitas
pessoas aplaudam o modo de Jéssica agir, que muitos incentivem e admirem que
ela chegue e abale tudo, porém muitas dessas são aquelas que não aguentariam
metade desses abusos nem de parentes.
Parece muito contraditório para mim que
muitos ovacionem as atitudes de Jéssica, porém não suportariam nem parentes que
fizessem o mesmo. Que se auto convidam para ficar em alguma dependência da casa
tomando espaço, que bagunçassem seus pertences, quebrassem bibelôs e tomassem a
liberdade de abrir e pegar coisas na geladeira sem pedir permissão ou sabendo
que são especificamente para uma pessoa. Muitas dessas pessoas se ofendem quando
uma visita chega e pede para que se prenda o cachorro, alegando que este mora
na casa e a visita não, porém parecem achar perfeitamente normal que a filha de
uma funcionária chegue e bagunce a casa.
Digo que achei a Jéssica abusada sim! Porém,
no filme há essa caricatura de que o patrão é sempre vilão e que os abusos da
filha da funcionária não são abusos, mas “quebras de padrão” que devem se
exaltados desconsiderando o constrangimento que eles causam e que mais ainda,
devem ser amenizados já que é a “filha da empregada explorada”. Afirmo que o
tanto de senhoras ditas de “zonas nobres” que se levantaram das sessões de
cinema talvez nem tenham levantado por serem esse retrato de patrão explorador,
pois há patrões muito bons, mas se levantaram porque não aceitariam esse tipo
de atitude dentro de casa e o tanto que li de críticas apoiando esses abusos e
metendo pau nas patroas não tá no gibi.
Sempre entra a questão da luta de classes,
porém me cabe falar que se fosse feito um filme com a vida de Jéssica após
passar no vestibular o retrato seria o seguinte: ela poderia se transformar em
uma arquiteta famosa, trabalhar, ganhar dinheiro e com isso faria parte da
classe à qual pertencem as pessoas que tanto criticou, mas isso é coisa para um
outro post. Não nego que admiro esse ponto da garra da personagem, garra essa
que incentivou Val a sair da casa onde serviu. Acredito que o respeito mútuo deve
ser fundamental e este deve se estender para ambas as partes. O empregador deve
pagar o salário, garantir direitos trabalhistas e estabelecer horários de
entrada e saída
Sei que o filme passou sua mensagem. Todos
têm o direito de ter uma vida melhor, Jéssica por ser filha de empregada não
precisa seguir os passos da mãe e pode e deve buscar uma vida melhor, melhores
oportunidades e não aceitar quando dizem “Não”, contudo o modo como Jéssica faz
isso causa aversão. Palavra de quem já recebeu hóspedes (da família) em casa.
Pessoas que ocuparam um espaço bagunçando não só este, mas a casa como um todo,
coisas sumiram, outras foram quebradas pela filha do casal, usaram pertences
que não eram seus e a família tratava os donos da casa como seus funcionários e
a casa como se fosse um hotel onde tudo era permitido.
Então, vem a pergunta: Quem aguentaria
abusos dessa natureza da filha (o) de um funcionário? Por mais que o filme
mostre uma boa lição de como devemos respeitar as pessoas, não exclui as
atitudes de Jéssica, afinal falta de educação não é exclusividade. E não sendo
exclusividade, não deveria ser amenizado independentemente de onde e de quem
viesse. Seja do filho do patrão ou do filho da empregada.




Gostei muito da sua analise, enquanto assistia o filme batia uma revolta do tipo "se fosse eu tirava essa pelos cabelos" kkk obrigada por vossa opinião flor :3
ResponderExcluirEu que agradeço seu comentário! Agradeço que tenha gostado e lido, foi como eu disse: todo mundo tem direito de ter uma vida melhor, agora entre você ter esse direito e querer usar ele pra abusar com o espaço do outro não cabe. Fico grata por sua opinião também e por ter passado por aqui ^^
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