"Daqui a algum tempo se o cara for negro, gay, descendente de índio e morar em um bairro de periferia ele nem vai precisar mais fazer vestibular, passa direto pra universidade"
No meu primeiro ano de universidade eu escutei isso de um colega e por mais que pareça horrível, seja pelo jeito piadista que ele falou ou pela sensação de lá no fundo ter um pouco de verdade, eu ri.
Mesmo que já estejamos quase no terceiro mês do ano, o assunto cotas ainda está em alta, afinal muitos ainda estão entrando em seus cursos, seja por causa de greves extensas ou por causa de chamadas de repescagem. Contudo, é fato que vai ano e vem ano, a história se repete: polêmicas, tretas e discussões por causa das cotas. Todos os anos amigos são bloqueados, amizades são desfeitas, guerras virtuais travadas em decorrências dessas polêmicas cotas. Alguns concordam, outros não. Que tipo de poder é esse que o assunto tem pra gerar tanto rebu?
Tudo parte do princípio talvez de quem se encaixe no padrão para receber cotas, que atualmente são com relação a raça e a renda. Se eu dissesse que sou contra estaria mentindo, porém também não sou a favor totalmente. Acredito que as cotas são sim, um bom artifício para que aqueles que tem maiores dificuldades poderem ter acesso a universidade. O problema é que este mesmo artifício tem falhas e não só pode ser violado facilmente com também estimula (e muito) a birra de classes que naturalmente já vemos.
Um exemplo? Não raros depoimentos de "quero mais povo nas universidades". O que claramente subtende-se que quem não passou utilizando cotas não é o que se caracteriza de "povo". Talvez pelo fato de ter estudado em escolas melhores, ou poder ter pago um cursinho, quem sabe. Só que não passa pela cabeça destas pessoas que a boa escola e cursinho eram oriundos de bolsas ou de muito sacrifício por parte dos genitores. E com isso, muitos ganham o título de elite carregado com as velhas críticas sociais que vemos. Talvez na visão política/social/econômica de muitos por aí, o fato de alguém ter tido certa oportunidade faz dessa pessoa elite. Confesso que estou nesse meio. Para muitos faço parte dessa "fatia privilegiada" porém é fato: não é culpa alguma meus pais terem decidido que queriam me dar um bom futuro e lutado para isso. E não é culpa nenhuma eu ter colocado na minha cabeça desde sempre que o único caminho pra isso era estudando. Nada veio de graça embora umas pessoinhas aí achem que basta estudar num "colégio de elite" que sua vaga está garantida.
Voltando ao assunto das cotas. Falam que muitas universidades são elitizadas e que não há representantes de baixa renda ou negros (ainda com cotas). Muitos não tem direito a elas e suam pra passar igualmente, mesmo com boa base. Isso não faz dessas pessoas menos povo. Claro que ao comentar isso num post caíram em cima de mim como gatos sobre ratos.
Disseram que eu precisava de aulas de interpretação. E eu, com classe disse que havia entendido e ressaltei que não fui elite, não sou hoje. Como muitos que acompanham as minhas postagens, sabem que ralo em várias coisas visando melhora pessoal e com isso abrir mais caminhos para mim, por isso que discordo em peso do que foi dito como sustentei a opinião até o fim. Só que é claro, sempre aparecem uns pra meter pau, porém eu sou uma adoradora nata do Rumpelstiltskin e curto muito transformar palha em ouro, por isso raramente falta inspiração pra posts. E como eu disse: adoro essas discussões e opiniões de pessoas que querem parecer grandes revolucionários. Pra mim, é como tiros de canhões na arena dos jogos vorazes.
Sempre valorizei o mérito. Sempre valorizei porque meus pais, na sua simplicidade porém grandeza de caráter e espírito me colocaram valores de que sem esforço você não chega a lugar algum. Eles tinham muito pra terem se revoltado com a vida dura que tiveram. Ás vezes com privações, explorações, por isso além de me ensinar a correr atrás, não se esqueceram de me ensinar a valorizar também o que tenho nas mãos hoje. E se quiser mais, ir atrás e investir. O problema é que as palavras "esforço", "mérito" e "luta" na época atual viraram sinônimo de ofensa ao invés de admiração.
Eu não sou contra a meritocracia. Antes que falem, li textos sobre e entendo perfeitamente o argumento contrário dizendo que não se pode falar de um sistema onde as oportunidades não são iguais. Concordo nesse ponto, mas nem por isso o sistema é essa perversão que pintam. O mérito continua a existir e pra mim, você dizer que é a favor dele mas contra o sistema que o legaliza é como dizer que gosta de hot dog tradicional mas não gosta de salsicha. Há desigualdades aqui, é verdade, porém ninguém lembra que mesmo para os que "possuíram tudo" se não houver desprendimento do mínimo esforço, não haverá vaga. E aos que não tem tantas oportunidades, não há o pensamento de que o esforço e trabalho são coisas construídas e louváveis. Daí qual a budega do problema?
Para muitos as cotas raciais vem para intensificar o racismo. Como já ouvi: "o negro possui a mesma capacidade e inteligência, por que precisam de costas? É como dizer que eles precisam de uma ajuda pra entrar", a população negra em peso é a favor das cotas, embora muitos digam que não querem isso, que preferem o processo seletivo comum, porém já notei que essas exceções não são bem vindas, não se quer ouvir esse tipo de coisa numa discussão. Eu, contudo, devo dizer que as cotas por renda e por ter estudado em escola pública são mais palpáveis e significativas. Somos uma população tão miscigenada que não se pode afirmar com tanta precisão que se "é negro 100%", é meio pretensioso se você não tem um bom geneticista que tenha feito seu mapeamento genético e dito que você tem maior porcentagem de DNA africano.
Cotas segundo vejo muito é como uma "compensação" pelas desigualdades existentes nesse sistema chamado vestibular. A população negra e mais pobre por não poder pagar e ter acesso a um bom conteúdo em sua maioria precisa das cotas para ter uma chance maior para entrar na universidade. Concordo com as cotas relacionadas a renda. Seria atirar no próprio pé se eu dissesse que sou contra, vendo a luta e sacrifício de tantos próximos a mim. Contudo, não acho certo essa guerra em nome das cotas quando se devia lutar para extinção delas e melhora da causa pela qual elas foram criadas.
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| "A maior parte dos alunos de universidades públicas vieram de escolas públicas" O professor deu um Touché! |
Todos os anos surgem aqueles que só faltam morder como cães raivosos as pessoas que argumentam contra cotas. Surgem argumentos como o que vi numa postagem, que universidades públicas ainda são elitizadas, que pessoas de baixa renda só entram com muito, muito esforço, que meritocracia é uma porcaria, fora as acusações "indiretas" pra mim como se eu fosse burra de não perceber. Claro que muitos desses argumentos caíram por terra quando um professor talentoso e veterano compartilhou uma reportagem na qual se afirmava que a maior parte dos alunos nas universidades públicas eram oriundos também do ensino público. A diferença do que o prof compartilhou pro que eu compartilhei no mesmo post é que ele era o prof respeitado e admirável, incrível o silêncio que se fez e cautela nas palavras dirigidas a ele. Mas exultei mesmo assim!
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| O governo olhando as brigas da população por causa das cotas. Olha como ele está se divertindo... |
No momento elas podem ser uma tábua de salvação, uma chance para muitos, porém mesmo os que usufruem dela não deveriam estagnar na idéia de "compensar o errado". Muitas pessoas sofrem e acusam as cotas de roubarem vagas, se esforçam e não passam. Outros mesmo tendo cotas, também não conseguem. Logo, não basta somente a tão falada "educação de elite" ou o "direito a cota", é preciso um desprendimento de esforço, o mérito (e meritocracia) é real e mesmo os que tem o "fácil" não conseguem muitas vezes e os que passam os obstáculos conseguem almejar seus sonhos.
O ponto principal das cotas contudo é que mesmo que ela conceda ajuda, ou compensações que soa melhor, não devia ser vista como a estação final. Concordo que ela seja provisória, mas discordo que ela passe a criar raízes irreversíveis, todos nós devíamos enxergar que melhor do que compensações aqui e ali como remendos, o ideal é que se fizesse o certo de cara, ou seja boas escolas, bons livros, bons professores para todos. Afinal, se fossemos peixes, devíamos ao invés de nos acostumarmos com um aquário apertado, devíamos buscar sempre o oceano.




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