terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Faça você mesmo: O Exercício do Enterrado Vivo


Nem todos gostam do escritor Paulo Coelho, mas preciso admitir que muitas obras dele têm um teor interessante. Algumas são românticas, com várias frases que estampam muitos diários e figurinhas de facebook, outras são reflexivas e tem seu cerne de sabedoria. Devo dizer que além de frases, existe um exercício interessante, descrito no livro O Diário de um Mago e que se chama O Exercício do Enterrado Vivo, importante para quem se encontra em alguma jornada.

Segundo o descrito no livro, o objetivo deste exercício é libertação. Libertação de todos os conceitos que oprimem, libertação da piedade de si mesmo, das coisas que incomodam e fazem com que nos sintamos menos do que somos.

Como o nome diz, você não pode fazer o exercício sem sentir a sensação de morrer e ser enterrado. Começa com aquela posição de óbito, deitado de barriga pra cima com as mãos cruzadas sobre o peito. Aí você fecha os olhos, ou fica com eles abertos mesmo e se imagina num caixão, dentro do seu velório. Na sua casa, na funerária, não importa, você precisa sentir que está ali, morto e absolutamente, ninguém o vê. 

Você olha para seus pais. Você consegue sentir o que estão sentindo, a dor deles, o pesar, a solidão que eles vão encarar pela perda e ausência.

Se tiver compromisso com alguém, vai olhar a pessoa e lembrar dos momentos juntos. Não evitará o ciúme de imaginar que a pessoa vai achar outro alguém, que é uma pessoa bonita e logo estará ouvindo palavras que você devia dizer de outra boca; vai ser tocada por mãos que não são suas; ser beijada por uma boca que não é sua e vivendo com outra pessoa, a vida que você devia ter vivido.

Você quer gritar, dizer que não, se mexer e se manifestar afirmando que está vivo e que vai poder viver tudo que quer, mas não sai nenhum som. 

Você percebe seus amigos. Alguns realmente sentem sua partida. "Ah, era uma pessoa tão legal", "Vai fazer falta", "Não merecia partir assim". Outros mais lembram de suas falhas, das manias, nem cogitam algo de positivo que possa ter feito. Outros já exaltados, já pensam se você deixou alguma coisa devido a toda amizade disponibilizada. Olham pra pessoa que você deixou solteira. Os colegas de profissão pensam que perderam uma força e tanto de trabalho, um profissional pau pra toda obra e imaginam quem colocarão no seu lugar.

E aí você olha pra si mesmo. Pensa em tudo que fez e principalmente no que não fez. Pensa nos livros da sua estante. Como tinha vontade de ler todos e ler alguns mais de uma vez, só que nunca tinha tempo. Você economizou tanto tempo, queria ter a certeza que estaria seguro em alguma eventualidade, mas deixou de viajar para aquele lugar bonito que aparecia sempre na televisão. Desde que começou a trabalhar, nunca mais aproveitou uma tarde de cochilo tranquilo. Sempre havia um trabalho, um relatório, uma correção pra fazer, uma conduta para não falarem de você.

Nunca descobriu uma atividade física que gostasse. Até mesmo pra que? Afinal, nunca tinha tempo e seria um dinheiro gasto em vão. Também não cuidou da saúde como devia, ou comia besteiras demais ou vivia se castrando e não experimentando aqueles doces para deixar a vida um pouco mais colorida.

Seus músculos começam a se enrijecer. Mas além do incomodo físico, você começa a ter um incomodo psicológico. No momento em que baixarem seu caixão, tudo estará perdido. Não haverá mais os livros, nem as viagens que você queria fazer, vem o arrependimento. Quantas noites você deixou de passar com quem amava em nome de algo externo? Quantas vezes se submeteu a algo que não queria em nome de uma falsa paz? 

São tantas perguntas que você daria tudo para ter uma segunda chance. Daria tudo pra poder dizer eu te amo para as pessoas, ter tempo pra fazer aquela viagem tantas vezes planejada e nunca feita. Você tiraria mais folgas. Leria mais coisas por prazer e aprenderia um hobby pra relaxar. Você chora. E implora para que notem seu desespero.

Só que aí percebe que somente você pode fazer algo. Você sente que estão mexendo você, mas não quer deixar tantas coisas pra trás. E tenta se mover. Consegue um pouco, mas não desiste. Até que reúne mais forças e num movimento rápido quebra as tábuas que o oprimem. Está livre, enfim.

E agora todos o veem. Está livre pra fazer o que quer. Está livre dos seus lamentos, pois agora não precisa deles.

Não espere que a vida o enterre para quebrar as tábuas que o prendem. Porque diferente deste exercício, pode não haver uma segunda chance e só restará o arrependimento e pesar.

Viva e simplesmente isso. Viva e respire...

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