Sei como muitos estavam alvoroçados pela estréia do Deadpool e revoltados com a possibilidade de censura e agora alguns, ou melhor algumas mais chatinhas, revoltadas com "piadas machistas". A censura fatalmente castraria muito o personagem em sua personalidade e conduta.
Eu preciso dizer, no entanto, que minha expectativa estava focada no filme da Garota Dinamarquesa, que tenho séria suspeita de ter sido igualmente castrado e censurado. Pelo menos pelas notícias, o filme sequer vem para os cinemas em muitas cidades e países, a minha é uma delas. Talvez o público ainda não esteja maduro o bastante para encarar um assunto tão delicado com a mesma naturalidade como é tratado no filme. Não tiveram maturidade para lidar com o humor ácido de Deadpool, não teriam para lidar com a personalidade de Lili.
Dinamarca, década de 1920. Einar Wegener (Eddie Redmayne) é um famoso pintor, conhecido especialmente reconhecido por retratar paisagens de Vejle, onde viveu sua infância. Casado com Gerda (Alicia Vikander), também pintora, os dois vivem entre exposições, festas, telas e noites de amor. Gerda ama Einar e vice-versa, porém enquanto artista, ela luta para ter seu lugar ao sol. O marido é o Top Um, ela, ainda que tenha muito talento, passa parte do filme peregrinando com suas obras, em parte por intermédio do marido, tentando achar um interessado e contatos, porém sem o tema ideal. Gerda tem personalidade e não se submete a ficar na sombra. Embora seja muito difícil, considerando que ambos trabalhavam com a mesma coisa e no mesmo ateliê, ela tem peito o bastante para dizer: "Meu trabalho é da minha conta. Fique fora dele."
Trabalhar junto porém possibilita se ajudar. Ao precisar terminar uma tela na qual a modelo faltou, Gerda pediu que Einar vestisse as meias, calçasse os sapatos e colocasse o vestido por cima para que ela pudesse terminar. Talvez tenha se iniciado ali o fio da meada, como um rio que começa para desaguar feroz no mar. Einar sente que o tecido lhe causa uma correspondência diferente do que simplesmente fazer uma pose. Nesse momento, surge uma espécie de alter ego do sexo feminino batizado de "Lili".
Gerda ao perceber que Einar se envolve com a energia, entra no clima e sugere que ele incorpore outra pessoa. Noto que ela teve papel fundamental, estando ao lado de Einar antes e depois de tudo. Confesso que o ritmo do filme parece bem mais corrido do que parece ser no trailer, embora isso não impeça o entendimento. Ao contrário, talvez seja um modo de mostrar ao que a temática veio.
Eddie mostra um arcabouço de belas expressões a partir do momento em que Lili começa a tomar espaço. Estas variam da dúvida, gentileza, conflito, tensão, tudo para mostrar como o conflito atinge Einar nessa transição, até que ele realmente descubra que não era apenas um jogo restrito ao seu estúdio. Ao se encarar nu, existe um despir quase palpável ali, a nudez do corpo reflete o que vai fundo na alma e no ser, acompanhada de trilha sonora excepcional. Se encarar e ao mesmo tempo encarar seus temores, admitir seus desejos é algo difícil, porém Eddie conseguiu passar isso com grande maestria com sua expressão corporal e facial. Além do que, ver Eddie Redmayne nu é sempre uma experiência muito interessante.
Gerda em determinados momentos não entende bem o que está acontecendo, porém em outros momentos se deixa levar, pois Lili se torna seu tema ideal de pintura e as pessoas se encantam com a "moça". Confesso que para Alicia deve ter sido um desafio expressar tantas faces de Gerda, ao início ela parecia um menina brincalhona e desinibida, no decorrer do filme mostra sua face de mulher forte e companheira, embora não desprovida também dos conflitos e sofrimento que é o de ver seu marido se transformar em uma mulher. Ainda que de forma inocente inicialmente porém de forma concreta com o surgimento de um professor sugerindo uma cirurgia revolucionária: a de mudança de sexo.
A Garota Dinamarquesa é um daqueles filmes que você precisa estar desprovido de véus para ver. Você precisa não se chocar com a naturalidade dele, com a exposição, é um filme com atores e enredo que coloca as cartas na mesa para os espectadores. Em muitas críticas, vi que Alicia acabou ofuscando Eddie com a evolução de sua personagem. Acredito que não dessa forma literal, porém é notório que cada ator teve seu momento ápice. O de Alicia começou a aparecer após Einar se assumir como Lili. Ela o amava e continuou amando mesmo depois da forma física deste mudar, houveram arestas e espinhos para serem aparados, porém Alicia soube passar essa sofrida passagem, ainda que carregada de amor e companheirismo.
Já Eddie literalmente convenceu. Esse é um ponto muito importante, já que estamos falando de um pioneirismo. E como tal, não haviam muitos recursos, leia-se hormônios sintéticos, próteses, nem mesmo aceitação. E mesmo assim, Eddie conseguiu convencer que era Lili e de uma forma tão perfeita que você mal consegue enxergar Einar a partir de alguns pontos, além disso, o filme deixa claro os parcos recursos da época de modo que exigências de amostras de modernidades na área da transexualidade ficariam totalmente fora de contexto aqui.
O que posso dizer em suma sobre o filme da Garota Dinamarquesa é que é um filme sobre amor. Não consigo, por mais que tente, achar outro significado pra tudo que é mostrado nesta obra. Trata-se do amor de Einar pelo que ele realmente é, amor dele por Gerda por ajudá-la, amor de Gerda por Einar e posteriormente por Lili, uma vez que era a mesma pessoa porém em uma forma diferente. Já ouvi pessoas dizendo que se transformar fisicamente em outro sexo é a parte doença, mas em muitos casos está relacionado com a confusão que se faz entre transexualidade e homossexualidade.
Digo que transexual acima de tudo tem a ver com algo que você tem, o qual se sente desajustado. Muitas pessoas nascem com um nariz que não gostam e plastificam, fazem dietas e exercícios para se livrar dos quilos que não desejam, pintam e fazem químicas nos cabelos porque a cor e formato não agrada, a questão é: por que haveria de ser diferente com o sexo com o qual se nasce? A pessoa, tal como Einar se sente desajustada com o órgão genital que possui. Ou como já ouvi de uma transexual em uma entrevista: "Eu olhava meu pênis ali no meio das pernas e dizia: isso não está certo". E aos desavisados, essa sensação de desajuste não é algo surgido de uma explosão hormonal ou participação em movimentos, ela literalmente acompanha a pessoa desde que ela nasce, passa pela tenra idade e continua pela vida toda.
A Garota Dinamarquesa não só mostra o pioneirismo de Lili Elbe, mas também ousadia do filme como um todo. E mesmo sendo de um tema ousado, não deixa de ser dócil e amoroso. Eu recomendo altamente, pois além de Eddie Redmayne e Alicia Vikander mostrarem uma explosão de talento, eles através dos personagens nos mostram que amor é capaz de coisas extraordinárias e que não há demonstração melhor de amor por alguém do que deixá-lo voar, mas ainda assim permanecer ao lado.







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