Ainda me valendo das minhas
anotações do III Congresso Espírita que achei e considerando todo o momento que
o país está vivendo atualmente, em uma das palestras falaram umas coisas sobre
consciência e a percepção dela que achei bem interessantes.
Claro que o foco dado envolvia
muito de vida espiritual, mas ainda assim faz pensar, ao menos para aqueles que
se dispõem a isso. Só pincelando um pouco, após essa vida terrena, suas
preocupações acabam. Você não precisa mais se preocupar com a política do país,
nem com os governantes, se são corruptos ou não, se fazem passeatas... lá do
outro lado só há você e você mesmo, e desse enfrentamento você não pode fugir
já que não há mais nada além dele.
Daí existe uma percepção muito
mais aprimorada do que você fez, não só por você, mas pelos outros também. E o
modo como fez também. Os rótulos se esvaem. Então aquele super ativo, lutador
de causas pode se deparar com uma conta bem alta para ser paga e vice-versa. O
foco de um jeito ou de outro estará em você. E tal como um grande foco, o nosso
de uma forma geral é nosso aprimoramento pessoal.
Com isso, em uma das palestras,
foi contada uma história muito interessante. E segundo o palestrante, também
muito antiga. Já devo ter dito que uma das minhas partes favoritas do congresso
são as historinhas. Os que palestram estudam muito, pesquisam muito para falar,
não é incorporar um espírito e falar como muitos pensam. O curioso é que essa é
uma história contada por um rabino, ou seja, vem da cultura judaica.
Dizem que em um reino havia um
rei muito, muito rico. Seu reino era vasto e ele tinha inúmeras riquezas em seu
palácio, que por sinal era enorme. Esse mesmo rei tinha quatro esposas e morava
com elas, cada uma delas tinha características peculiares.
A Quarta esposa era a favorita do
rei. Era uma moça jovem de quem o rei sentia prazer de satisfazer todos os
caprichos. Nada do que ela pedisse, fosse jóia, roupa ou acessório o rei lhe
negava. Ela era orgulhosa de ter o rei fazendo-lhe todas as vontades e sentindo
como se o mundo estivesse a seus pés.
A Terceira esposa era conhecida
por ser a mulher mais bonita do mundo. De todas as esposas ela era quem se
vestia melhor e andava adornada das jóias mais deslumbrantes. O rei, por sua
vez, sempre a escolhia para ir às festas com ele. Ela era sua favorita para os
eventos porque por onde ela andava, chamava a atenção e o rei adorava exibi-la
com orgulho, fazendo inveja a todos.
A Segunda esposa, já mais velha
que as duas primeiras, era a mais amiga de todos, tanto do rei como das outras
esposas. Por ser um pouco mais velha, era aquela com quem o rei mais conversava
e tinha cumplicidade. De todas, era com ela que ele se abria. Ela era sua
companheira e de quem ele mais recebia cuidados.
A Primeira esposa era uma mulher
muito doente. Ela vagava magra, cansada e tossindo pelos corredores do palácio.
Suas vestes nem pareciam vestes de rainha, eram velhas e rotas, ela mais
parecia uma serva do que a Primeira esposa do rei. Apesar disso, ela era louca
de amor por ele, o amava fielmente e devotadamente, apesar dele não lhe dar a
mínima atenção.
Chegou um tempo em que o rei
ficou doente. Ele ficou tão enfermo que convocou uma reunião com os melhores
médicos. O veredicto porém logo foi dado: “Meu senhor, o senhor está morrendo.
Sua doença é grave e talvez o senhor só tenha mais alguns anos de vida ou
meses”. Apesar dos cuidados, a enfermidade foi piorando e o rei ordenou aos
seus ministros: “Quero ver minhas esposas, tragam elas aqui”.
A primeira que adentrou o quarto
foi a Quarta esposa. Com o ar jovial tomado por pena, ela se aproximou do rei:
“Diga, meu senhor, estou aqui”. E o rei: “Eu estou morrendo, não tenho muito
tempo de vida. Eu gostaria de pedir uma coisa. Sempre satisfiz todas as suas
vontades, então gostaria de lhe pedir esta única coisa.” “Sim, meu senhor, o
que quiser, eu farei”. O rei respirou fundo e disse: “Eu quero que você vá
comigo. Quero que me siga”. A Quarta rainha foi tomada de espanto e surpresa e
disse: “Desculpe, meu rei, mas eu não vou. Eu sou daqui deste mundo, pertenço a
ele, não seguirei o senhor” E rumou porta afora do quarto.
O rei foi tomado de grande
decepção e tristeza, sentindo que suas forças ficavam fracas. Mas pediu que a
Terceira esposa entrasse.
Logo que esta adentrou o quarto,
aproximou-se da cama e logo disse: “Aqui estou, meu rei. Para onde nós vamos?”.
O rei tosse um pouco e diz: “Sempre adorei sua companhia, sempre adorei estar
com você, quero que me acompanhe quando me for deste mundo”. A rainha arregala
os olhos e com sinceridade diz: “Perdoe-me, meu senhor, ainda que adore sair
com o senhor, pra esse lugar não o acompanharei. E depois que o senhor se for,
provavelmente nos dias que se seguirem me casarei com outro”. E com essas
palavras, ela corre para fora do quarto.
Com mais esta decepção, o rei se
enfraquece mais ainda, a respiração fica pesada, os olhos pesam, porém ele
solicita a presença da Segunda esposa.
Logo que esta entra, ela corre
para o rei. “Estou aqui, senhor. O que deseja?”, “Você sempre foi minha maior
companheira, a pessoa que sempre me ouviu. Eu vou morrer, quero que vá comigo”.
A Segunda esposa ficou surpresa, porém foi sincera. “Senhor, eu não vou com o
senhor. Embora seja sua cúmplice de todas as horas, quando o senhor morrer o
máximo que posso fazer por sua pessoa é enterrá-lo.” E ela saiu correndo para
fora do quarto.
O rei sentiu mais aquela decepção
e com ela foi sentindo a vida se esvair. Os olhos mal se mantinham abertos, o
ar ficava mais difícil de entrar e neste momento ele sentiu uma mão pousar
sobre a sua. Com as poucas forças que tinha, olhou para ver quem era e se
deparou com sua Primeira esposa, igualmente doente e fraca, a olhá-lo.
“Eu não a tinha chamado ainda”.
“Tudo bem, eu vi tudo o que
aconteceu. Eu estava aqui o tempo”.
Os dois estavam muito fracos,
sentindo que a vida ia embora.
“Eu sigo o senhor. Eu vou para
onde o senhor for, o acompanharei sempre”.
O rei, emocionado, sentiu que as
lágrimas corriam em suas faces, enquanto se sentia desfalecer. E a Primeira esposa
conforme prometido, foi logo em seguida, seguindo-o para o outro mundo. Após isso,
as outras esposas seguidas pelos médicos, adentraram o quarto e viram o rei
desacordado abraçado com a única das esposas que se dispôs a segui-lo no além
túmulo.
Dizem que todos nós temos quatro
esposas. Cada uma delas diz respeito a um aspecto da nossa vida. E que assumem
significados distintos na hora da nossa morte.
A Quarta esposa representa nosso
corpo. Vaidosos, por vezes narcisistas, fazemos e satisfazemos todos os
caprichos do nosso corpo. Nada que ele peça é por nós negado. Ele quer prazer,
corremos atrás mesmo que esses prazeres sejam nocivos; ele tem um nariz ou
formas não tão belas, quantos não correm atrás da perfeição, para que esse
corpo fique o mais belo possível? Fazem exercícios, dietas, cirurgias,
sacrifícios para ceder ao capricho do corpo?
Na hora da passagem para o outro
lado, contudo, por mais belo e caprichado que o corpo seja, não importando se é
jovem, velho, alto ou baixo, ele fala: “Não posso acompanha-lo, eu sou daqui,
pertenço a este mundo”. E ele fica.
A Terceira esposa são nossos bens
materiais. As posses, riquezas, títulos sempre nos deixam orgulhosos, sempre
nos sentimos exaltados de exibi-los para todos. Escolhemos as melhores roupas e
joias para ir à festas, valorizamos títulos e cargos como classificadores de
status, exaltamos bens materiais conseguidos ao longo da vida, porém, na hora
da morte, os títulos não vão conosco, nem as joias, nem os imóveis... eles
dizem: “Não vou com você. E amanhã, provavelmente me casarei com outro.” Os bem
materiais, no momento em que partimos, ficam para aqueles que continuam nesta
terra.
A Primeira esposa é a síntese dos
nossos atos. Em suma, o nosso espírito e tudo o que ele carrega consigo, a alma. Ela é
a única em definitivo que nos segue na fronteira da morte. E mesmo ela sendo a única
que pode nos acompanhar, sempre a negligenciamos, deixamos de lado pra dar atenção às outras esposas, não ligamos para ela e não
lhe damos a atenção devida mesmo ela sendo tão próxima. Ela vive doente e em
grande parte por nossa própria culpa. Ela no momento que estamos partindo,
segura nossa mão e diz que nos acompanha para onde formos.
Por isso, é muito importante que a
gente cultive e cuide bem dessa nossa Primeira esposa, para que ela não ande
andrajosa e esfarrapada no nosso palácio interno da consciência e com ela
possamos ter um casamento feliz. Mesmo no momento em que partimos.



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