Como muitos sabem, além de autora de post, youtuber, sou revisora do site de fanfictions Nyah. Comecei em 2008 numa madrugada buscando por fotos de casais e me deparei com uma capa de Sakura e Sasuke. Resultado: varei noite adentro lendo e não parei mais. De lá pra cá, com o advento do facebook e outras redes sociais, muita coisa mudou e algumas surgiram. Em especial discussões sobre temas de fics, os quais variam desde o romance mais água com açúcar até aqueles bem polêmicos.
As maiores discussões atualmente giram em torno de feminismo, racismo, objetificação da mulher e romantização de estupro e/ou temas que não devem ser romantizados. A comoção é tanta que verdadeiras sagas discursivas surgem de um único post. E misturando opiniões de vários tipos de pessoas de várias correntes e vertentes. Alguns levantam verdadeiros problemas sociais, outros voltam à simplicidade de que é somente uma fic e escrever algo polêmico não faz de nenhum autor algum incitante a atos ilícitos.
Acredito ser pertinente antes de mais nada definir alguns termos, para que se entre no mérito de certo ou errado. "Estupro" é a união não consensual. Não importa se é entre um casal hétero, homo masculino ou feminino, se nesses dois indivíduos, um disser não; não quiser entrar no clima ou não estiver sequer em condições de responder, é estupro. Se for violento ou não, é um detalhe, o que conta é o não envolvido. "Romantizar" é tornar uma situação, seja qual for, bonita, romântica, admirável ainda que utópica.
Logo "romantizar o estupro" é como tornar o sexo não consensual algo bonito e encantador. Por exemplo, imaginemos uma fic na qual uma moça é violentada pelo amigo ou por um parente. No caso de não ser violento, ela se sente humilhada e violentada, no caso de violência, há a dor e o trauma. Contudo, após passado algum tempo, a vítima começa a se afeiçoar ao agressor, desenvolver paixão e se excitar ao pensar no mesmo. É nesse ponto que o caos começa.
De um lado há os autores afirmando que fics são ficções, as quais não possuem qualquer relação com a realidade nem reproduzem opinião e conduta pessoal do autor por mais chocante que seja o que está escrito. Por outro lado, há os que condenam regiamente qualquer romantização do ato (abominável) e que se valem do argumento que ainda que ficcional, uma obra tem influência sobre os que com ela têm contato e que só a mera escrita de algo dessa natureza já é uma ofensa a quem foi estuprado ou sofreu algum tipo de abuso.
Quando se trata desse assunto, sempre digo que há duas linhas de pensamento e algumas dualidades, quem sofreu algum tipo de violência não é a única variável nessa equação. Há vários pontos a se considerar: o primeiro é de uma pessoa que se ofenda e não se sinta a vontade para ler uma fic dessa natureza, porém opta por não ler simplesmente. Há os que repudiam sumariamente a romantização do estupro e outros afirmando que influenciam os leitores e acusam os leitores de falta de empatia. Acredito que há também o ponto de que o autor é livre. Não se pode censurar idéias. E em se tratando de fics, que em grande parte são tão reais quanto você receber uma coruja com uma carta de uma escola de bruxaria, você pode dizer que não gosta, não ler e não apoiar, porém não tem poder nem autoridade para mandar o autor não escrever ou tirar a fic do ar. Isso fora as acusações de não empatia, insensibilidade, incitação ao crime e diagnósticos psiquiátricos de "insanidade", "depressão" e "loucura".
Acredito que há um problema sério aí. E o fato de leitores se ofenderem é só um deles. Há problemas de interpretação. A questão de você falar que gosta de ler ou escrever fics que contenham estes temas por vezes faz o outro receber isso como "Não me importo com quem viveu essas situações" e tomando por base as discussões, o indivíduo não direciona a ninguém mas quem se sente ofendido chega até a exigir retratação. O que me parece exagerado. Afinal, pensemos: alguém que fala de uma preferência só é responsável pela sua própria fala. O outro pode se ofender e criticar, mas não tem o direito de ofender o colega. Já dizia Gandhi: "Ninguém me ofende se eu não permitir".
Por outro lado, dá pra compreender que alguém que viveu uma situação tão extrema como estupro ou algum trauma se toque e se incomode mais do que os outros quando lê isso refletido numa fic. É totalmente aceitável e não dá pra tirar a razão da pessoa. Nesse momento, como o autor não pode ser castrado e alguém se ofende, como resolver? Nas mesmas discussões, vi propostas interessantes. Uma delas é o velho "não gosta, não leia". Eu não curto incesto, mesmo entre meus personagens favoritos, logo quando vejo a tag lá, passo direto e nem abro. Contudo pode ter o mérito de "algumas fics tem títulos fofos, porém um conteúdo horrível", nesse caso o autor pode se valer de um recurso chamado "aviso preliminar". Ele avisa sobre tudo que sua fic contém, se o leitor continua ou não, é por sua conta e risco.
Depois de todas as discussões do Nyah, percebo que algumas coisas precisam ser esclarecidas, até para que os leitores e escritores se respeitem mais nas discussões, pois a razão de eu levantar esse questionamento foram as constantes conversas que atingiam níveis estratosféricos de ofensa, falta de educação, soberba e arrogância. Precisamos perceber que um autor pode escrever sobre um tema delicado romantizando-o, mas isso não significa que ele não saiba que na realidade não é assim ou seja algum tipo de insensível desgraçado. Um leitor pode se ofender com isso, porém não é obrigado a ler nem exigir que o autor retire. Um autor pra evitar tretas resolve tudo com um aviso no início do capítulo já que não tem como adivinhar que traumas quem está lendo tem. O leitor pode não concordar e criticar porém nunca castrar as idéias do autor e ofendê-lo.
E assim, com essas pequenas dicas, amigos escritores e leitores, vamos caminhando rumo a um mundo de fanfictions melhor.


Nenhum comentário:
Postar um comentário