segunda-feira, 6 de junho de 2016

A Síndrome de Hancock



"É difícil ser eu, afinal sou o único da minha espécie"

Hancock era um tipo diferente de herói. Ele era muito poderoso, fazia até boas ações, salvava pessoas porém não com aquele feeling de herói que muitos estão acostumados a ver. Ele não tá nem aí pro Greenpeace quando este reclamou da baleia encalhada que foi arremessada; ele não pensou no que falariam dele quando atacou o carrinho de sorvete depois de um incêndio, nem liga se aterrissar num carro de milhões de dólares.

Hancock parece literalmente não estar nem aí pro resto, apesar de fazer coisas "boas" com seus poderes. Ele bebe muito, faz acordos com os caras que ele mesmo prende depois. Não o faz pra ter atenção mas porque algo dentro dele não se importa muito com o rumo que as coisas tomam. Ainda que ele seja muito poderoso, Hancock permanece como uma folha que se deixa levar pelo vento.

E sim. Ele é um solitário. Não raro perceber um olhar meio perdido em muitos momentos do filme. Um olhar meio como que procurando alguma coisa, seja sentido ou propósito na vida. Tanto que quando ele é preso, fica olhando pro nada na cela e quieto no seu canto, ele poderia quebrar tudo, fugir e libertar todo o resto mas não o faz, acha que ninguém sente sua falta. E claro, tem sua própria maneira de conseguir respeito dos outros. "Se você não sair da frente, a sua cabeça vai parar na bunda dele. O negócio vai feder pro teu lado, criança"

Porém tudo é uma questão de aprendizado. Ao encontrar um bom homem que enxergou seu potencial, ele começou a aprender que nem tudo é estar nem aí, que tem nobreza em salvar pessoas e ajudar os outros, embora aquela solidão permanecesse. Ele se questionava dizendo que podia não ser a melhor pessoa do mundo mas "ninguém?". Ninguém para procurá-lo? Ninguém para dizer que o conhecia? Ninguém que pudesse se importar?

Ter a Síndrome de Hancock é se sentir solitário de um jeito quase que extraordinário. É se sentir tão só que parece que você é invisível. E as perguntas de "Ninguém?" se tornam muito mais frequentes que em outras pessoas. E quase acompanhada de questionamentos quanto ao próprio ser. "Que belo mau caráter eu devo ter sido pra ninguém me procurar no hospital. Eu sei que não sou o cara mais legal no mundo, é o que dizem mas... ninguém?". Quando eu era nova, andava a Universidade inteira, da cantina, a biblioteca ao canteiro onde ficava um jambeiro enorme, os corredores, as salas, os laboratórios e também ficava assim, sem ninguém pra conversar, puxar papo ou que falassem comigo, o genuíno "Ninguém". É dizer "passo" quando perguntam algo, é ter boas características mas em alguma parte de seu interior ter desistido de tentar se encaixar no resto do mundo. Essa carapaça dura difícil de quebrar por vezes fica mais vulnerável por intermédio do aparecimento de alguém.
Ao que parece Hancock fica vulnerável quando seu par se aproxima. Essa vulnerabilidade permite que ele envelheça, tenha filhos, viva a vida, mas também possa se machucar. Porém resta a pergunta se isso não é uma coisa boa. 

Quem tem a Síndrome de Hancock precisa de algo pra quebrar sua invulnerabilidade e sua couraça de espinhos, seja pessoa ou coisa, algo que desperte algo mais, porque afinal todo mundo é algo mais, ainda que o mundo diga não, mas todos mesmo se sentindo solitários como Hancock tem alguma coisa a mais para oferecer. Mas tal qual Hancock se precisa ter confiança e noção de descobrir nossos verdadeiros poderes e assim nos tornarmos super heróis.

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