domingo, 31 de julho de 2016

A aversão ao diferente. Trágico. Trágico


Segundo uma pesquisa sobre rejeição de parceiros, muitas pessoas rejeitam piercings e cabelos coloridos. A explicação relacionada com a evolução da espécie diz que este sentimento do homem na sua primitividade ser avesso à novidades. Em outras palavras, o Uga-Buga de um bando rejeitava qualquer indivíduo que se apresentasse de forma diferente do seu bando.

Hoje, milhões de anos depois, não somos mais nômades, não caçamos pra comer nem precisamos nos deslocar em bando para sobreviver, mas a aversão ao diferente permanece. E vários tipos de aversão que se converte em preconceitos, falas e olhares tortos. Mesmo a aversão a que pensa diferente de você faz muitos buscarem qualquer característica física ou qualitativa na pessoa a fim de diminui-la.

Em especial no país em que vivemos, qualquer coisa que se sobressaia um pouco mais já é motivo pra um olhar mais torto ou atravessado. Seja em aparência, por gostos, hobby ou opinião, alguns tendem a ser olhados com mais estranheza que outros, afinal certas coisas, ainda que nada tenham de anormais, são olhadas como se fossem.

No país do futebol parece estranho que alguém prefira games e fuja daquela social pelada, não queira uma bola de presente ou sequer se interesse por cultura brasileira, preferindo coisas de fora que a seus olhos pareçam mais interessantes. Em um lugar onde o clima normalmente é quente, como conviver com aqueles que gostam de casacos pesados, coturnos, modas alternativas? Ou simplesmente ter um cabelo diferente do velho liso/cacheado/crespo de cor loira/castanha/preta? Acessórios como piercings, brincos transversais, turbantes, em brancas ou negras, é olhado como o fim do mundo.

No mês em que comemoramos o Dia Nacional do Cosplayer, vi o quão tóxica pode ser essa reminiscência ancestral. Na verdade vejo toda vez que há um evento e nos depoimentos dos cosplayers sobre o que acontece do momento que estão saindo de casa até o momento em que voltam. Cosplay é a arte de se vestir como um personagem. Seja de filme, desenho, anime ou série, originais também valem. Nasceu meio tímida, hoje, contudo, tem adeptos do mundo todo.


E leia-se aqui, não só adeptos mas também eventos e competições sérias que reúnem esse público, estimulando cada vez mais a arte. Aqui no Brasil, possuímos bons representantes no ramo. Os Irmãos Somenzari fizeram bonito representando o país na Copa Mundial de Cosplay. Só ressaltando que em termo de cosplay somos tri-campeões mundiais. Logo, me surpreende haver tanta ignorância e rejeição contra o diferente. Não só o diferente hobby do cosplay, mas diferentes esses que além de serem hostilizados, são totalmente inofensivos e nada prejudicam quem está inserido neles.

Por isso eu acho engraçado. Acho uma palhaçada o Brasil sediar as Olimpíadas, da mesma forma como foi engraçado sediar a Copa. Não toco no ponto de indignação, pois afinal, é como se já estivéssemos tão acostumados a rachaduras na saúde e educação e roubalheiras, que é até lucro ter um evento que faça o mundo olhar pra cá. Toco no ponto de que é engraçado pensar que receberemos pessoas do mundo inteiro, leia-se pessoas que falam línguas diferentes, que tem olhos e cabelos diferentes, costumes diferentes, usam adornos diferentes... Definitivamente o mundo não é igual a nós, contudo sequer conseguimos lidar com as diferenças das pessoas que vivem no próprio país, o que dirá lidar com a diferença dos outros. É velha história: arrume sua casa primeiro antes de arrumar o que está fora dela. Talvez seja por isso que os turistas vem aqui e dizem: “Oh, beautiful! Beautiful!” ou “C’est magnifique!”, porém não há muitos que queiram realmente ficar aqui, ao passo que há muitos brasileiros que querem sair daqui.

E eu ainda nem estou mencionando sexualidade, religião e cor, que são os pontos mais delicados e relevantes quando se trata de “diferença” e que fazem as estatísticas de intolerância com relação a estes três pontos e violência engordarem de sobremaneira. Falo de coisas simples, bobas até. Um piercing no septo nasal, um piercing no nariz, uma tatuagem na nuca, uma camiseta de super herói, uma roupa diferente, um cabelo colorido. Coisas que não deviam incomodar ninguém ou ser motivo de risada, mas faz você ser olhado como um ET por ser diferente. E muitas vezes por pessoas que também sofrem algum tipo de preconceito, de outro teor, porém ainda assim preconceito. Tristemente constato que muitos casos se apresentam dessa forma: você tem o teto de vidro, mas gosta de jogar pedra no telhado do outro mesmo assim.

Essa aversão muitas vezes começa em casa. O ambiente em que você mais deveria se sentir acolhido. Relatei uma situação assim a um mês, de casa ao carinha que vendia balangandã, aquele olhar de surpresa para a roupa e as mechas vermelhas. A surpresa inicial ao que foge do padrão é aceitável, mas passados alguns segundos a naturalidade devia aparecer, sorte que há alguns que enxergam além de uma roupa, um piercing ou uma tatuagem de super herói e veem uma outra pessoa ali, que como você tem gostos e vontades mas que não necessariamente iguais aos seus. Nesse mesmo relato, falei de uma senhora de meia idade que disse: “Adorei o estilo de vocês. Era assim quando jovem” e na mesma tarde, uma moça que pediu para tirar fotos com aquele casal de jovens alternativos que somente quiseram um look diferente para um cinema.

Muitas pessoas que agem dessa forma ao diferente adoram a Metamorfose Ambulante do Raul Seixas, entoam como se fosse um hino porém pouco praticam o que ela quer dizer e pouco respeitam quem a segue. Se excitam com filmes dos X-men, mas além de não notarem a mensagem do que é ser um mutante na história, tratam como “mutante” quem está caracterizado na fila do cinema.  Ser diferente se você não prejudica nem fere ninguém não é ruim.  A própria palavra “diferença” é usada na falta de uma melhor, afinal, se ser diferente é o que vemos, devia ser encarado com mais naturalidade. Algumas pessoas no meio da população conseguem, sabem admirar, batem fotos porque olham e acham interessante, por mais gente assim, porém talvez ainda seja preciso pelo menos mais 500 anos pra que o Brasil possa começar a ser chamado de “civilizado”.

Não se deve perder a esperança. Talvez seja possível de que num futuro o diferente por aqui, independentemente de que teor seja, possa ser olhado de forma natural e respeitado. E aí sim poderemos receber os eventos mundiais com todas as pessoas e sua carga de “diferenças” com o peito mais aberto e a consciência mais leve.

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