quarta-feira, 13 de julho de 2016

Bullying na Universidade. Yes, it can


Muitos acham que a universidade é um sonho. Acredito que ela seja mais como uma conquista, cada um sabe o quanto abdicou para conseguir a chance de poder ter um curso superior, o que nas condições atuais do país é uma porta para se melhorar de vida. Passar no vestibular é uma vitória e tanto. Com os atuais processos seletivos de vestibular, conseguir passar e no curso de escolha é algo que deve ser levado em consideração.

Daí sempre se pensa que já se cumpriu a tarefas, mas tem pelo menos mais cinco anos para se formar, cinco anos convivendo com novas pessoas, tendo que reaprender novos métodos e sistemas, não parece difícil. Mas acreditem nem sempre tudo é o que parece.
Pode parecer impossível mas acreditem que certas coisas permanecem mesmo depois da peneira do vestibular. O bullying é uma delas. Algo que você jura que ficou nas paredes da escola com aquelas pessoinhas que não tinham muito na cabeça do que a ilusão de que eram os donos do mundo. Mas você ao contrário delas, tem algo na cabeça. Você é inteligente, você venceu e se pergunta como pode ser possível que ainda aconteça.

Primeiramente, o bullying é sempre aquilo que acontece quando alguém por qualquer razão se coloca acima de você e acha que tem poder para fazer você se sentir menosprezado, oprimido, uma porcaria. Na escola, é através dos valentões, seja pelo fato deles serem maiores em tamanho ou terem popularidade, de algum modo sentem prazer em subjulgar os que consideram inferiores, e coincidência ou não quase sempre são aqueles que ficam bem na deles, ou estudam muito ou são mais alternativos.

Na universidade, os motivos que podem levar ao bullying são outros. Fora os que normalmente vemos nas notícias do Catraca Livre como cor, opção sexual, há os mais diversos, embora preciso dizer que muitos dentro da própria universidade e na mídia geral acreditam que outras formas de bullying por não fazerem volume, não valem ou não devem ser mencionadas, mas EU também digo: podem não valer pra vocês mas pra quem sofre, importa muito. Muito mesmo.

 Se você passou por cotas, pode sofrer bullying. Se não passou por cotas e tem uma vida olhada com inveja e considerada "ótima" por grande parte dos seus colegas, pode sofrer bullying; se você não tem a vida "ótima" mas também não se encaixa no perfil de cotista, normalmente por acreditar no trabalho duro, você pode sofrer bullying; Se valoriza o mérito e acreditar que muitas pessoas batalharam pra chegar onde estão, pode sofrer bullying, a expressão "vazia meritocrata" diz muito sobre isso. Quem gosta de movimentos estudantis podem sofrer bullying, mas tem o amparo de um grupão que também gosta, mas se você não curte muito se meter, sofre bullying porque "olha para o próprio umbigo".

Há inúmeras coisas que ocorrem em nossa vida que nos marcam. Principalmente quando elas deveriam ser de uma nuance totalmente diferente da qual se apresenta para nós. Quando entrei na universidade estadual, turma de 2008 de fisioterapia, achei que seria um sonho. Mas por estar tão cheia daquela sensação de confiança de que podia fazer tudo, atrai uma pessoa. E por causa desse relacionamento e das coisas que precisei viver com ele, em uma semana mal eu sabia que o sonho tão duramente conquistado viraria um pesadelo.

Aquele carinha que inventou o movimento Senti na Pele, que denuncia situações de racismo que pessoas negras viveram disse que falar pode não resolver, porém ajuda a lidar melhor com a coisa toda. Eu concordo. Afinal, por vezes você precisa colocar as palavras para fora e coisas ruins para que o vento possa levar tudo embora. A Universidade me deu conhecimento, um diploma e uma formação, porém não foi de graça. Haviam pessoas boas, muito boas que ficaram na lembrança e outras não tão boas. As não tão boas ocuparam um volume grande no tempo que passei lá. E infelizmente, mesmo depois que saí, algumas emergiram das profundezas abissais pra mostrarem sua cara que eu já não fazia mais questão de ver.

Sofri bullying pelo ex por ser jovem e ter uma família que se importava o bastante para ter cuidado comigo e se preocupar com o que eu andava fazendo e com quem andava. Havia o bullying por parte de colegas e amigos dele pelo fato de eu ter pais muito presentes. Ele mesmo não gostava da minha família, o que incluía uma raiva da minha mãe e do meu avô, sendo que essas mesmas pessoas deram uma ajuda para que ele fosse em um Congresso. Testemunho de um colega dessa própria turma: ele depois que o tempo passou me disse que mudou a opinião ao meu respeito, viu que eu não era metida ou infantil como o ex me pintava para todos. Segundo esse colega, diziam que eu era chata, infantil, mimada, fora que falavam do jeito como eu me vestia. Acho engraçado porque hoje muitos desses que falavam, são totalmente a favor do modo alternativo, a liberdade de escolha e até fazem passeatas apoiando a livre expressão.

Além desses, haviam os que me tratavam como uma porcaria. A pessoa fingir que você não existe, mesmo quando é preciso ter o mínimo contato com ela também é uma forma de bullying. Não tem nada a ver com ser o centro das atenções, tem a ver com respeito e o mínimo de civilidade. E já ouvi outros casos assim em outras universidades. Eu tentei da minha parte me aproximar, mas se tem algo que aprendi de muita valia foi que se alguém fecha a porta pra você, você pode tentar pra que a pessoa abra, mas se continuamente esmurrar vai acabar ferindo sua mão e a pessoa nem vai se importar, logo ás vezes é melhor deixar de lado. E confesso que fiz muito isso.

A minha cara depois do trabalho de domingo
Eu sempre ficava atrás nos grupos. Uma prova em dupla, quase fiz individual. Ficava sem dupla nas aulas práticas e por vezes quando chegava minha vez não tinha quem fizesse em mim nem fazia prática em ninguém. Fiz estágios individualmente. Me meti em centro acadêmico, mas nunca foi minha praia e saí, mas não curtiram o fato de eu gostar de ficar na minha e não me meter. Troquei de subturma e por causa de perguntas em um trabalho que estava sendo apresentado me chamaram de maldosa, alguém que sequer viu como aconteceu. Fiz um trio e passei o domingo inteiro pesquisando sobre um trabalho difícil de achar, fiz e uniformizei os slides e coloquei uma figura no final pra no dia em que apresentamos, os outros levarem os “nossa, ficou legal o trabalho de vocês” sendo que tiraram a figura sem nem me falarem. Uma moça me chamou de gala seca na frente de uma professora. Alguns mesmo que eu estivesse ajudando em trabalhos em prol da turma e da formatura parece que faziam questão de nem olhar na minha cara.

Mas me formei.

E aí, em comentários em postagens de amigos comuns, lá vem eles de novo. Das profundezas abissais como eu disse. Vieram mentiras, indiretas, coisas como “nem me preocupo, nunca segui” (querida, não faço questão de ser seguida por alguém que trata os outros como uma porcaria), “passou batido no curso ou só olhou para o próprio umbigo” (amorzinho, entrei pra estudar, não?),  o ex novamente achou que abafou destilando seu veneno sobre como minha família “fazia minhas vontades”, como eu era “vazia e meritocrata”, como eu levava dinheiro para passar o dia na universidade (pra comprar um almoço que quase sempre era dividido), fora a mentira de que ganhei um consultório e que eu “achava que merecia mais que o filho de um trabalhador”, como se meus pais nunca tivessem trabalhado na vida. Seria muito legal que eu pudesse dizer que cheguei na porta da universidade estadual, fui até a reitoria e olhei para o reitor com meus grandes olhos castanhos e dei a ele algumas das minhas iguarias culinárias, ele me achou fofa e me deu uma vaga de graça, mas N-Ã-O  F-O-I  A-S-S-I-M.

Então acho que tenho o direito de ter ficado brava, tal como qualquer um ficaria. Essas foram algumas das coisas que sofri. Fui rotulada porque acreditava em mérito e trabalho duro, que é o caminho mais claro pra mim e sempre foi. Ficava na minha e não me metia nas confusões de protestos, ficava na minha e só queria estudar para me formar, não era de sair muito. Deve ser mesmo uma coisa muito errada você ter uma família protetora, você ter estudado duro mesmo que num colégio bom pra conseguir passar, sem rodadas de pizza com coleguinhas, sem sessões de cinema, só seus livros e cadernos e crises e deve ser muito ruim você ficar na sua e se dispor somente a estudar, sendo que foi esse seu objetivo desde quando entrou. Essas coisas devem ser bem erradas pra chegar ao ponto de você sofrer bullying por elas.

E com isso a gente percebe que os bullies (safados) não somem por completo da sua vida. Eu queria dizer que sim, mas não. Eles talvez existam desde a criança até o idoso, eles somente mudam de categoria. Mudam de estado civil, alguns desses são casados, tem filhos. Você torce para que os filhos deles sejam diferentes ou nunca sofram o que você sofreu. Alguns se mostram grandes defensores das minorias, dos menos favorecidos e você fica com aquela cara de “Me compre um bode”, fora que sempre existem os advogados de defesa pra dizer “ele mudou, aprendeu muito na vida”. Bom pra ele, porém infelizmente, um bullie por melhor que se torne, não vai apagar o que você pode ter vivido com ele.


Apesar dos pesares, se você sofre ou sofreu bullying na universidade, aqui vai uma boa notícia: eles podem não sumir, mas você muda seu modo de lidar com eles. Daí podem aparecer em qualquer lugar, você fica mais maduro pra lidar com isso, você se sente mais você, percebe que uma pessoa que precisa subjulgar o outro pra se sentir forte ou valorizada é uma piada ou mais uma lamentação. Sim, você sente compaixão por ela e passa a perceber que assim como foi na escola, tudo acaba. 

E acabando, você está pronto para o próximo passo, para a próxima etapa. Não se deixe abater, os dias pra quem sofre e se sente uma solidão imensa podem até parecer uma eternidade, mas a felicidade é o que foi feito pra durar de verdade.

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