"Eu fecho meus olhos e consigo
ver. Vejo pessoas chamando meu nome, me vejo sorrindo e gente desejando minha
companhia, feliz por eu estar ali. Eu estou usando um cabelo colorido e todos
estão admirando, além de uma roupa super legal que talvez o resto achasse
ridícula, mas ali todos acham incrível e querem ouvir o que eu tenho pra falar,
me perguntam coisas, querem estar comigo, sorriem pra mim. E aí quando abro os
olhos eu vejo isso. Vejo pessoas que não gostam de mim e me suportam, gente que só percebe o que tenho e faço de errado, só percebe as
coisas que eu quebro, o que eu não faço e não parecem fazer questão de mim.
Agora, sinceramente, não é compreensível que eu queira poder ficar mais tempo
de olhos fechados?"
Muitos não sabem, ou sabem,
afinal as redes servem muito bem pra isso, mas este mês de setembro está sendo
um mês de campanha de prevenção do suicídio nomeado de setembro amarelo. Seja
por negligência, falta de vontade ou por realmente não pensar nisso ou cogitar
a hipótese, a verdade é que milhares de adultos e jovens se suicidam todos os
dias, por diversos motivos, que vão desde uma condição psicológica que
necessita de tratamento à dificuldades não superadas.
Tristeza e solidão são duas
coisas muito subestimadas. E deveriam não ser pois são dois fatores que geram
uma infelicidade sem tamanho e infelicidade é a raiz da maioria, senão de
todos, os males. Uma tristeza que se estende, uma solidão profunda podem
acarretar pensamentos que nunca poderiam ser tratados com leviandade, embora o
sejam.
Um dos pensamentos mais comuns é
o de que há uma dor tão intensa que sequer se consegue dizer o porquê ou de
onde ela vem, mas se sente ela lá, como um espinho preso no pé. Dolorida e
constante. E é fato que muitos com a tendência suicida afirmam que não querem
acabar com a vida, mas com a dor. A vida vai de brinde.
Outros não enxergam a diferença
entre dor e vida, ambas se fundem numa coisa só. É se sentir o tempo todo num
limbo, sem muita cor, objetivos, expressões, como se todo lugar ou
possibilidade não fosse a certa, ir para lugares porém não se sentir neles. E
diferente do que uma parcela da população acredita (e pra piorar fala), muitas
dessas pessoas fogem totalmente do esteriótipo do pobre ser que fica 24h na
cama, só chora e não se mexe. Na verdade é surpreendente a quantidade de
médicos, advogados, engenheiros, estudantes, trabalhadores de todas as classes
que acordam-levantam-trabalham e voltam ao seu limbo. O médico que está
cuidando de você ou de alguém da sua família, o engenheiro que projeta sua
casa, seu amigo estudante, milhares podem estar ali fieis cumpridores de
deveres mas a base de remédios e com um vazio tão grande no corpo e no espírito
que ligam um piloto automático. Logo, a velha desculpa de “é falta de trabalho
pra fazer” não cola, é o contrário, trabalho há muito, só não adianta.
Não falta também quem diga que é
covardia. Um modo de não querer enfrentar os problemas da vida e coisa e tal. O
que também é irreal. Há os com potenciais suicidas que já enfrentam muito, só
estão cansados. Cada um lida diferente com as adversidades, eles não são
covardes, pelo contrário, será que não é preciso coragem suficiente pra impingir
uma dor física tão grande ao seu corpo a ponto de tirar a vida dele? Embora não
seja algo que deva ser feito de nenhuma maneira, insinuar que a tendência ao
suicídio é covardia já é uma covardia em si.
O suicídio não é brincadeira. Quem
tem tal pensamento caso o concretize nunca o faz sem ter dado aviso prévio. Não
é verdade que “quem quer faz e não avisa”, por vezes o indivíduo avisa e fala
muitas vezes, dá inúmeras amostras de que as coisas não estão bem que olhar pra
baixo de uma varanda começa a assumir um significado diferente. O mundo porém
tem uma certa dificuldade de olhar, de ouvir, de perceber... E por isso muitos
deixam cartas, numa última tentativa de se fazer ouvir contudo,
lamentavelmente, depois só resta o arrependimento, a desolação, dúvida de
porquês, culpas e um conforto que nunca vem.
Talvez o setembro amarelo seja
uma forma de conscientizar as pessoas de que o problema é real e que alguém
muito perto de você pode estar passando por isso. O que as pessoas com
tendências suicidas precisam é de ouvidos e palavras. De preferência, de apoio
e sugestão de onde podem encontrar ajuda especializada. E se você se
disponibilizar a ouvir, ouça mesmo, cada um tem seu tempo e muitas vezes essas
pessoas precisam de muito tempo, muitas possuem uma vida inteira marcada por
baixos que suas memórias inteiras estão em azul. Décadas de melancolia se
somando que podem ser potencializadas num ato de um único momento. Cabe o
alerta.
O que se precisa é ouvir o outro,
enxergar o outro, quem sabe assim se possa evitar não só a tragédia para os que
chegam as vias de fato mas também aqueles que pouco a pouco, afundados em suas
tristezas, morrem em vida.
* Para linha de ajuda, ligue 141
(CVV)
* Em homenagem ao Setembro
Amarelo e à Amanda




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