"Ás vezes eu me lembro de um jeito, ás vezes de outro, já que eu tenho um passado, eu prefiro que seja múltipla escolha. A questão é que eu fiquei louco e eu sou esperto o bastante pra admitir".
Com o filme do Esquadrão Suicida (que já vai sair em DVD), fora os novos filmes do Batman surgiram novas versões do Coringa e esse vilão, famoso nas HQ's e nos desenhos começou a tomar forma e versões. Algumas altamente criticadas, outras com tanto destaque que o próprio Batman parece um mero coadvujante. Acredito que o Coringa é um personagem fascinante, despertou fascinação nos fãs, mas é fato que despertou também muita curiosidade sobre quem ele era antes de se tornar esse vilão tão complexo ou se ele sempre foi puramente mau.
Buscando informações vi que ele não tem somente uma, mas várias versões sobre como poderia ter surgido. Só que como ele mesmo diz em "A piada mortal", por lembrar de vários jeitos, ele prefere o múltiplo direito de escolher. E ele tem uma grande múltipla escolha, diga-se de passagem. Sei que para os que são fiéis e severos críticos do Coringa, é muito mais fácil dizer que ele é um psicopata, sem sentimentos, emoções ou empatia do que cogitar que possa haver algo mais, e é fato que o buraco do Coringa é mais embaixo.
Algumas teorias dizem que tudo começou na infância, com um pai abusivo e um comportamento isolado das outras crianças. Ele era o "estranho" da turma, o que ficava sempre na dele, antissocial e com comportamentos reprováveis em sociedade. Outras versões, que por sinal sempre converge em um ponto, afirmam que ele era um técnico de laboratório, que tinha uma esposa a quem amava e se importava muito. Só por isso acho que a teoria de que ele era psicopata fura. Mesmo com bom emprego, ele quis largar tudo para ser comediante. Não deu muito certo e eles começaram a passar necessidade. A versão apresentada em "A Piada Mortal" mostra que ela estava grávida e morre num acidente doméstico; outras, que ela estava com um câncer terminal. O fato é que a falta de dinheiro fez com que o Coringa se desesperasse e participasse de um roubo na antiga fábrica que trabalhava sob o codinome de Capuz Vermelho. O plano, contudo, acaba em desastre e ele acaba caindo em um tonel químico, o que deformou sua pele e cabelos. A visão da criatura na qual ele se transformara mais o fato da morte da esposa e o filho fizeram com que ele simplesmente enlouquecesse. Isso gera a teoria que permeou toda "A Piada Mortal": Basta um dia ruim para enlouquecer um homem.
É claro que tal ideia gera controvérsias, especialmente quando se vê o método que Coringa utilizou em sua pesquisa para comprová-la. Colocar o Comissário Gordon num carrinho e passar fotos de sua filha Bárbara nua e baleada é realmente o supra sumo do masoquismo, contudo não parece algo tão em desacordo se analisarmos tantas figuras compartilhadas na rede com o teor de "Me ferrei e fiquei frio" por pessoas que tiveram talvez não só um dia mas fases ruins e mudaram de tal forma que a volta se tornou impossível.
De forma nenhuma faço apologia a violência ou que por causa de um dia ruim você se transforme num insano e saia explodindo coisas e pessoas, contudo é inegável que determinados indivíduos vivem experiências tão traumáticas ou tão ruins que mudam suas condutas ou percepções permanentemente. Quantos não conseguem se encontrar como antes? Não conseguem ver mais as coisas da mesma forma? É exatamente o sentimento de Coringa na sua primeira visão com cabelos verdes e pele pálida: nada será como antes e eu não serei o mesmo nunca mais. No fundo, somos todos Coringa.
E antes que contestem ainda mais e digam que é fruto da mente de uma fã doente (porque hoje dizer que você gosta dele é sinônimo de que você precisa de remédio controlado), outras obras apoiam a ideia de que por vezes é preciso algo extremo para se conhecer. Paulo Coelho, escritor famoso e brasileiro, no livro Veronika Decide Morrer narra como é essa coisa de "loucura". E diferente do que os racionais extremistas que aparecem nas discussões dizem, ela é descrita de uma forma bem peculiar. Segundo o livro, "Loucura é quem vive no seu próprio mundo" e com essa definição faz sentido como os personagens se apresentam. Dentre os principais estão uma suicida frustrada, uma depressiva e um esquizofrênico.
E talvez prevendo que muitos pseudopsicólogos apareceriam, vocês sabem, aqueles indivíduos que lêem duas postagens em blog e já se acham os behavoristas, o autor desenvolve muito bem a história de cada personagem, o que leva cada indivíduo até o asilo onde estão internados. E uma das frases que embasa totalmente o que Coringa disse é algo como: "Você não se conhece até que atinge seu limite". Talvez não conhecemos nossa verdadeira face até que chegamos no ponto máximo do extremo, aquele momento em que se tem a impressão de que se perdeu tudo.
Outros personagens muito famosos da literatura também mostraram que não se passa tão perto dessa linha e se sai imune. Matt Murdock já cego, no momento em que mataram seu pai decidiu que faria justiça de um jeito ou de outro, era advogado de dia e o Demolidor á noite. Mamba Negra, do filme Kill Bill, achou que tinha perdido a filha depois de ficar 4 anos em coma por causa de um tiro dado pelo próprio Bill, na hora em que acorda e começa a assimilar as coisas só pensa em ir atrás e fazer a mesma coisa com ele. Edmond Danteé foi traído pelo amigo, pela noiva, foi preso, dado como morto, passou 13 anos numa prisão que era o inferno (palavras dele), conseguiu fugir e disse que ia se vingar de todos. "Morrer é bom demais pra eles, quero que eles vejam seu mundo desabar, quero que vejam tudo que lhes é querido ser tirado deles como foi de mim". E de um jeito extremamente inteligente e classudo ele derrubou um por um. Ao meu ver foi o modo como ele fez tudo foi uma forma muito elegante para a loucura.
Esses momentos limites em nossas vidas, porém, são muito importantes. Eles ao nos expor a uma situação nunca vivida nos faz aprender de certa forma, podemos não ficar loucos da mesma forma como o Coringa a ponto de cometer crimes, ou vingativos como Danteé ou Mamba Negra, porém inegavelmente ficamos mais sabidos e espertos. Então chegar ao fim da linha é só uma forma de você criar um novo caminho e o fundo do poço, uma forma de subir. Talvez "loucura" seja só uma forma de criatividade pra se sair das situações ruins afinal....



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