quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Descriminalizaram o aborto. E agora?



E agora eu fico curiosa de como as coisas vão ficar a partir desse momento. Não uma curiosidade do contra ou querendo colocar areia na comemoração alheia, mas simplesmente curiosidade.

O Facebook esteve nas suas 48h mais insuportáveis do ano, não respeitaram nem os destroços do avião do Chapecó nem sequer esperaram o funeral, foi aprovada a lei da legalização do aborto até três meses. Pipocaram moças dizendo “até que enfim uma boa notícia”, outros comemorando que “o índice de mulheres mortas vai diminuir” e mais ainda “é uma questão de saúde pública”, bem, hipertensão, diabetes e infartos fulminantes também são questão de saúde pública e não vejo muita gente comovida por causa deles ou querendo aprovação de leis por menos sódio no sal.

Mas voltando a questão. A legalização do aborto gerou muito rebu na verdade e como uma polêmica no face nunca vem sem uma contra-polêmica a tiracolo, não bastou a notícia, logo vieram as acusações de “você não é pró vida, é pró nascimento” ou “não é da sua conta, ou útero não é seu”, fora quando não mencionam as crianças nos orfanatos, parafraseando Coringa: Blá, blá, blá... Vamos combinar que muitos idealistas são bem enfadonhos quando querem. De ambos os lados. Só que de acordo com algumas notícias aqui e ali, incluindo um post no Escreva Lola Escreva, ao que parece não é tudo isso como pintam. Ainda não é como nos países estruturados e talvez demore bastante pra se estruturar. É tipo como você ouvir que seu salário vai dobrar, só que você só vai receber esse aumento depois de três meses.

Legalizar o aborto era uma polêmica há muito tempo, com argumentos a favor e contra e sem faltar pessoas exaltadas de ambos os lados. Eu sempre compreendi a aversão contra os argumentos religiosos, já que o estado (político) não deveria envolver religião, que por sinal é extremamente diversificada, porém devo dizer que compreendo também os argumentos de quem é contra por crer que a vida é mais aprendizado do que parece.

Vamos lá, aos que ficaram felizes, há sempre a menção de que criminalizando ou não, abortos sempre serão feitos. A legalização só vem para evitar que mulheres morram em clínicas clandestinas, até aí parece tudo lindo e maravilhoso. Argumento sem contestações. Porém...

Pra uma moça chegar ao aborto, é preciso que ela engravide primeiro. E para engravidar é preciso uma relação sexual sem proteção ou barreira. Aí começa a complicar. Afinal, com tantos métodos não parece irresponsabilidade que se engravide? Na cabeça de alguns é totalmente possível, e pasmem, comum. Bom, eu acredito que pílula concomitante com camisinha (99% de eficácia em ambas) e fora do período fértil a probabilidade é bem ínfima, mas é uma crença pessoal. Há exceções, contudo, talvez estas deviam ser usadas para achar uma solução e quem sabe criar um método mais específico para as mulheres e homens que não se adaptam com os já existentes, embora dê mais trabalho, parece ser mais engrandecedor e útil para a humanidade.

Ok, o método falhou e a nem a moça nem o rapaz querem um filho. Pro rapaz, assim como acontece todos os dias, ele vai embora, para a moça sobra o mais difícil. É um ponto bem delicado, afinal, legalizado ou não, com o rapaz ou não, é o corpo dela que vai estar ali de um jeito ou de outro numa maca, anestesiado com coisas introduzidas dentro. E bem, creio que não deve ser nada agradável.

“Você pode dar para a adoção”. Nossa, esse causou polêmica. “Orfanatos não são que nem Chiquititas” do mesmo jeito que o “Congresso não é os Power Rangers”, mas “não é a mesma coisa” não é mesmo? Bom, todos sabem que abrigos e orfanatos não são os locais mais legais para crianças, há privações além das figuras paternas, só que nunca sabemos o que pode sair de um local desses nem devíamos subestimar. Só que há tanta certeza e prepotência em afirmar que não há nada de positivo em tais locais que me não me surpreende que as pessoas estejam descrentes até mesmo em quem já nasceu.

O argumento da adoção vem como uma forma de proteger a vida em formação e causar menos lesões na mulher (físicas e psicológicas), afinal, por mais que o aborto seja feito com assepsia, numa maca com regulador e com o psicólogo segurando a mão da paciente, é um procedimento invasivo como arrancar um dente ou um apêndice. Fora que adoção implica que mesmo numa infância difícil, há possibilidade de aprendizados, incluindo o de quem se dispõe a ser pais de um órfão. E friso aqui casais tanto homossexuais quanto heterossexuais, afinal, pregam sobre amor e empatia, se dispor a ter ambos por um ser que está fora do seu círculo íntimo, pra esta humilde escritora, é uma grande prova de nobreza e de como amor é uma matéria altamente expansiva.

“Mas não é vida”. Acho prepotente querer dizer ou estabelecer quando é vida ou não. Dizem que não é por causa do sistema nervoso, condicionam vida a dor, tipo “se dói, você está vivo”, bom, eu acho que vida é mais do que sentir dor. Argumentam que já há coração, só que aí nesse caso mudam o órgão, ou seja, dá a entender que os dois órgãos mais vitais do corpo não são o bastante e queremos dizer, e o pior: dizer aos outros quando se deve considerar vida ou não. É como brincar de Dr. Frankenstein: “Está vivo! Está vivo! Agora sei como é ser um deus!”

“Você é pró nascimento, não pró vida”. Cara, isso foi figurinha carimbada. Começa que pra alguns, seja por experiências, por crença, concepções, “vida” em si é uma oportunidade. Viver com dificuldades pode ser um aprendizado e tanto para muitas pessoas, só que é aquilo: seria tão mais fácil se tudo já estivesse ali e não se precisasse fazer esforço nenhum. Se o próprio feto fosse como uma filhote de girafa e 10 minutos depois já andasse, poupando o incômodo trabalho de ser carregado no colo, se ele por si só, não precisasse de cuidados e pudesse ser independente da mãe com dois meses, mas a evolução disse o contrário e sim, precisamos nos deparar com situações difíceis que nos façam refletir para crescermos mentalmente. Fora que aos que dizem “vocês não ligam se a criança vai ter fome, frio, etc.”, na verdade também é uma forma de despertar empatia e convidar as pessoas a reflexão.

“E os estupros?”. Outro ponto delicado. Porém já que estamos sendo racionais, em um caso de estupro, com toda a profilaxia feita para gravidez e DST’s, qual a probabilidade real de ter como resultado uma gestação? A violência é algo impagável, não se pode menosprezar, mas se volta ao ponto da adoção para as que não querem. Claro que sempre há os que dizem que levar até o fim uma gestação decorrente deste ato é penoso, porém há casos em que a mulher não só leva, mas cria o filho com um amor incondicional. Achei uma figurinha bem interessante sobre isso e compartilhei sem hesitar.

Com todo esse exposto, eu acredito realmente que cada vez mais curto as exceções. Considerando a figura compartilhada, acho que quem foge a regra é uma forma rebelde de mostrar que há possibilidades antes inimagináveis e tidas como impossíveis. Claro que nem todos gostam de exceções, afinal, “não se pode tratar como regra” e vou além, regras não forçam você a pensar que pode haver outro caminho. E o mais engraçado é que muitas dessas mesmas exceções tratadas como párias em alguns exemplos são louvadas quando se trata de outros. Ruby Bridges foi uma exceção quando entrou numa escola só para brancos. Gandhi foi uma exceção que libertou a Índia. Katniss Everdeen foi a exceção que fez os distritos pensarem sobre a opressão da capital. Logo, com essa atitude de louvação seletiva poucos podem apontar o dedo e xingar o coleguinha de hipócrita.

O que acho disso tudo? Estou curiosa. Deveras curiosa na verdade. Eu compreendo que nas discussões pelo menos um cite os países desenvolvidos e os exalte pela queda no número de abortos. Contudo o detalhe “desenvolvido” aí faz uma diferença enorme. Enquanto nação e sociedade sequer se conseguiu elucidar o bastante sobre a prevenção de uma gestação, cabe a pergunta se vai se conseguir elucidação palpável sobre a remediação de uma gravidez indesejada. Com que tipo de pessoas está se lidando? Enquanto sociedade há maturidade o bastante para que as coisas de repente não tomem um rumo contrário ao objetivo inicial? E nosso sistema de saúde? Por vezes ele mal consegue salvar vidas de forma estruturada e confiável, conseguirá arcar com a função de interromper o que poderia ser uma vida em potencial? São perguntas totalmente pertinentes neste momento, contudo visto as dificuldades, é triste constatar que de um jeito ou de outro, nós, enquanto país, acabamos falhando.

Acho que mesmo com argumentos de ambos os lados no final tudo vai se resumir a índole. Não digo índoles boas ou más, mas o que move alguém e no que ela acredita ser o certo. No modo como ela enxerga essa coisa imensa que denominamos vida e quando ela crê que ela começa. Falando por mim, se a índole de uma moça não vê problema nenhum no aborto e concorda com ele, que bom, ela que lide com isso. Mas a minha índole diz não.

Talvez no fundo seja mesmo fácil como muitos dizem...

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