segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A Aranha Costureira


No Sítio do Pica Pau Amarelo, no dia em que a Narizinho foi pela primeira vez ao Reino das Águas Claras, a costureira do reino, uma aranha com seis filhas, fez para ela o "vestido mais bonito do mundo". No momento em que Narizinho se olhou no espelho da Aranha Costureira, ele se rachou em mil pedaços.

Aí a Aranha disse: "Estou livre!" Quando ela era menina, uma bruxa má havia jogado uma maldição na qual ela estava fadada a ser Aranha Costureira até o dia em que fizesse o vestido mais bonito do mundo, depois que o espelho quebrasse estaria livre para ser o que quisesse. Daí começou a cogitar: "O que eu vou ser? Posso ser bailarina... Não, acho que não. Talvez astronauta... não. Já sei! Vou ser cozinheira! Não, acho que não vai dar. Ah! Vou continuar sendo Aranha Costureira". Sob protestos do porquê ela escolheu isso, ela simplesmente disse: "Eu fui Aranha Costureira minha vida inteira. Estou acostumadíssima."

Ano Novo sempre traz a idéia de renovação. E por vezes renovação significa você deixar ou abandonar o que lhe incomoda, finalizar coisas e situações. Eu não senti a energia de ano novo até comprar algumas coisas novas e receber outras. Em muitos pontos, 2016 não acabou. Ainda há assuntos inacabados, coisas a serem resolvidas e etapas finalizadas. E com isso, é como se o momento do meu espelho se quebrar estivesse próximo...

Estou feliz como estou? Sou feliz com o que faço? Levanto feliz e disposta? Eu realmente vivo ou simplesmente existo? Esses são questionamentos que permeiam muitas cabeças no mês de janeiro, permanecem até dois meses depois. E confesso que permeia e permeou a minha também... Embora muito já tenha sido removido para os porões andrajosos das minhas memórias, em certos casos você precisa olhar para trás para poder caminhar para frente com mais desprendimento. Analiso como estou hoje e o que queria quando criança, se é o que eu esperava.

E conforme os anos se somam a nossa vida, algumas coisas passam a fazer mais sentido, outras passam a não ter tanta importância. Passamos a descobrir novas formas de realizar sonhos e ter novos também. Dizem que se você quiser saber como será quando adulto, precisa ver como foi sua infância. Quando criança, eu vivia num mundo diferente, imaginava mil e um personagens que poderiam existir e um segundo na minha cabaninha de lençol era o bastante pra eu de repente estar no espaço ou em outro país.

Quando se cresce, muitos desses mundos somem porém eles vem a tona quando precisamos num momento de aperto. Dizem que o adulto criativo é a criança que sobreviveu e acredito ser algo extraordinário tendo em vista o mundo em que vivemos. Dizem que é um mundo do cão, eu com meu parco conhecimento de espécies animais, digo que é um mundo do gorila. Num bando, um único gorila é o provedor de esperma e fecunda todas as fêmeas. Ele permanece assim soberano até a hora em que um outro macho do bando brigue e o expulse ou o mate, tomando a liderança. No mundo atual, permanecemos como um bando de gorilas brigando e vendo quem consegue a liderança. E nesse processo, muito de uma essência bonita pode ficar para trás.

Não raro vermos pessoas muito bem estabilizadas financeiramente, mas sempre com uma queixa de que gostaria de fazer algo, só que nunca pode. Pessoas que deixaram dons, habilidades, desejos para trás e se condicionam a permanecer em suas rotinas, sem vontade de querer expandir possibilidades ou até mesmo descobrir algo surpreendente. A vida vira uma tarde de domingo sem muitas vontades ou ambições para descobrir algo além. E com isso seus sonhos morrem.

Talvez o que sempre se tem que ter em mente é que por mais que se cumpram deveres e obrigações, toda pessoa é multifacetada em termos de aprendizado e não deve deixar sua criança da criatividade morrer, não permita que tudo vire uma tarde de domingo tediosa e não vire, definitivamente, uma Aranha Costureira.

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