domingo, 5 de março de 2017

O politicamente correto é sempre tão correto?



Talvez para os que nasceram na década 2000 pareça inimaginável uma época em que piadas, humor, música e afins eram feitos com objetivo primitivo e exclusivo de fazer rir. Parece estranha a afirmação? Pois não é. Não hoje. Em um era de textões, críticas e dedos apontados. Quem faz humor ou arte do tipo em geral não pensa mais se vai ser engraçado, pensa nas mil e uma pessoas que pode ofender com suas piadas. E isso me faz crer e pensar que ser humorista, no tempo que vivemos, é uma das profissões mais difíceis do mercado.

Antes de mais nada, friso o quanto é importante que tenhamos adquirido mais consciência com relação as chamadas minorias. Em termos de aceitação, conscientização com relação ao seu valor, isso foi algo positivo para a sociedade, devo frisar da mesma forma que embora a mudança tenha sido positiva, há momentos em que tanta positividade beira os raios do absurdo. Nos anos 60, tínhamos a Divisão de Censura de Diversões Públicas, que checava cada letra de música, cada script de jornal, cada peça, cada roteiro de filme para que nada que fosse ser falado ou mostrado saísse da linha, hoje numa comparação, mesmo que não literal, temos os chamados fazedores de textão, os quais sempre passam a impressão de grande moralismo, alta crítica e violenta repreensão.

Mais uma vez friso que de forma alguma seria legal que se voltasse a época em que piada era dizer que um sabão muito bom podia "lavar a pele do negro" ou que ofensa era dizer que um menino "lutava como uma menina com paralisia" (essa eu tirei de GoT), porém nesta semana semana houve muito pano pra manga que levantou essa questão.

Foi lembrado que estamos a exatos 21 anos sem Os Mamonas Assassinas, quem os viu sabe como foi. Eles não eram uma bandinha qualquer, na época foi assombroso o sucesso que eles fizeram curto, mas o bastante para que entrassem para a eternidade. Eram pouco mais que uma bandinha de garagem quando alavancaram, meninos jovens, sorridentes, numa época em que não existia The Voice nem Super Star, era tudo na ralação mesmo. Daí eu me questiono se o próprio nome deles não seria motivo de polêmica. Afinal, “Assassina” remete a violência e certa apologia a ela, pode ser forte demais aos ouvidos mais frágeis.


Contudo passando pelo nome da banda vamos às músicas. Mesmo com mais de 20 anos de idade, ainda se pode ouvi-las em algumas festas de 15 anos ou em aniversários de quarentões animados. O ritmo era animado, as coreografias engraçadas, porém as letras gerariam um problema social sério. Os Mamonas eram peritos no politicamente incorreto, suas letras sempre abordavam um grupo específico, como mulheres, gays ou nordestinos, e sempre com tom de piada. Enganam-se se pensam que não haviam  críticas, porém numa época em que as pessoas tiravam tão por menos e não existia internet para textões e memes toscos, acabava que o espírito e risadas dos cinco palhacinhos predominava.

Uma das músicas mais famosas,“Robocop Gay” seria jurada de censura e protestos pelos mais fervorosos, “O meu bumbum era flácido/ Mas esse assunto é tão místico/ Devido a um ato cirúrgico/ Hoje eu me transformei”, o que os rapazes poderiam esperar com esta canção do que acusações de LGBTfobia e Homofobia? Ou os típicos adjetivos de “Nojo”, “Palhaços” e “Lixo Humano”? Além de Robocop Gay, os versos de “Pelados em Santos” faria chover de moças indignadas a crítica de que “só porque um cara é legal, a moça não tem obrigação de ficar com ele”, na era da extrema disseminação do direito da mulher dizer “não” e por vezes esnobar quem quer que seja, a Brasília Amarela de Dinho ficaria para sempre vazia.


Isso sem falar na “Vira – Vira”, como eles se atreveram a cantar uma música tão misógina? Como pode a objetificação da mulher dessa forma? Ainda que hoje exaltem as letras “feministas” da Valeska Popozuda ou as “emponderadas” da Tati Quebra Barraco, multidões viraram e desviram no ritmo do “Roda, roda vira, solta a roda e vem”. Mas ainda que nos dias atuais, eles pudessem ser escrachados, eu os admiro pois até o fim eles passaram a mensagem de que se tem que rir e levar a vida dessa forma. Aliás, segundo raras fontes, só houve um momento de seriedade por parte do vocalista Dinho, em um show ele se ajoelhou no palco, agradeceu ao público e afirmou que diziam que eles nunca chegariam a lugar nenhum e incentivou a todos a correrem atrás de seus sonhos e nunca permitissem que o mundo os fizessem desistir. Um exemplo do palhaço politicamente incorreto.

Saiamos dos Mamonas Assassinas e vamos para algo mais antigo. Nosso Raul Seixas foi um cara que nasceu a 10000 anos atrás e visto como ícone de vida alternativa. O que muitos não sabem é que o cantor a frente do seu tempo também tem suas letras pra lá de incorretas. Muitos continuariam admirando Raul enquanto ele fosse o Maluco Beleza porém o repudiariam quando ouvissem "Rock das Aranhas",  "Eu vi duas mulheres/ Botando aranha prá brigar", canção que faz clara  referência a sexo lésbico. 

Raul não foi o único da MPB a ter músicas que possibilitassem esse tipo de análise. Tim Maia com seu “Me deu motivo” talvez não fosse muito bem aceito uma vez que quem vacila e faz jogo sujo é uma mulher. E acreditem, alguns simplesmente não recebem bem a informação de que uma mulher pode esnobar com os sentimentos e magoar um homem. Alcione com sua canção “Você me vira a cabeça” aos olhos mais atentos, assim como outras canções dela, relata os sentimentos de uma mulher por um homem de forma tão intensa e submissa que o relacionamento torna-se abusivo.

Trechos como “Você não me quer de verdade/ No fundo eu sou tua vaidade/Eu vivo seguindo seus passos/Eu sempre estou presa em teus laços/É só você me chamar que eu vou”, não duvido que muitas mais exaltadas não curtam a Marrom por causa de suas letras. Acreditem se quiserem, no meio do politicamente correto, filmes deixam de ser vistos se houver mínima insinuação, eventos deixam de ser assistidos (concursos de beleza por exemplo) e m´músicas ouvidas em nome de algo não “encaixado” nesse padrão considerado “certo”. 

Foi o que aconteceu com o finado programa Casseta e Planeta, eles eram tão incorretos que até os políticos que eu duvido que assistam televisão se doeram com as piadas que os comediantes faziam. E quem não se lembra do porteiro Severino, do tempo em que a Zorra era Total, com seu velho bordão “Isso é uma bichoooona!”. Pode parecer insensibilidade, mas na humilde opinião desta autora, vou rir toda vez que ver, vou doer a barriga de rir na verdade e ao ouvir a música da Marrom, ainda vou fazer o coro do “Tem!” e isso não me fará, do mesmo jeito que não faz ninguém menos empático com o próximo ou com o sofrimento alheio.

Talvez o problema do politicamente correto atualmente seja o extremismo, o qual é perigoso e nocivo em qualquer outra coisa. Não é problema você lutar para abolir o que não considera correto, o que não é certo é impor ou tentar proibir que as outras pessoas tenham contato com tal. Tentar boicotar filmes, programas em nada ajuda na elucidação, se esse for o objetivo, pelo contrário, criará uma aversão e o fatídico “bando de chatos”. No mundo em que vivemos, é necessário equilíbrio para saber discernir quando uma ação vem carregada com a intenção de ofensa e quando não.


E só pra terminar, houve uma situação em que o “politicamente correto” foi duramente criticado mesmo com quem concordava em massa com ele. Foi na época da morte de nosso querido Bolaños. Uma jornalista cujo nome nem lembro fez um texto apontando todos os erros de Chaves enquanto excludente e estereotipado. Em suma, realmente, se formos analisar, tem muita coisa: ele fazia piada com gordo (gordofobia) e com defeitos físicos (desde “burro”, bochechas grandes e estatura) sendo que cinco minutos depois as crianças estavam brincando de amarelinha ou futebol. Botava em cheque a violência (Mulher batendo em homem tudo bem desde que Seu Madruga não levantasse um dedo contra a Velha Coroca, digo, Dona Florinda), polemizava questão de classe social, mulheres que não se importavam em fazer tudo pelo homem que gostavam e violência infantil (Toma!). 

Em alguns episódios específicos até mencionaram questões relacionadas a negros (“As brancas valem o dobro das pretas”) e homossexuais (Seu Madruga ensinando Prof. Girafales a se declarar). Maria Antonieta de Las Nieves sofreria um enxurrada de críticas pela sua Rainha de Sabá e seria acusada de black face, mas sinceramente, não imagino ninguém fazendo aquele papel melhor que ela (“Essa que tá aqui atrás!”). Contudo, sabem por que ningupem fica pontuando excessivamente isso? Nem criticando? Porque as piadas, o enredo, os atores, o cenário, a atuação e simplicidade eram tão bons que no fim de tudo, todos riam. Fora que numa balança de intenção e ação, Bolaños nunca teve nem por um segundo intenção de ofender quem quer seja, de que público fosse.

Talvez o mundo pareça chato ás vezes porque falta riso nele. Mais riso... Mais leveza... Mais Chaves.

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