"Achou que eu esqueceria? Achou que eu perdoaria?"
A série do momento é 13 Seasons Why. Ainda que cheia de gatilhos, de polêmica, não se pode deixar de dizer que teve sua valia e também muitas arestas a serem aparadas.
Baseado em um livro de mesmo nome do autor Jay Asher, tudo gira em torno de Hannah Baker, uma menina adolescente que cometeu suicídio e deixa para seu colega de escola, Clay Jensen, uma misteriosa caixa contendo fitas cassete e com instruções de que tais fitas sejam passadas adiante para outros estudantes. Cada fita contém um depoimento de Hannah explicando como a pessoa que está ouvindo desempenhou um papel que culminou em seu suicídio, o que gera não só constrangimento mas também sentimentos tão negativos quanto os que a própria Hanna sentira.
Pode parecer petulante da minha parte emitir um parecer sobre esta série, uma vez que não vi e também não penso em ver. Só que foram tantos os comentários, matérias, críticas e campanhas nas redes sociais, que mesmo quem não viu já se sente totalmente a par dela. A primeira vista, claro que se mostra extremamente relevante o tema, uma vez que Hannah sofria bullying e outras experiências traumáticas relacionadas a seus colegas, isso traz para a realidade, há milhões de adolescentes que sofrem bullying assim como estão na escola, contudo muitos pontos falhos podem ser citados com relação ao drama de Hannah e como ele se desenrolou.
Um dos pontos mais falhos foi justamente a cena detalhada do suicídio de Hannah. Mesmo a OMS é contra este tipo de amostra em qualquer série ou filme. Cabe considerar que as pessoas são diferentes, ainda que passando por situações iguais. Dois adolescentes que sofrem bullying podem ter desfechos diferentes, lidar de formas diferentes e não se sabe em quantos a série pode gerar um gatilho e estímulo a imitar o ato de Hannah e em quantos ela simplesmente seja uma reprodução do cotidiano porém sem tocar tão profundamente. Logo, mostrar uma cena que para muitos foi definida como "tutorial de suicídio" para uma pessoa que está no fundo do poço e não consegue enxergar como ir para cima, talvez não contribua muito para evitar suicídios, mas o contrário. Existe uma coisa quando se trata de matar, são necessários três elementos: motivo, meio e oportunidade. E ao que foi comentado, tal cena mostra como você pode conseguir os três.
Morte, mesmo quando natural ou por uma causa bem perceptível, ainda é tabu. O que dirá a situação na qual alguém deliberadamente impinge ao seu corpo uma dor tão grande a ponto de tirar a vida dele. Suicídio sempre atinge as pessoas em torno do suicida, ainda que não tenham tido um contato grande com a referida pessoa, somente a
Contudo, alguns pontos na série após leituras chama atenção para uma deficiência existente não só no Brasil mas nos países mais desenvolvidos: a falta de tato e habilidade de conversa. Hannah procura o conselheiro escolar, um profissional que supostamente devia ser capacitado, para inclusive perceber quando uma pessoa está no seu limite. Isso faz refletir sobre como escolas são pobres nisso, da pública a particular, coordenador e conselheiro são apenas nomes de cargos pois em muitos casos não fazem absolutamente nada, porém quando acontece algo assim, vem o referido arrependimento. Isso cai também na questão das linhas auto ajuda, a qual não foi mostrada. Eu já fiz uso dessas linhas, especialmente quando aquele amiguinho sem pudor nenhum me chamava de lesa no meio da minha explosão ou outro simplesmente ignorava minhas ligações ou desligava, linhas como o CVV podem ser a diferença crucial entre você achar um meio de acabar com tudo ou um meio de subir, nem que seja um pouquinho, logo, um das coisas positivas foi o aumento de acesso a essas linhas e maior percepção de como são importantes.
A série toca em uma ferida profunda, porém real nas escolas e mesmo fora delas: em como rachaduras em seu emocional podem fazer você afundar em sentimentos como solidão, tristeza, depressão, até mesmo no desejo de que não há mais nada pelo que lutar. Esse adoecimento é inerente de posição social, de relação social inclusive, pode estar atrás dos rostos bonitos e sorridentes do Instagran, do jeito extrovertido do colega de trabalho, da doçura da pessoa sempre prestativa... Talvez as pessoas tenham parado de olhar mais nos olhos, no fundo dos olhos e com isso deixaram de ver, de perceber como muitas coisas não são o que parecem. ![]() |
| Você realmente não sabe o que acontece na vida de outra pessoa |
Com os motivos dados por Hannah, mesmo com a questão da culpabilização, também há o cume de que as pessoas estão se isolando e decorrente deste isolamento, elas podem se tornar cruéis com os outros e consigo mesmas. Levanta a questão de que no isolamento e não tentar compreender os sentimentos alheios, acaba que há uma epidemia de pessoas egoístas e que não enxergam nada mais que a si próprias, que permanecem com uma comunicação vaga e rasa por meio de redes sociais nas quais muitas vezes o mais importante é mostrar quem possui mais vantagens, daí vem toda uma carência e deficiência do que devia ser básico na vida do ser humano: saber ouvir.
A série tem pontos positivos e negativos, como tudo relacionado ao entretenimento está respaldada com o véu de não ter compromisso total com a realidade, embora em se tratando de um tema tão delicado, ora eviscerou dores ora ajudou a contê-las, logo fica a critério do telespectador conhecer o quanto e em que profundidade esta série pode tocar e influenciar em suas dores. Quanto a mim, só posso dizer que ao pensar em todas as Hannahs que podem existir mundo afora, pelo menos em mim, doeu muito...
* Dedicado a Amanda



Nenhum comentário:
Postar um comentário