segunda-feira, 9 de abril de 2018

O meio cosplay está em crise?


O mundo cosplay é algo de fato mágico. Creio que muitos que entrem nele começam encantados por aquele universo cheio de cores, formas, acessórios e mais do que tudo, encantamento de poder ver ao vivo o seu personagem favorito fazendo poses, expressões fora a chance de tirar foto com eles. Se alguns começam como espectadores dessa forma, com o tempo começam a sentir a vontade de algo mais. E de fãs ávidos por fotos, querem ao invés de olhar, ser o personagem. Querem sentir como é  tirar as fotos, fazer as poses, ver a admiração de quem chega perto. Daí começa com um tutorial de acessório aqui e ali, passam a entender um tantinho mais de tecidos e quais os melhores para confeccionar as roupas, pesquisam sobre materiais mais elaborados e podem até mesmo ter um pequeno estoque em casa de tintas de múltiplas cores. De fato o mundo cosplay é incrível, cheio de aprendizados e ajuda muito na sociabilidade, porém indiscutivelmente, anda em crise.

Embora a arte esteja cada vez mais disseminada no país e em suas regiões de forma mais uniforme (nos anos 2000 o conhecimento se concentrava no Sul e Sudeste), o hobby do cosplay ainda enfrenta muitos desafios e entraves. E se antes isso se visualizava muito mais fora do meio e da comunidade, de alguma forma, abriram-se fendas nas quais uma chama negra entrou e passou a contaminar os próprios membros de dentro. É notório que desde 2015 muitas coisas passaram a ocorrer que assustaram até mesmo os mais antigos e experientes. 

Neste citado ano, houve até mesmo afirmações catedráticas de que foi "o inferno astral" para o cosplayer. Com direito a repórter do Programa Pânico que deu lambida na pintura corporal de uma cosplayer que estava de Estelar a notícia fantasiosa do UOL afirmando que nós somos uma espécie de pessoa com sério distúrbio de identidade, foram necessárias campanhas nacionais para desmitificar isso e mostrar nossa posição como pessoas que apesar de terem um hobby que foge dos padrões nacionais, ainda somos pessoas dignas de respeito como qualquer outro cidadão. 

Houve mais esperança em 2016 e 2017, porém mais uma vez o que percebi não foi tão animador quanto a comunidade esperava. Graças a certa autora de novela, que não bastando dar ao personagem cosplayer um papel totalmente insignificante ainda o fez de forma esteriotipada, infantil, alheio, fora que a autora não tinha qualquer noção sobre dia de eventos, colocando cenas em que este ocorria no meio da semana, o que fazia com que o garoto deixasse seus deveres de casa em cima da mesa para se vestir de Goku. Considerando que muitos da comunidade são menores, ainda economizam o dinheiro do lanche para comprar tintas e tem famílias que não entendem muito bem os eventos, olhar essas cenas fazem com que os pais pensem que basta o filho entrar no universo cosplay que vai ser um passo para repetir o ano.

O mundo de fora pode ser bem cruel com quem diverge das "paixões nacionais", mas vi o quanto os de dentro também não ajudam muito em muitas situações. Com relação aos eventos pelo que vi nos perfis de cosplayers de fora do estado e comentários, não tenho muita certeza se podemos nos isentar de boa parte da responsabilidade por essa crise. Perdi a conta de quantos cosplayers disseram que iriam se afastar do meio por causa da enorme competitividade existente, o que levava a falsidade e sabotagens. Mesmo que neguem e deem um jeito de esconder, com o tempo surgiram sim evidências e provas de que em alguns concursos existe um julgamento parcial, primando pelos que estão em evidência no momento, isso sem contar os staffs que trabalham nos eventos que mesmo lidando com público e um tipo bem específico de público, não sabem nem entendem nada do que isso significa.

Além do nicho dos eventos, determinados tipos de cosplays podem sofrer preconceito dentro da
própria comunidade. Os crossplayers, que fazem personagens do sexo oposto muitas vezes não bastando terem que esconder da própria família suas roupas e acessórios, precisam lidar com as piadinhas da comunidade, insinuações, o que viola uma das regras básicas de quando você faz cosplay: você não é seu personagem depois que tira a roupa e as lentes, o que significa que sua sexualidade e preferências pouco ou nada tem a ver com o personagem que está vestindo por aquelas horas. Existem também o preconceito com a forma física do cosplayer, de cosplayers brancos fazendo cosplays de personagens negros e vice-versa e com relação a idade.


Além dos preconceituosos, a comunidade precisa lidar com "os fantasiados". Sempre comparo essa situação com uma cena do filme Memórias de uma Gueixa. Pra resumir, as gueixas começavam meninas ainda seus aprendizados. Elas passavam coisa de 10 anos aprendendo, passando dor pra fazer os penteados, congelando os dedos pra tocar melhor os instrumentos, daí com a guerra e a invasão do Japão pelas tropas americanas, segundo a própria protagonista: "Os segredos do nosso mundo passaram a ser cartões postais para moças americanas. Até uma prostituta com um kimono maltrapilho e o rosto pintado poderia ser chamada de gueixa". Os fantasiados nada mais são do que os grupos, indivíduos que parecem cosplayers, mas não vivem a filosofia por assim dizer do que seja o cosplay. 

Eles se vestem como personagens, porém ao se olhar com atenção se percebe que foi uma fantasia comprada em casa de festas, sem riqueza de detalhes ou cuidado com acessórios e tecido. Coincidência ou não, sempre são personagens famosos, os que estão em maior evidência seja por filmes ou séries e que fatalmente vão atrair atenção. Mais coincidência ou não, já vi e ouvi falar que estes indivíduos usam tais roupas até o bagaço, cobram por fotos quando pedem no caso deles sairem em passeios públicos e alguns ofendem cosplayers que já queimavam os dedos com cola quente antes deles saberem que cola quente existia. 

Irmãos Somenzari
Os fantasiados sempre colocam em cheque o ponto de "ganhar com o cosplay". Na verdade, muitos fizeram disso sua profissão, porém o modo como essa profissão se executa e como são os serviços executados é que são a diferença. Alguns cosplayers animam festas, é verdade, porém pelo nível de cuidado com seu traje e aprimoramento, também são chamados para divulgação de livros e games, lançamentos de filmes, reuniões temáticas em livrarias e lojas e entrevistas de revistas importantes do meio, ao passo que fantasiados aproveitam a fama porém a menos que estejam sobre ombros de contatos ela acaba se tornando efêmera, pelo fato da repetição dos trajes e pouco tempo dedicado a conhecer mais sobre assuntos relacionados a cosplay.

Bruna Crona e Débora Teach
Talvez por tudo isso e mais um pouco é que cada vez mais vemos cosplayers transcendendo. Transcendendo para outras atividades e hobbies totalmente diferentes de cosplay e de uma forma que ainda que sejam lembrados por momentos incríveis no meio, não lembram nem a sombra do que eram. Muitos hoje lutam contra essa vontade mesmo que lá no fundo de seus corações haja aquele lampejo de que o hobbie lhes preenche, lhes rendeu boas amizades e uma socialização que antes não tinham. Na tentativa de salvar sua empolgação pelo hobby, a qual foi em muitos casos minada por fatores externos e não internos, muitos hoje estão buscando alternativas de permanência no meio que não envolvam tanto o clima competitivo e estressante visto em muitos momentos na comunidade, é o caso de cosplayers que fazem ensaios fotográficos, oferecem serviços de cosmaker e possuem lojinhas. É uma forma de estar no
hobby mas de uma forma sem tantas arestas para se aparar.

Eu mesma já pensei em largar o cosplay muitas vezes, seja pelo cansaço de ver tantas coisas erradas, censuras, injustiças e intrigas. A escassez de eventos e percepção de que muitos que se intitulam cosplayers contaminam e disseminam idéias erradas sobre o hobby tem gerado um desânimo geral. Falando por mim, consigo contar nos dedos da mão quem são os cosplayers que de fato geram uma inspiração positiva, seja a nível estadual ou a nível nacional, talvez assim como eu muitos estejam torcendo pra que o meio se torne, ou melhor, retorne a forma leve e puramente divertida que um dia teve. Quem sabe esse seja o caminho para que ao invés de transcendentes a comunidade consiga mais adeptos...


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