"Hoje em dia a realidade é uma decepção, todo mundo está procurando um jeito de fugir. É por isso que o Haliday é um herói pra nós, ele mostrou que poderíamos ir pra qualquer lugar sem sair pra lugar nenhum. Ele nos deu um lugar pra ir, um lugar chamado Oasis, um lugar onde os limites da realidade são sua própria imaginação. Você pode ser qualquer coisa, ir pra qualquer lugar. As pessoas entram no Oasis por todas as coisas que podem fazer, mas elas ficam por todas as coisas que podem ser."
O universo alternativo mostrado no filme Jogador Nº 01 parece ser um paraíso para aqueles que sempre se sentiram deslocados ou estranhos no mundo real. Pela logística, parece de fato algo incrível você ter possibilidades infinitas de aparência e efeitos. O jovem que nunca foi bom em esportes pode se tornar o Ryu do Street Fighter; a senhora que abandonou a carreira na juventude pode sentir de novo o sucesso; a vida mais miserável, seja material ou socialmente, no Oasis ganha um novo significado. Contudo, até onde isso de fato traz uma satisfação e benefícios reais?
No filme, durante a descrição do protagonista Wade, ele afirma que como a maioria entrou querendo algo mais da vida, fugindo do nada que era sua realidade, porém após uma enorme cruzada ele percebe que lá encontrou mais do que isso. Haviam coisas maiores como sentimentos, amigos, novos propósitos e ele acaba percebendo que aquele mundo parecia perfeito em sua irrealidade e ilusões, contudo o real ainda tinha vantagem pelas vantagens oferecidas, especialmente as de lidar com adversidades, propiciando aprendizados únicos.
Pensar que no futuro é possível que alguém crie um Oasis é ao mesmo tempo incrível e assustador. No filme é mostrado que ao se entreter tão profundamente com o virtual e suas maravilhas que no mundo real, as pessoas simplesmente esqueçam seus deveres e obrigações. As mães esquecem de cuidar de seus filhos, crianças não estudam, pessoas entram em depressão ao perderem seus bônus e moedas. Claro que vimos de uma forma mais sutil isso ocorrer quando redes sociais e o youtube despontaram. O advento da internet no celular obrigou várias escolas e empresas a reformular suas regras devido à grande distração que seus alunos e funcionários apresentavam ao se entreter com as redes. Mesmo na época do orkut, não faltaram reportagens alertando para o fato de que você não poderia ter contato com 1000 amigos, já que era improvável uma relação estreita com tanta gente.
As redes evoluíram e os problemas mudaram, cisas como interações não tão próximas não eram um problema tão efetivo, uma vez que em locais como o Facebook você pode ter milhares de amigos, em outros países, se juntar com eles em grupos de gostos comuns, curtindo e compartilhando conteúdo em uma plataforma que nunca, em absoluto nunca, dorme. Daí sempre cabe o questionamento do porquê essas redes são tão atrativas e porquê muitos perdem energia e saúde por causa delas. Talvez a resposta esteja na idéia central do Jogador Nº 01, muito embora o que temos hoje seja ainda algo bem primitivo se comparado com o Oasis, já se tem as mesmas sensações e intenções: as de que você entra e quer interagir. Nem tanto pelo que é, mas pelo que pode se tornar e encontrar na rede.
Não raro vidas serem bem áridas do lado de fora, porém ao entrar nesse mundo de páginas, avatares e grupos, se sentem acolhidas ou como o próprio Wade sinaliza: "sair da vida de merda que leva". Todavia não desmerecendo a validade dos benefícios que as redes digitais, incluindo o próprio (fictício) Oasis, promovem o sinal vermelho passa a acender quando a imersão é tão profunda que o contato com o mundo e pessoas reais fica fraco ou pior, torna-se um fardo. Para muitos, é perfeitamente compreensível uma vez que tal como o próprio Haliday são pessoas que nunca se sentiram em casa no mundo real e possuem dificuldade de se conectar com as pessoas, seja por medo ou por algum ponto divergente. Então é lógico que vão preferir um oásis digital ao invés de uma realidade cinzenta e assustadora. Como voltar para um mundo no qual você sente deslocado, se senta a parte e permanece em uma eterna solidão?
É bem tentador se for oferecida a chance de nunca ter de voltar para esse mundo cruel e nocivo. E talvez essa seja a coisa mais difícil de ser feita: voltar para a realidade por saber que é a coisa certa a se fazer. Haliday afirmou que por mais assustadora e dolorosa que a realidade pudesse ser, ou seja, por mais dificuldades que pudessem se apresentar, o mundo real ainda é o único lugar onde se pode comer bem, viver experiências que façam você se confrontar com suas próprias limitações e possibilitar convivência com outras pessoas, mostrando seus lados não tão bons e vendo também o lado não tão bom das outras pessoas. É bem difícil quando se tem a a facilidade de uma rede na qual há felicidade a maior parte do tempo, mas é fato que em nome de algo mais seguro, ainda querem passar pelas pelas dificuldades.
O Oasis não é algo ruim, ao contrário. Embora o que temos hoje não seja tão desenvolvido quanto o de Haliday, ainda é uma forma de desanuviar os pensamentos das durezas reais. Porém não esqueçamos que de seu sucessor Wade, que mesmo com todas as maravilhas e infinitas possibilidades desse mundo, decidiu desligar todo o Oasis duas vezes por semana para que as pessoas também pudessem ter a chance de aproveitar também as possíveis doçuras do mundo real.



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