quinta-feira, 24 de maio de 2018

Vivemos mesmo em um mundo bonito?


Certa vez descobri uma música do Coldplay chamada Beautiful World. A melodia é bonita, a letra também mas além disso o que mais toca são os sentimentos que ela desperta.

Estamos vivendo um momento mundial bem delicado, em meio a desastres, guerras, prédios que desabam, dificuldades e abusos de poder. Coisas que influenciam numa conjuntura mundial mas também nas pequenas situações individualmente. De uns tempos pra cá, existe uma necessidade de julgamentos em diversos assuntos e mais do que julgar assuntos, julga-se pessoas. Seja pelo que elas gostam, seja pelas suas opiniões, por algum estilo diferente do mais comum, muitos desses casos refletem uma certa dificuldade social de lidar com algo fora de seus costumes, porém também reflete uma falta de vontade de se abrir para o que está fora de seu círculo.

E esse fato é a raiz de boa parte das intolerâncias que vem chocando o mundo, as quais podem ser vistas tanto no país mais miserável quanto mais desenvolvidos e isso nos faz pensar me como vai ser nosso futuro. Será que um dia imaginamos que tudo passaria por tamanha transformação? Será que 1000 anos atrás se imaginava que poderia haver tanta tecnologia porém tão pouca humanidade para lidar com ela e para com os próprios semelhantes? Como será que chegamos a tamanho sentimento de desesperança?

Daí com esse questionamento em mente, voltamos para uma música que traz esses versos de "Vivemos em um mundo bonito", mas que em muitos momentos parecem ser somente palavras que servem apenas para quem talvez tenha muitas vantagens na vida. Afinal, com tantas adversidades, é difícil crer nesse mundo que se diz bonito, é difícil até mesmo crer nas pessoas que vivem nele.

Creio que uma das coisas que mais tem trazido questionamentos a tona sobre essa beleza relativa e gerado verdadeiro rebu nas redes sociais foi o lançamento da segunda temporada de 13 Reasons Why. Muito embora eu não tenha visto a primeira temporada, mas esteja com vontade real de ver a série, percebo que ela divide opiniões. Há o lado dos que afirmam que por mais que ela abra inúmeras caixas de pandora, ainda se faz necessário mostrar um assunto tão delicado e que muitas pessoas vêem o mundo com olhos cinza. Por outro lado, existem os que enxergam a série como um tóxico, que nada acrescenta e ainda dissemina a idéia de que a personagem principal, com tendências suicidas incentiva o chamado suicídio vingativo. Confesso que quando escuto algo assim, imagino que quem diz deve ter uma auto estima muito grande pra crer que alguém que ultrapassou o fundo do poço vai querer tirar a vida somente para chamar sua atenção ou causar culpas.

É um assunto muito delicado para ser visto de forma tão simplória. Esse Bonito Mundo que muitos fazem questão de dizer que vivem não é visto da mesma forma por todos. A mesma paisagem pode ser vista de forma simples por alguém comum mas um artista pode enxergar de forma extraordinária. Os suicidas e deprimidos são o extremo do fato de que o resto do mundo pode parecer sem cor, porém para muitos isso ocorre de forma gradual, como uma tela que a cada dia perde um pouco de seu brilho. Por vezes conviver com muitas asperezas, pessoas amargas, críticas promove certa desesperança e uma visão de que tudo é sem graça. Daí muitos simplesmente não conseguem entender que mundo é esse que muitos dizem ser bom e acabam se sentindo alienígenas por não se enquadrarem. E é importante frisar que não se trata de culpas, é mais como uma forma que precisa ser trabalhada para que não piore e a vida seja um pouco melhor.

Houve tempos em que o mundo pra mim era uma escala de cinza. Na verdade, tempos que se repetiram até que quase tudo ficou sem cor. Lidar com pessoas por si só não é algo fácil, precisar lidar e conviver quando é mais uma questão de necessidade mas sua vontade quer o contrário é quase uma guerra que precisa ser travada diariamente consigo mesmo. As pessoas deprimidas apresentam esse tipo de padrão. Elas sentem mais as asperezas alheias, as palavras tornam-se mais afiadas para elas, é difícil ver algum incentivo ou valor em si mesmo, mas sempre digo que da mesma forma como se demora para chegar num ponto assim, é possível também com paciência, persistência e fé conseguir sair. 

Há dias em que o mundo não foi bom comigo. Nem bonito. Nem gentil. Houve momentos em que o silêncio me pareceu mais acolhedor do que qualquer voz, que o mundo dos sonhos me pareceu tão tentador pra se ficar que abrir os olhos era motivo para se chorar. Com o tempo vi que o mundo, contudo, vai ser assim e fatalmente é o único que temos, sobre isso não há muito o que se fazer por mais que se queira. Mas também descobri que policiar pensamentos é uma boa forma para se driblar as feiuras que ocorrem no caminho. E acima de tudo, percebi que sempre, por pior que possa parecer, existe algo que você pode fazer, ou ter ou amar e que pode fazer com que seu mundo fique mais bonito, mesmo que o mundo do resto não esteja. E eu sempre torço para que todos um dia saibam o modo de fazer isso...


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