quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O que percebemos nas novelas do Manoel Carlos?




Eu sempre fui bem ligada em novelas. E desde que comecei a ver para os tempos de hoje percebo em como as novelas tal como os tempos mudaram. Como uma manifestação de arte e exposição, elas tem como objetivo entreter as pessoas, fazer com estas fiquem ligadas e se prendam para saber qual será o final de uma história contada através de imagens, personagens e cenário, tal como Sherazade fazia com seu sultão todas as noites quando movido pela curiosidade de saber o que se sucederia nas narrativas adiava a sentença da esposa.

Lógico que nesse contexto, muitas coisas mudaram e há uma divisão entre novelas boas e ruins. Normalmente as ditas boas após tantos anos percebi serem aquelas que envolvem algo polêmico e múltiplas histórias na mesma história, sem que estas obrigatoriamente se liguem. Embora sejam em teoria tramas fictícias, tal como os avisos ao fim de cada capítulo, é certo que há muito de situações reais que são retratadas ou ao menos esboçam ser retratadas nas telas, lógico que com certo limite e até alguma hipérbole, todavia inevitavelmente chamam a atenção até de quem não gosta de novela. E com o advento das redes sociais mesmo estes, sem nem ter assistido um único capítulo inteiro por vezes criam polêmica e atritos usando de seu direito caso se sintam ofendidos.

Dentre os autores de novelas brasileiros mais famosos, está o famoso Manoel Carlos, também conhecido como Maneco. Dizem que ele se aposentou das novelas, mas talvez as que ele tenha escrito vão durar para sempre. Muitos não param pra pensar que algumas já tem mais de 15 anos mas se forem reprisadas todos lembram de como era. Por ter assistido e revisto até boa parte delas, notei em como a realidade influenciou as tramas e em como ideias da época também mexeram e muito com a população telespectadora. Contudo, notei também muita maquiagem que para a época era demais e hoje é bem surreal, tal como personagens estereotipados que não fazem o menor sentido atualmente.

Normalmente, as novelas do Maneco tem uma Helena. Segundo entrevistas, ele gosta do nome porque ela era conhecida na Grécia como a mulher mais bonita do mundo. Não á toa nas novelas dele essa personagem é aquele que se envolve em uns perrengues bem pesados, em redes que envolvem passados e presentes e mais um tanto de pessoas. Quase sempre ligadas a família. Como a Helena de “Mulheres Apaixonadas” que era a mais velha de duas irmãs, uma obsessiva pelo marido, outra que adquiriu câncer de mama e ainda adotou sem saber o filho do marido com uma outra mulher, fora que tinha um amor mal resolvido do passado. Algumas outras também tinham esse ponto do amor mal resolvido bem presente e tirando a Helena de “Em Família”, é quase unânime que elas ficam com ele no fim.

Além da Helena, é quase certo que nas novelas dele tem uma megera ou um vilão bem detestável. É aquele personagem que parece ter sido feito somente pra ser odiado, o antipático que todo mundo tem aversão e que que se dê mal. Como a moça Clara, de “Laços de Família”, que vivia tendo surtos de grandeza e ciúme do marido, fazia escândalos, jogava a filha contra o pai, revelou no meio da festa de casamento da cunhada que a madrinha era uma prostituta por ciúme. Dóris, de “Mulheres Apaixonadas” era a menina que vivia maltratando os avós idosos e parecia detestar a família, querendo uma vida de luxos e comodidades; na mesma novela, o vilão Marcos que espancava a esposa com uma raquete. Marta, mãe da personagem Nanda, em “Paginas da Vida”, que era uma mulher ambiciosa e dura, expulsou a filha de casa quando esta voltou grávida do exterior e era bem insensível. Laerte, de “Em Família”, carinha possessivo que vivia fazendo cenas de ciúmes, que possuia sérias dívidas com o passado, incluindo agressão grave
contra um amigo e ser preso no altar e fora alguns personagens secundários.

Lógico que muitas atitudes meio sem sentido e aversivas eram coerentes para a época, não deixavam de ser ruins porém os mais sensatos conseguem perceber que os valores, nomenclaturas e idéias eram outras. Como nas novelas do Maneco assim como em muitas outras sempre precisa ter uma polêmica envolvendo grupos específicos, vimos muita agitação por conta de enredos envolvendo homossexuais, negros, idosos, fora a velha dicotomia pobre x ricos. Em “Mulheres Apaixonadas”, a lésbica Clara vivia em pé de guerra com a mãe Margareth e com a colega de escola por conta de seu relacionamento com Rafaela.

Vimos a grande dificuldade que era lidar com a pressão de dentro de casa, incluindo golpes baixos como usar da condição financeira para ameaçar a filha de privações e obrigá-la a voltar para casa por ser menor de idade, lógico que ao completar os 18 a primeira coisa feita foi sair de casa, com disposição para viver a própria vida não importando o que aconteceria. Nessa novela foi visto muito
ainda da concepção de achar que a homossexualidade era uma doença que poderia ser curada com visitas a analista ou influência de outra pessoa, bastando o afastamento para que a pessoa voltasse ao “normal”, fora a vergonha que a mãe sentia das amigas ao pensar que saberiam da filha morando com outra mulher. Na novela “Em Família”, outra Clara também viveu a questão da homossexualidade ao se descobrir apaixonada por uma amiga. Diferente da primeira Clara, esta já era uma mulher madura, casada e precisou lidar com o fim do casamento, o preconceito e intolerância do marido e esclarecer tudo ao filho sobre seu novo relacionamento com uma mulher. Hoje em dia, algo assim reproduzido seria duas vezes mais indignante, contudo sem dúvidas de que ainda acontece em muitos locais do mundo.

Além dos homossexuais, em “Páginas da Vida”, a questão dos negros ficou muito em pauta devido ao preconceito de Gabriela, uma menina também negra, filha de pais brancos separados, que por influência da mãe possuia grave aversão a pessoas negras, incluindo a namorada do pai a ponto de não comer nada feito por ela nem tocá-la. Ainda na mesma novela, Clara, filha de Helena adotiva, sofre preconceitos por ter Síndrome de Down, não só por parte de pessoas na rua e nos locais, mas também foi mostrado certa ressalva por parte de escolas regulares e professoras de aceitá-la e incluí-la como aluna.

Já em “Viver a Vida” a personagem principal Helena era negra, porém carregava todos os estigmas de uma vida difícil e atos dolorosos em nome da ascensão na carreira de modelo. Luciana, modelo que competia com Helena, devido desavenças acaba sofrendo por fatalidade um acidente que a deixa
tetraplégica, inevitavelmente culpa Helena pelo acidente, porém no processo de lidar com a deficiência mostra-se muito da realidade dessas pessoas, seja no lar, em hospitais, intercorrências, relacionamentos íntimos, etc. É algo bem considerável e bom mostrar esses grupos e como vivem, desmistifica muitas crenças e concepções erradas, quando bem feito a novela é um ótimo instrumento de elucidação.

O mesmo não se pode dizer do modo como algumas famílias são mostradas. Seja em termos de classe ou de moradia ou até mesmo de estrutura. Lógico que novelas também precisam do romantismo, embora mesmo este tenha mudado em decorrência de fatores do próprio país. Não que algumas dessas coisas não permaneçam, porém quem hoje assiste novelas como “Mulheres Apaixonadas”, “Páginas da Vida” e “Viver a vida” fica meio perplexo sobre como algumas coisas que pareciam tão naturais na época nos dias de hoje em sua maioria são sem noção e surreais. A começar pelos bairros nos quais as tramas se passam. Leblon é quase colocado como um bairro popular. Aliás, em “Mulheres apaixonadas” e “Páginas da vida” os personagens que moravam
no Leblon eram retratados como pessoas de classe média trabalhadora, que passavam por dificuldades financeiras, reclamavam de preços de supermercado e farmácia, moravam em apartamentos simples contudo tinham empregada e as contas ficavam sob responsabilidade de um único membro da família. Cabe ressaltar que Leblon é tido como uma das áreas mais nobres do Rio de Janeiro, majoritariamente habitado por nomes importantes da política, cultura e elite carioca. É no mínimo estranho que pessoas que passem por tantas dificuldades financeiras como é mostrado, apareçam morando em prédios que ficam a uma atravessada de rua da praia.

E nesse sentido de classe e renda, há fatos mostrados que hoje são ou para pouquíssimos ou puro e simples devaneio. Como por exemplo, a casa do médico César, em “Mulheres Apaixonadas”, ainda que sendo sócio de uma clínica/hospital importante, a casa dele é retratada como praticamente uma casa de festas. Os quartos, incluindo o de hóspedes, são como de hotéis, com direito a hidromassagem e frigobar repleto de bebidas, a área da piscina concomitante com o jardim é como um clube, tanto que na referida área foi dada uma festa semelhante a uma formatura para uma turma de formandos, a casa é surrealmente grande para uma família de quatro pessoas. Algo semelhante ocorre em “Páginas da Vida”, com a família de Tide, que embora seja maior em número, da mesa de café da manhã que é incrivelmente comprida, a comida que é sempre em grande quantidade, a casa mais parece um hotel fazenda, com inúmeros carros e direito a uma capela na propriedade.

Algumas concepções também acabam mudando pra melhor pelo tempo favorecer isso. As relações de empregador e empregado mostradas em muitas das novelas das oito hoje seriam inadmissíveis. Na própria casa de Tide citada acima, os empregados ao que foi entendido passavam uma vida inteira morando e servindo a família, literalmente. Havia uma casa completamente mobiliada, com quartos para abrigar a família da empregada e jardineiro. O mesmo ocorria com a escola ERA de “Mulheres Apaixonadas”, o porteiro, copeira e família moravam no terreno do próprio colégio. Obviamente que nessa trama sempre é mostrada a situação dos filhos de empregador e empregado se envolverem, m algumas deu certo, em outras acabou em tragédia, porém empregados que moram na casa de quem os paga é algo bem longe da realidade majoritária.

Outra concepção que muda (ao menos mudou em mim) foi a questão de como alguns dos personagens ditos “demonizados” pareciam também merecer um voto de confiança e compreensão por parte do público. Marta, de “Mulheres Apaixonadas”, tão detestada por sua dureza, ambição e por pensar sempre nas contas de fato teve atitudes reprováveis como expulsar Nanda de casa grávida, porém quando você de algum modo começa a pagar contas e vê o quanto custa as coisas, consegue perceber que era bem injusto ela, que sempre trabalhou para manter a filha no exterior em uma época
na qual não haviam bolsas de estudo, ser julgada pela filha ter engravidado e não ter dado o retorno, até para ela mesma. Fora o fato de que o marido, que mesmo muito amoroso e tido como super pai e avô, não se estabilizava financeiramente, não contribuía e arrisco a dizer, que sequer amadureceu no sentido de responsabilidade. Depois que você cresce e passa a ter noção de trabalho, sabe que Marta podia estar errada de pensar muito nisso, mas Alex também estava errado de não pensar nunca.

Nas novelas também sempre havia um núcleo que tinha muito dinheiro, mas tanto dinheiro que as mulheres se davam ao luxo de naturalmente serem sustentadas até a maturidade, seja pelo pai e posteriormente pelo marido. “Faculdade/universidade” era mencionada pelos jovens em idade de vestibular com uma leveza irreal, mais como um hobby do que como uma necessidade para ter maiores chances de estabilização. “Em família” a família de Helena tinha uma casa de leilões, o primo Laerte era pianista famoso no exterior e ao que parecia tinha dinheiro o bastante para construir um galpão cultural com aulas de arte, dança e música. O mesmo ocorre com Tide, em “Páginas da Vida”, ele tinha tanto dinheiro que possuía fazendas e construiu uma casa de cultura onde não só seus filhos ministravam aulas de artes mas também viajavam em busca de artistas para expor obras. Na mesma novela, inclusive, um dos genros disse que o negócio era deficitário e que foi sua administração dura que bancou o idealismo da família evitando uma falência.

Ao longo desses anos todos, vimos cenas impactantes e emocionantes, vide o corte de cabelos de Camila, em “Laços de Família”, em decorrência de um câncer, o que acabou também mostrando para a população como é o processo da doença. Vimos Raquel de “Mulheres Apaixonadas” ser espancada, mas também maior conscientização sobre a importância da denúncia na delegacia especial de atendimento a mulher. Dóris, na mesma novela, mostrou como muitos dos nossos idosos  podem estar sendo maltratados e em como se pode fazer denúncias ao Estatuto do Idoso por maus tratos e punir os agressores. Vimos também questões relacionadas a vícios como alcoolismo e distúrbios como bulimia, em seus devidos contextos os atores envolvidos souberam extrair emoções do público e alertar ao mesmo tempo para algo tão delicado.


Lógico que hoje o mundo e sociedade evoluíram e as abordagens são outras, outros grupos e pautas foram incluídos. O fundo real com a maquiagem do romance permanece, mas esperemos que cada vez mais as novelas possam atingir de forma concreta não só o entretenimento que nos faz suspirar, torcer pelos mocinhos, vibrar com a queda dos vilões mas também conscientizar para uma realidade cada vez melhor.

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