Sempre digo que muitas coisas boas vêm meio atrasadas, eu as
descubro bem depois de serem lançadas ou de todo mundo conhecê-las. Talvez meu
jeito meio contrário a modas e popularidades faz com que isso aconteça, porém
ainda assim tudo vem na hora que tem que vir e coincidentemente me deixa num
encantamento maior do que se eu tivesse acompanhado in time.
Mais curioso ainda é o modo como sempre descubro tais
coisas, quase sempre através de outras muito pouco relacionadas. E desse modo
descobri a série Grimm, terminada ano passado. Não que não tivesse visto alguns
spots antes, porém achava que era de terror e me assustaria, contudo estava numa
época que me assustava com muito pouca coisa, logo talvez não conte. Desta vez,
curiosamente, comecei a ver justamente por causa de um filme de terror.
Com o lançamento recente do trailer do filme A Chorona, em um
dos posts de comentários dos fãs, vi amenção de certo episódio da série que
falava sobre essa assombração mexicana. Querendo ver mais da Chorona, acabei
parando em um episódio da segunda temporada de Grimm que se passava no Halloween.
Ainda que aleatório e com o bonde bem avançado na história, pude ter noção do
ambiente, dos personagens e de como as coisas funcionavam. Lógico que teve
coisas que ficaram sem entendimento mas foi o bastante pra aumentar meu
interesse e querer mais. Comecei a ver desde o início.
A história gira em torno de Nick Burkhardt, um policial da
divisão de homicídios aparentemente comum que só quer viver uma vida tranquila
ao lado de sua namorada (quase noiva) Juliette. Todavia justamente no dia em
que ele compra o anel de noivado para pedi-la em casamento, algo começa a
acontecer. Nick passa a enxergar as pessoas de uma forma diferente, seus rostos
mudam e assumem formas assustadoras. Isso concomitante a volta de sua tia Marie
e alguns esclarecimentos dados por ela, ele passa a perceber melhor esse mundo
e o significado de algo totalmente novo: ser um Grimm.
Ao longo da série, Nick não só vai descobrindo sobre as
inúmeras criaturas, os chamados Wesen como faz amizades e alianças improváveis
e diria incomuns. Como é o caso do Blutbad (o famoso lobo mau) Monroe, o qual
devo dizer que me cativou e talvez a muitos bem mais do que o próprio
protagonista. Outros personagens que podem ter começado tímidos e coadjuvantes
no início, ao longo de seis temporadas ganham simpatia do público e destaque,
mas sempre girando em torno de Nick e o submundo dos Wesen que só ele consegue
ver. Afinal, para uma divisão de homicídios com policiais comuns deve ser no
mínimo estranho ver crimes e mortes envolvendo coisas tão estranhas e fora dos
padrões.
Grimm como o próprio nome sugere trata-se de clara referência
aos famosos Irmãos Grimm, poetas que dedicaram-se a escrita de fábulas infantis
e através delas ganharam notoriedade. Na série, carregar esse
nome/característica faz de você alguém que não só consegue ver as criaturas que
em teoria só habitavam bosques e contos, mas também meio que a obrigação de
caçá-las para proteger os humanos. Ainda que nem todos os Wesen sejam maus ou
ferozes nem ofereçam perigo para os demais, como é o caso dos doces Eisbiber ou
os tranquilos Indole Gentile, a palavra Grimm é sinônimo de pânico. Claro que
como mencionado, Nick muda bastante muitas concepções e ambos os lados nesse
sentido cedem em suas antigas ideias.
Outra coisa muito curiosa é como os autores da série conseguiram
colocar forte raiz alemã na série, fazendo não só os nomes das criaturas fazerem
total sentido como demonstrar a ligação delas com os contos, os autores e sua
terra. Os próprios Wesen são mostrados com suas características de criatura mas
também, tal como deve ser objetivo, mostrados como pessoas comuns que vivem e
enfrentam os problemas do dia a dia. Eles também trabalham, se divertem, bebem
vinho a noite, pagam contas, são presos, em um devaneio de alguns segundos vendo
a série você até se pergunta se não pode haver um wesen trabalhando ao seu lado
ou que você conheça, como é o caso mostrado de um Ziegevolk advogado que usava
suas habilidades de persuasão para convencer um júri da inocência de seu
cliente.
Ao colocar esse mundo paralelo a mostra, a série também
aborda problemas que a comunidade enfrenta que são muito conhecidos por todos.
Ao longo das seis temporadas, vemos coisas como casamento entre diferentes
wesen e que causam aversão entre as famílias, relações abusivas de um wesen
para com outro, como questões ditas tradicionais podem se tornar algo
extremamente torpe. Em um dos episódios, mesmo que não de forma direta mas com
um pouco de imaginação se consegue enxergar a questão da transexualidade com relação a um personagem wesen, assim como há abordagem de questões políticas e radicalismo e até mesmo
pontos relacionados a velhice e demência e como lidar com isso, episódio
tocante esse, devo dizer.
A cada início de episódio há uma citação de livro, a maioria
de conto de fadas e você sente a conexão com a palavra escrita. Todo wesen
lembra algum personagem visto em alguma história que possamos ter lido em algum
livro quando crianças, porém de uma forma mais intensa, palpável, real...Talvez
no fim, contos de fada também são para adultos.


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