sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Análise de série: Grimm




Sempre digo que muitas coisas boas vêm meio atrasadas, eu as descubro bem depois de serem lançadas ou de todo mundo conhecê-las. Talvez meu jeito meio contrário a modas e popularidades faz com que isso aconteça, porém ainda assim tudo vem na hora que tem que vir e coincidentemente me deixa num encantamento maior do que se eu tivesse acompanhado in time.

Mais curioso ainda é o modo como sempre descubro tais coisas, quase sempre através de outras muito pouco relacionadas. E desse modo descobri a série Grimm, terminada ano passado. Não que não tivesse visto alguns spots antes, porém achava que era de terror e me assustaria, contudo estava numa época que me assustava com muito pouca coisa, logo talvez não conte. Desta vez, curiosamente, comecei a ver justamente por causa de um filme de terror.


Com o lançamento recente do trailer do filme A Chorona, em um dos posts de comentários dos fãs, vi amenção de certo episódio da série que falava sobre essa assombração mexicana. Querendo ver mais da Chorona, acabei parando em um episódio da segunda temporada de Grimm que se passava no Halloween. Ainda que aleatório e com o bonde bem avançado na história, pude ter noção do ambiente, dos personagens e de como as coisas funcionavam. Lógico que teve coisas que ficaram sem entendimento mas foi o bastante pra aumentar meu interesse e querer mais. Comecei a ver desde o início.

A história gira em torno de Nick Burkhardt, um policial da divisão de homicídios aparentemente comum que só quer viver uma vida tranquila ao lado de sua namorada (quase noiva) Juliette. Todavia justamente no dia em que ele compra o anel de noivado para pedi-la em casamento, algo começa a acontecer. Nick passa a enxergar as pessoas de uma forma diferente, seus rostos mudam e assumem formas assustadoras. Isso concomitante a volta de sua tia Marie e alguns esclarecimentos dados por ela, ele passa a perceber melhor esse mundo e o significado de algo totalmente novo: ser um Grimm.

Ao longo da série, Nick não só vai descobrindo sobre as inúmeras criaturas, os chamados Wesen como faz amizades e alianças improváveis e diria incomuns. Como é o caso do Blutbad (o famoso lobo mau) Monroe, o qual devo dizer que me cativou e talvez a muitos bem mais do que o próprio protagonista. Outros personagens que podem ter começado tímidos e coadjuvantes no início, ao longo de seis temporadas ganham simpatia do público e destaque, mas sempre girando em torno de Nick e o submundo dos Wesen que só ele consegue ver. Afinal, para uma divisão de homicídios com policiais comuns deve ser no mínimo estranho ver crimes e mortes envolvendo coisas tão estranhas e fora dos padrões.

Grimm como o próprio nome sugere trata-se de clara referência aos famosos Irmãos Grimm, poetas que dedicaram-se a escrita de fábulas infantis e através delas ganharam notoriedade. Na série, carregar esse nome/característica faz de você alguém que não só consegue ver as criaturas que em teoria só habitavam bosques e contos, mas também meio que a obrigação de caçá-las para proteger os humanos. Ainda que nem todos os Wesen sejam maus ou ferozes nem ofereçam perigo para os demais, como é o caso dos doces Eisbiber ou os tranquilos Indole Gentile, a palavra Grimm é sinônimo de pânico. Claro que como mencionado, Nick muda bastante muitas concepções e ambos os lados nesse sentido cedem em suas antigas ideias.

Outra coisa muito curiosa é como os autores da série conseguiram colocar forte raiz alemã na série, fazendo não só os nomes das criaturas fazerem total sentido como demonstrar a ligação delas com os contos, os autores e sua terra. Os próprios Wesen são mostrados com suas características de criatura mas também, tal como deve ser objetivo, mostrados como pessoas comuns que vivem e enfrentam os problemas do dia a dia. Eles também trabalham, se divertem, bebem vinho a noite, pagam contas, são presos, em um devaneio de alguns segundos vendo a série você até se pergunta se não pode haver um wesen trabalhando ao seu lado ou que você conheça, como é o caso mostrado de um Ziegevolk advogado que usava suas habilidades de persuasão para convencer um júri da inocência de seu cliente.

Ao colocar esse mundo paralelo a mostra, a série também aborda problemas que a comunidade enfrenta que são muito conhecidos por todos. Ao longo das seis temporadas, vemos coisas como casamento entre diferentes wesen e que causam aversão entre as famílias, relações abusivas de um wesen para com outro, como questões ditas tradicionais podem se tornar algo extremamente torpe. Em um dos episódios, mesmo que não de forma direta mas com um pouco de imaginação se consegue enxergar a questão da transexualidade com relação a um personagem wesen, assim como há abordagem de questões políticas e radicalismo e até mesmo pontos relacionados a velhice e demência e como lidar com isso, episódio tocante esse, devo dizer.

A cada início de episódio há uma citação de livro, a maioria de conto de fadas e você sente a conexão com a palavra escrita. Todo wesen lembra algum personagem visto em alguma história que possamos ter lido em algum livro quando crianças, porém de uma forma mais intensa, palpável, real...Talvez no fim, contos de fada também são para adultos.

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