Aqui no Brasil não tem neve. Nem gelo. É difícil imaginar alguém que criança diga que quer ser patinador do gelo profissional. Contudo, ainda que aqui não tenha nada disso, acho que esse esporte especificamente tem muito o que nos ensinar sobre conceitos essenciais de vida e cotidiano. Podemos não ter neve ou gelo, mas tem brasileiro até no Pólo Norte, logo só porque não tem não quer dizer que seja algo desconhecido para nós. Até porque os canais abertos fazem questão de transmitir os jogos e olimpíadas de inverno. Não considerem racismo, mas todo aquele cenário branco tem algo de fascinante. O som do deslizar das lâminas dos patins e das pranchas é algo diferente e ao mesmo tempo, incrível.
Voltando a patinação no gelo, me pergunto quem inventou. Patinar no gelo do jeito bruto de deslizar deve ter sido descoberto em algum país muito frio cujos lagos congelavam no inverno. Agora, a patinação do modo como é hoje nas competições desperta curiosidade. Quem será que imaginou que seria algo lindo de se ver, ma pessoa ou casal, patinando ao som de uma música como uma dança? Querendo ou não, isso provavelmente exige muito mais do que mero movimento de braços e pernas e impulso de ir para frente, deve ter pensado a pessoa. E ela estava incrivelmente (e terrivelmente) certa.
Se você nunca viu com detalhes uma apresentação no gelo, sugiro que veja os ganhadores do ouro deste ano Ajjona Savchenko e Bruno Massot. Não só pela música mas pelo que eles fizeram com ela. Creio que a primeira lição vem daí, do quanto se pode pegar algo simples e transformar em algo extraordinário. A música da apresentação combinada com os movimentos dão uma sensação de liberdade e leveza, literalmente é como se estivessem voando. E meio que você voa com eles. Esses patinadores estão no que se chama nível sênior, já estão nessa a algum tempo e possuem certa idade. Daí você se pergunta: quanto será que eles passaram para chegar nesse nível? E a resposta: muito.
Mesmo que seja algo lindo de se ver, o muito que esses carinhas enfrentam inclui muito tempo de dedicação, restrição de certos alimentos maléficos a saúde e peso, muito foco e acima de tudo, muita dr. E nisso, se reflete um pouco mais sobre a beleza desse esporte. Muitas coisas na vida são bonitas e altamente cobiçadas. Parecem incríveis e todos querem ter, contudo não param pra pensar que por melhor que elas sejam, não são alcançadas do dia para a noite. Paremos para pensar: quanto tempo levou pra esses carinhas conseguirem voar em suas piruetas? Quanto tempo eles levaram de treino para dançar tão perfeitamente em seus patins a ponto do escorregar ser inexistente?
Quanta dor e treinos para o corpo eles tiveram que passar para os movimentos serem executados de forma totalmente linear? Afinal, não nos enganemos. Para eles voarem, rodopiarem, se agacharem e levantarem enquanto deslizam dançando exige a contração de vários grupos musculares que muitos nem sabem que existem. Eles não chegaram num dia específico para treinar e disseram que fariam o giro no ar e fizeram-no perfeitamente. Isso, tal qual muito nas nossas vidas, exigiu tempo e dedicação.
Outra coisa muito interessante nesses patinadores é a naturalidade para dor sentida. Pode não parecer, afinal eles dançam com tanta formosura que nem aprecem estar contraindo o corpo inteiro. Em tempos de crossfit, HIIT e cultura fitness, mutos tiram fotos com pesos, halteres, fazendo expressões retorcidas transparecendo dor e deixando amostra grandes quantidades de suor pingando, pode parecer até estranho pensar que esses atletas consigam manter suas expressões tão serenas e felizes. Contudo, tudo isso teve um preço, os campeões deste ano provavelmente estiraram muitos tendões para conseguirem o espetáculo que deram. Ao contrário do que muita gente pensa, tempo de treinamento não isenta o indivíduo de sentir dor por causa dele, muitos inclusive ao competir estão lesionados mas aguentam firme. Pode-se aumentar a resistência e facilidade, mas não a imunidade.
Eles vão sentir dor sim, assim como vão suar bastante. Olhos mais atentos notaram o quanto Massot estava com o corpo todo trêmulo na finalização com Ajjona, afinal segurá-la com um braço não deve ser fácil, por mais leve que ela seja. O desabamento dos dois ao fim, seguido do alívio de dizer "We did it (nós conseguimos)" foi a concretização desses minutos de cansaço e dor. Na vida, muitas coisas levam tempo. Por mais que a gente deteste ter que esperar, há coisas que vão exigir dedicação e paciência. Sem contar que no meio dessa dedicação toda vai ser preciso não se abalar com as frustrações de não ter conseguido e manter-se firme crendo que um dia se conseguirá.
Não se falando somente de exercício físico, várias coisas na vida também vão doer. Vão doer como o cão porém vão ter que ser aguentadas firmemente. Viver dói bastante ás vezes. Ou as pessoas crêem que no momento em que o bebê nasce não é doloroso? Na hora em que ele respira pela primeira vez, enche seus pulmões de ar e sai abrindo tudo, acreditam mesmo que não é no mínimo incômodo? Depois de tanto tempo no conforto da barriga da mãe, quentinho, respirando e comendo pela placenta, é bem traumático encarar luz e respirar por si. Alguns até dizem que é por isso que bebês choram. Só que depois do choro, a tendência é eles evoluírem, logo mesmo que algumas coisas doam muito, essas dores são boas. E por mais tempo que passe e modifique as coisas, algumas dores sempre serão pro bem.


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