Existem aqueles filmes que são quase como uma tradição assistir nesta época de fim de ano, o que inclui Natal e Ano Novo. Eu diria que O Príncipe do Egito, Esqueceram de Mim e Barbie Quebra Nozes são algumas opções. Lógico que a época traz aquilo de risos, presentes e comidas gostosas, independente de religião, a maior parte das pessoas é contagiada por essa energia, todos se abrem, mesmo que inconscientemente, um pouco mais para relações e para gestos gentis. E num dia desses, eis que descobri um filme de quase 10 anos que me surpreendeu de sobremaneira, não que eu não soubesse a história, mas as versões que eu tinha visto eram bem infantis e leves, essa foi bem profunda e com uns toques até sombrios.
Os Fantasmas de Scrooge é um conto de Natal bem antigo escrito por Charles Dickens e começa com aquela figura do velho avarento que odeia Natal e é uma pessoa tão detestável e de difícil trato que mesmo os cães guias desviam seus donos dele. Ele não somente odeia o Natal mas tudo relacionado a ele: os cumprimentos de estranhos na rua, os grupos corais, o dia de folga que tem que dar a seu empregado, os senhores que pedem pequena contribuição para os miseráveis e até mesmo o convite para ceiar na casa de seu sobrinho. Claro que com esse gênio, ele tal como inúmeros natais passa sozinho em seu casarão. Porém, especificamente naquele ano, ele não fica tão sozinho assim.
Sete Natais antes deste, seu sócio e o que mais próximo se podia dizer de companhia havia falecido e de cara o fantasma dele visita Scrooge. Ali se tem a primeira metáfora importante no filme, fora a aparência fantasmagórica e transparente, um fato curioso é que ele se apresenta cheio de correntes que o tornam pesado e de movimentação difícil. Ao longo do diálogo, ele diz que tais correntes foram construídas em vida e por tanto tempo que elas se tornaram pesadas, através da negligência de pequenas alegrias, de ver que a vida era mais que trabalho e bens materiais e que Scrooge estava rumando pela mesma trilha. Porém havia uma esperança: a visita de três espíritos que iriam assombrá-lo.
Ainda não muito convencido e um tanto assustado depois da visita de seu sócio, o primeiro espírito aparece: O Fantasma dos Natais Passados. É um tanto estranha sua forma, mas indiscutivelmente traz uma luz inicial para que o cético Scrooge passe a crer que a coisa é séria. Como o próprio nome diz, este primeiro traz a luz do discernimento de que para você entender o que é na atualidade precisa ver o que foi lá atrás. E com isso vemos que a vida adulta, as adversidades e a ambição para uma vida melhor meio como que virou uma chave em Scrooge, uma vez que na infância e na juventude ele era um jovem pobre, porém festivo e feliz na época de Natal, porém concepções atrapalhadas na busca de uma melhora o fizeram perder esse espírito e até um amor. Lógico que não é difícil encarar essas escolhas e Scrooge implora para ir embora, mas isso é só a primeira experiência.
O Fantasma dos Natais Presentes é uma personificação mais alegre e com formas mais próximas a de um humano. Risonho e fanfarrão, ele traz uma reflexão do seu significado pelas palavras e pelos atos. Seu discurso sugere que ele represente uma figura bem comum no Natal (que não é o Papai Noel) e insinua que muitos dizem conhecê-lo e a seus irmãos porém são desconhecidos, cometem atos egoístas e cruéis em seu nome e que deviam culpar a estes muitos, não a ele. Scrooge vê o que está acontecendo a sua volta, vê a cidade do alto, tudo o que sua postura curvada não permite que ele veja. E se surpreende em como mesmo em sua solidão e desprezo por algumas pessoas, ainda é lembrado por elas com o mínimo de ternura, alegria e gentileza.
O empregado para o qual sequer quis dar folga, ainda agradece porque com seu salário parco consegue fazer uma ceia para sua família, numerosa, com um caçula doente, para a qual as porções podem ser reduzidas mas ainda saboreadas com grande satisfação. Scrooge se comove com o filho caçula e se questiona sobre o futuro deste, vemos um sinal de mudança e um gesto de se importar mesmo com quem sequer conhece, nisso o Espírito até repete falas agressivas de Scrooge quando se mencionava caridade. Outro Natal que ocorre naquele momento é o da casa de seu sobrinho, ele conta uma piada envolvendo seu nome e faz um brinde, pois apesar de tudo não lhe quer mal e sente compaixão pelo jeito solitário que seu tio vive. Este Espírito também traz além desses natais presentes, um casal de crianças que segundo ele são filhos do homem.
Lógico que é muito pertinente uma vez que pelo nosso caráter material, ainda precisamos ver, ouvir, tocar coisas para que possamos nos aproximar de seu sentido e sentir seu significado. Quando se diz que os filhos do homem são a Ignorância (sob a qual está a palavra Perdição) e a Necessidade, é difícil imaginar isso, porém dá pra ter uma noção quando vemos casos de pessoas que roubam por fome, moças que se vendem por aparente falta de opção, pessoas com vícios que crescem a ponto de não lembrarem mais de quem são, crianças abandonadas... Não se justifica atos errados, mas eles podem ser explicados sob essa ótica. Scrooge percebe isso no momento da partida do segundo Espírito.
O terceiro é o dos Natais Futuros, o qual mete mais medo do que qualquer outro. Nós temos medo natural do que não conhecemos, do que acontecerá no futuro, principalmente sabendo que ele é consequência do que fazemos e somos no presente. Scrooge tem um vislumbramento do que pode acontecer se ele permanecer do modo como está e isso o aterroriza e o deixa triste de tal maneira que ali ele percebe que não é mais o homem do momento no qual o primeiro Espírito o visitou. E ao abrir os olhos na manhã seguinte, nota que pode recomeçar.
Os Fantasmas de Scrooge não é necessariamente um filme fofo, ele é um filme reflexivo que faz chorar, que choca em alguns momentos, que faz refletir... Sem deixar de lado a incrível parte visual e o trabalho excepcional do dublador Guilherme Briggs nesta obra, a mensagem que o filme traz é algo profundo que toca mesmo aqueles sobrecarregados pelo cansaço que não conseguem sequer admirar as luzes natalinas. O velho Scrooge é o conjunto de nossas arestas, de nossas imperfeições, egoísmos e principalmente, o fato de que no Natal as pessoas mesmo mais abertas a algumas coisas, não significa propriamente que elas mudem ou mudaram, contudo que há a possibilidade de que a energia as toque tão profundamente tal quais os Espíritos que elas se sintam compelidas a começar esse processo no dia seguinte e permaneçam nele no decorrer do ano seguinte, assim como Scrooge fez ao se tornar melhor amigo, melhor patrão, melhor tio. A idade dele não impediu que ele começasse uma vida nova, e se formos pensar, esse é o verdadeiro espírito do Natal, independente de que crença você tenha ou do que acredite. Portanto, tal como Scrooge, que possamos também nos encher dessa renovação mas sem precisarmos ser visitados por esses espíritos.




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