O tempo sempre passa e algumas
coisas sempre se repetem, é até surpreendente que hajam surpresas. Ano após ano
as histórias são as mesmas e eu sempre faço menção do assunto, contudo dessa
vez algo apareceu na minha mente que não havia pensado até então: boletos.
Boletos são pedaços de papel que
simbolizam uma quantia de dinheiro que você precisa pagar. Seja para um banco,
seja para uma loja, ou até mesmo um
imposto, esse pedaço de papel põe sobre você o dever de uma coisa com a qual
você precisa arcar. E aso não arque e como tantos, deixar pra lá, está sujeito
a encarar consequências referentes, as quais podem ser muito incômodas para a
vida. Desde ficar completamente impossibilitado de comprar imóveis e carros,
adquirir planos de celular ou TV por assinatura até ter seus bens leiloados
para quitar sua dívida.
Ter um boleto em seu nome é a
prova de que você ingressou num mundo onde esse seu nome passa a importar, nem
que seja para o banco. Você já tem idade para ter uma cobrança e saber que
precisa honrá-la. Um boleto, mais do que a dívida, é a responsabilidade. É você
saber que está devendo alguém, saber que tem uma cobrança de um dever a ser
cumprido e que ao fazê-lo poderá dormir tranquilo com a certeza que ninguém
poderá apontá-lo como irresponsável ou desonesto. Quitar o boleto é a pura
sensação de missão cumprida e a certeza de poder usufruir de tudo que aquele
valor está adquirindo. Lembrei dos boletos porque ultimamente, é bem nítida a
impressão de jovens que gostam dos benefícios dos boletos mas sem ter que arcar
com nenhum deles.
Quando meus amigos e eu fizemos
vestibular, e não faz tanto tempo, o processo era visto como um sacerdócio.
Você podia ser de família mais abastada ou modesta (como era meu caso), mas
vestibular era algo sério, o que podia definir ou mudar o rumo da sua vida dali
pra frente. Para alguns é difícil de imaginar, porém naquela época ENEM era
porcaria nenhuma, ao menos para mim que só tinha por opção universidades
públicas e elas tinham seus próprios processos seletivos. Logo, era focar nelas
e ir. Os que podiam pagar uma particular, faziam ENEM e além disso ser um
sinalizador para a escola na qual estudavam, podiam usar a nota para ingressar
se esta fosse satisfatória e a instituição aceitasse. Contudo, o ponto é que
apesar de que sim, havia cansaço, crises de choro, raiva e depressão, para
muitos era o caminho para o reconhecimento e maiores possibilidades na vida
adulta, o que inclui independência dos pais, aquelas pessoinhas com as quais
muitos fazem questão de dizer que não se dão bem por inúmeros motivos.
Voltando a atualidade, existe
todo um imaginário em torno do ENEM e das pessoas que o fazem. Sem mencionar a
questão de passar ou não, há as críticas ao processo e às próprias pessoas.
Sempre há as alfinetadas com relação aos ditos “cursos superestimados”, em
muitos casos não levam em consideração que os que prestam talvez se esforcem de
tal forma e queiram tanto aquela profissão que quando a aprovação vem, fazem
mesmo questão de demonstrar essa felicidade. E que não necessariamente implique
que os outros cursos sejam inferiores ou de menos importância, afinal como eu
ouvi “Não existe só um profissional no mundo”. Além das críticas entre entre
carreiras, sempre há o discurso dos que se deram mal ou dos que falam que se
deram mal que uma nota X só dá para ser atendente de McDonald’s ou embalador. O
que na minha opinião é algo bem contraditório, em parte porque há
universitários que matariam por uma vaga, inclusive há os que deixam currículo
e nunca são chamados. Isso sem contar no fato de que seja atendente ou
balconista ou médico, o salário proveniente desses trabalhos possibilita o
pagamento dos famigerados boletos, não importa se o valor dele é 2000 ou 200.
O que se quer dizer com tudo isso
é que muitos garotos e garotas vivem hoje com a vibe de quem nunca vai precisar
pagar um boleto na vida, achando que nunca vão precisar enfrentar esses papéis
ou que sempre haverá alguém pra bancá-los. Nem entrando no mérito de passar ou
não no vestibular, mas muitos olham a vida adulta como algo distante e até
chato. Alguns pensam que não adianta tanto trabalho se não há tempo para
aproveitar, todavia mal sabem que é muito mais fácil fazer malabarismo com o
tempo do que com boletos não pagos ou grana curta, e na prática, na chamada “vida
confortável” com direito a diversão, comprinhas e plano de saúde, é impossível
viver sem ter que encarar eles uma hora.
Pra quem conseguiu passar no ENEM,
dou os parabéns. Aos que não, tenho certeza que boa parte não foi por desleixo
ou irresponsabilidade, mas outras circunstâncias e cabe a mim dizer que uma vai
dar. Aos que tem consciência de que o vestibular ajuda mas isso não isenta você
de arregaçar as mangas e se mexer, com ou sem ele, dou mais parabéns ainda,
isso é uma concepção que falta em muitos, acredite, não é romantizar
sofrimento, é cair a ficha de que sua vida deve estar em suas mãos. E para os
que dizem que não vale a pena, que pode esperar ou que não é importante, há
coisas que não se ensina. E não se pode ensinar como independência, emocional e
financeira, é valiosa. 
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