sábado, 23 de fevereiro de 2019

Empatia não é uma arma, embora muitos achem que sim


Todos hoje em dia falam sobre a tão chamada empatia. É uma palavra muito usada especialmente quando se fala de causas e pessoas relacionadas a tais causas ou atos considerados bons ou ruins, aprováveis ou reprováveis. Por definição, "empatia" é o ato de se importar com o outro, de se colocar no lugar do outro, diferente de simpatia, ela está ligada a um envolvimento maior com o sujeito ou coisa alvo, há uma compreensão mais profunda, para ser empático é preciso conseguir ultrapassar as barreiras do egoísmo, do preconceito ou do medo do que é desconhecido ou diferente.

Nos tempos atuais já foi usada como arma, como argumento de acusação e até como artifício e selo de qualidade pessoal. Alguém em discussões diz algo contrário, automaticamente é tido como não empático ou acusado de tal ou rebaixado por os que dizem ser. Todavia, a real é que vendo como as pessoas acham bonita essa palavrinha, percebe-se que ela não só pode ser  usada em discussões para estar certo ou parecer inteligente, mas para gerar sentimento de superioridade em quem a diz. 

Até porque ser empático é exigir de você certas coisas. Pra começo de conversa, não dá pra ter Empatia sem antes passar pela irmã dela que é a Indulgência, que consiste na compreensão de faltas e do outro em todas as suas imperfeições, defeitos e situações nas quais ele está inserido, sem contudo isso significar fechar os olhos para coisas erradas. Ainda que não haja total compreensão, ao menos o não julgamento, não desejar o mal ou o de pior, se for o caso de uma pessoa muito complicada. A Indulgência não se ocupa dos maus atos do outro e mesmo que seja para algo necessário, tal qual um serviço a sociedade, existe um cuidado de atenuar tais atos, não sendo julgador ou se colocando acima com as mãos cheias de pedras, ela é um sentimento que aconselha e elucida ao invés de reprovações e desencorajamentos. E para conseguir isso, é preciso passar por cima de muitas arestas pessoais e concepções tortas, coisa que nem todos estão dispostos a fazer e muitos com muita convicção. Daí, com base nisso é notório a existência de vários tipos de empáticos ou que assim se denominam.

O primeiro tipo é o empático puro. Acreditem ou não, há um caminho muito longo pra chegar aqui, um trabalho íntimo muito intenso para melhora, exige um desprendimento pessoal de muitos egoísmos, muitos defeitos, muitos melindres para que possa se olhar o outro não só com compreensão extrema mas também com generosidade, INDEPENDENTE de quem seja esse outro ou do que ele faça, logo é bem raro. Não se tem muitos desses a menos aqueles que se toma por "almas extraordinárias" ou alguma denominação do tipo, leia-se pessoas como Madre Teresa, Chico Xavier, Irmã Dulce, São Francisco, o próprio Papa Francisco, são aquelas pessoas que abraçam o mundo e se mostram puras e compreensivas para com ele apesar de suas crueldades.

O segundo é o empático condicional. Ele é empático desde que seja com pessoas afins. De mesmas ideias, mesmos princípios, mesmas condições...Para eles a visualização de que as pessoas diferentes e que passam por dificuldades diferentes é um pouco difícil, especialmente se forem alguém com as quais não concordem, a empatia por essas pessoas é meio difícil também também. Tudo neles é na base da empatia "apenas se", "desde que" ou "se e somente se", ou seja, existem condições para que a empatia ocorra. Se for alguém cuja conduta não agrade não se consegue visualizar uma elucidação, muito menos uma empatia e o desejo de algo bom é até inimaginável. Estas pessoas são empáticas sim, mas por não conseguirem encarar com os mesmos olhos um problema comum a duas pessoas diferentes, dependendo de quem sejam, isso faz delas extremas defensoras de interesses comuns e até mesmo, corporativistas.

O terceiro empático é o teórico. Ele ama e abraça o mundo mas desde que não haja muito envolvimento mais prático. São pessoas muito facilmente testáveis pois em alguns casos querem gritar sua empatia ao mundo, mostrar isso para os holofotes, todavia são facilmente reconhecíveis também. São aquelas pessoas que dizem se importar com a fome e as crianças na África, mas não dão uma ajuda com algum parente que acabou de ter bebê e faz questão de ficar longe, são aqueles que mudam o filtro nas redes por causa de mortes de pessoas porém não conseguem dar o consolo quando um parente ou alguém próximo falece, dizem que devemos nos importar com doentes mas pulam 2m se alguém tosse perto, falam que é importante discutir as doenças mentais porém desligam o celular na cara do colega deprimido para ele não estragar o rolê, dentre outros exemplos. Em suma, essa pessoa é empática e até se importa com causas e pessoas, desde que não vá para campo. Cabe talvez um trabalho interno para se praticar de fato.



Existe o empático esforçado, aquele que luta todos os dias para vencer a si mesmo. O que pára e pensa no sofrimento alheio por mais fútil que possa parecer. Ele se esforça para compreender os outros, tenta não pensar mal mesmo que os atos sejam errados, não ameniza mas tenta pensar que somos falíveis e que ninguém é uma face só, que todos vão responder e que ninguém precisa se pensar que não há retorno. É alguém que cai muitas vezes, vai sentir raiva e também vai julgar muito antes de aprender, porém procura melhorar e perceber que todos merecem o melhor e compreensão.

O último é o assumidamente não empático. Não por maldade nem por falta de caráter, mas por ele ficar na sua e não se envolver em coisas que estão fora de sua zona de conforto, independente que zona ou como seja essa zona. Não há envolvimento com causas que fisicamente estão longe ou com algo que não lhe atinja diretamente. Em muitos casos é apenas uma inércia e prostração, alguns desses não são empáticos nem consigo mesmos pois sempre se menosprezam enquanto pessoas, outros de fato podem se configurar em um egoísmo torpe de não se sensibilizar com absolutamente nada, como se estivessem em uma torre de marfim ou ilha deserta, totalmente imunes do contato com o outro ou com o mundo.

A empatia é um sentimento muito nobre porém na configuração geral, ainda se tem muito que aprender sobre ela. Afinal, somos todos diferentes enquanto concepções, compreensões e em nome de um crescimento faz-se necessário que convivamos com as pessoas, por mais divergentes que possam parecer de nós. E olhá-las com a mesma bondade, compreensão, compaixão e gentileza com as quais gostaríamos de ser olhados é o princípio para nos tornarmos não só pessoas mais empáticas mas também, mais humanas. 

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