Existe uma coisa que acontece muito com cosplayers, aliás não só com cosplayers mas com várias pessoas que possuem hobbies diferentes dos habituais. No caso de cosplay e semelhantes, creio que há três coisas que valem ser mencionadas.
A primeira é o custo. Cosplay é
algo que de certa forma gasta, se não materialmente, em aprendizados que levam
tempo pra se ter. então, lógico que para muitos de fora é uma inutilidade
gastar com algo do gênero. Isso por si só é bem estranho, uma vez que muitas
pessoas que falam isso gastam quantidades iguais com outras coisas. Contudo é
aquilo: ao que parece, gastar com uma balada, um camarote ou um objeto
simplório extremamente caro parece mais digno, lógico e até mais certo que
gastar com cosplay. Eu me lembro que quando tinha 11 anos pedi para meu pai
fazer uma bota da Sakura pra mim, nem preciso dizer que ele não deu muita bola.
Então tal qual ocorreu com muitos, meus pais nunca gastariam R$ 90,00 numa
lente, R$ 150,00 numa roupa, R$ 100,00 em uma peruca, isso colocando bem por
baixo preço da época.
Tão pouco me levariam para
eventos ou me deixariam ir só. Talvez seja porque quando se é pai e mãe e seu
filho está em idade adolescente, a cabeça funciona assim: não se gasta mais de
R$ 200 com algo que se vai usar ou aproveitar uma ou duas vezes quando se pode
investir em algo mais útil e proveitoso para o futuro. Daí como eu não podia
ir, eu tinha que me contentar com as revistas de cultura otaku e cosplay que
que comprava na banca do Seu Zé com minha humilde mesada de R$ 5,00.
A segunda coisa é com relação a
idade. Na cabeça de muita gente, de autoras de novelas a vizinhos, cosplay
assim como qualquer coisa que envolva criatividade e fantasia não são coisas de
adulto. Não hesitam em apontar o dedo e cochichar, achando que cosplayers são
uma espécie de adulto irresponsável. Foram feitas inclusive campanhas mostrando
o outro lado, a pessoa que está por baixo do cosplay, em suas profissões, pais
e mães de família, pessoas que pagam impostos e contas. Creio que quem disse
que o adulto criativo é a criança que sobreviveu devia estar pensando nisso, que
você pode ser adulto mas preservar um lado tão colorido, tão intenso que dá
vida na sua vida. Talvez pra combater a ideia de muitas pessoas de que pra você
ser adulto é viver em um mundo somente de contas, chatice e joguinhos.
O terceiro ponto, que envolve
muito do segundo é a questão do padrão. Eu sempre menciono a questão de muitos
lidarem com a família. Toda família tem aquele primo dito que se deu bem.
Alguns inclusive já nascem se dando bem. É aquele primo bem sucedido, com bom
emprego, marido ou esposa bonito, filhos exemplares, é elegante, viaja três
vezes por ano, mora numa casa bacana, com carro e roupas de grife. Então, é
tipo assim, para as tias e talvez outros da família e de fora dela, qualquer um
que foge desse padrão é como se estivesse em desvantagem, como se fosse menos,
por fora, ralé... E parece estranho e gozado para esses parentes alguém que
tenha gostos tão peculiares.
Só que quando você fala de
padrões indiretamente está indiretamente dizendo que algumas coisas não podem
ser feitas por algumas pessoas. Cai na questão da idade também, muitas pessoas
puderam viver tudo que quiseram na idade dita correspondente, todavia isso não
ocorreu com todo mundo. Trazendo para a parte cosplay, quando o meio estava
começando, pelo menos na minha cidade os eventos eram parcos, porém eu tinha
colegas que tinham grana, podiam viajar e conhecer as tendências no momento em
que estavam em alta, podiam ter a liberdade de ir sozinhos para os eventos com
uma quantia dada pelos pais logo, viveram tudo que queriam na dita época que
podiam viver. Na qual não seriam olhados de forma reprovativa.
Contudo, para muitos, por inúmeros
motivos essa vivência só foi possível só depois. Para os que dizem que são só
fases, é fácil saber se é algo de idade/influência ou se é algo duradouro. Se
for algo de fato desejado, os obstáculos externos serão mera circunstância,
pois quando houver real possibilidade de realizar, não importa quanto tempo
tenha se passado, o indivíduo irá atrás do que deseja. Por isso que vemos
pessoas de 90 anos se formando em Direito, saltando de pára-quedas ou fazendo
coisas consideradas “impróprias” para sua faixa etária, eles estão colocando
pra fora seus sonhos adormecidos, que permaneceram sedentos pela realização,
que não eram somente uma fase passageira motivada por influências ou
empolgação. No nosso meio, Tia Sol, uma cosplayer na faixa dos 60 anos
tornou-se um grande exemplo. Não só pelo nível de detalhes das roupas, pelo fato
dela fazer cosplays de personagens que possuem um caimento incrível nela, tal
como Vovó e Rita Repulsa mas também pelo fato de que ela não se importa com as
críticas de que não “tem idade” para tal. Ela desperta a esperança de que não
importa quantos de nós cresça, há possibilidades mesmo que o tempo passe nesse
quesito de hobby.
No cosplay, pessoas que estão
nessa a tanto tempo, passaram pelos altos e (muitos) baixos da comunidade e
continuam, não se pode dizer que é uma simples fase. Ainda mais considerando
que muitos se dispõe a aprender coisas novas, incríveis para aprimorar isso,
então não é algo nem devia ser algo encarado de forma tão aversiva. Não importa
a idade, se não se está fazendo nada de mau, não há razão para vergonha ou
constrangimento. Aliás, mais do que isso, se há aprendizado e incremento de
habilidades, além de não se dever encarar como demérito, deve-se ter orgulho.

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