quarta-feira, 27 de março de 2019

A solidão está virando vício?


Existem duas cenas que eu gosto bastante e são bem significativas. Uma é no filme do Rei Leão, quando Timão fala pro Simba: Quando o mundo vira as costas pra você, você vira as costas para o mundo. E outra é do anime One Piece, quando durante a destruição da ilha de Ohara, o gigante Saulo diz a Nico Robin, moradora, que o mar é muito grande e um dia ela encontraria amigos que ficariam ao seu lado. Ao ver e lembrar dessas cenas, fico pensando no quanto muitas pessoas passam a vida tentando se conectar umas com as outras, tentando se adequar, porém por causa de circunstâncias que estão além de suas vontades, acabam não conseguindo e chega um momento que simplesmente desistem.

Nico Robin era a típica deslocada, mais do que na sua casa era na vila inteira. Por ter comido a Fruta do Diabo, tinha poderes e era chamada de monstro por todas as crianças, sua companhia eram os livros. Em casa, era criada pela tia que a considerava uma intrusa e a botava pra fazer todos os serviços, mas ainda que vivesse assim, conseguiu um doutorado com 8 anos de idade porque ao menos os sábios da vila reconheciam que ela tinha talento e inteligência. Já Simba, era um rei, importante, notável, mas por ter feito algo que achava ser errado se consumiu achando que não merecia mais ficar junto dos outros, embora depois tenha percebido seu valor. No mundo que vivemos, há pessoas que tentam estar perto de todos, não são pessoas más, são apenas diferentes ou a personalidade delas assim o parece.

A questão é que parecer diferente não é muito bem aceito por muitos na sociedade. E esse diferente não necessariamente é algo excêntrico ou anormal, muitas vezes é um gosto peculiar, preferências particulares, gostar de fazer algo que distoa talvez da maioria das pessoas comuns, ou se sente fora do lugar no meio de conversas nos lugares que normalmente frequenta. Isso não é algo tão incomum, todavia, muitos que passam por isso percebendo que tentar se introsar acaba sendo danoso e aversivo, desistem de investir. Alguns ainda persistem, mas não se pode negar algo da própria personalidade, fazer isso é se machucar em vão. Daí, se cria os chamados ilhas.

Não somos ilhas, é o que muitos dizem. Mas há aquelas pessoas que por se sentirem tão solitárias ou desajustadas acabam se esforçando bastante para virar uma. Há os que se sentem bem com isso, não sem muitas rachaduras e certo pesar de pensar que não faz parte de algo, contudo, alguns se cansam muito de persistir e fingir que não são ilhas, mas parte de arquipélagos totalmente distoantes.

Lógico que mesmo com os que se assumem ilhas ainda há aversão. O mundo é engraçado, ele por vezes critica você por ter personalidade mas quando essa personalidade não é a dita adequada, ele também critica. Em se tratando de se assumir gostar de estar só ao invés de fazer o que não gosta, sempre houve tabu. Os ilhas por vezes também precisam conviver, não se submeter, mas conviver em sociedade, pouco mais ou pouco menos, é necessário. Todavia por mais que sejamos sociais, a opção de se fazer certas coisas só ainda é tido como um certo fracasso. Aqui vai uma dica: não é.

Você não fracassou por gostar de fazer coisas sozinho, nem fracassou enquanto pessoa por nem sempre ter companhia pra determinados programas, não significa que seja alguém desagradável, pode ser uma ilha mas não significa que seja uma que não gostem de visitar. Muitas pessoas consideram fracasso por terem séria dificuldade de ficar na própria companhia, é como se não se apreciassem quando estão por elas mesmas e têm a séria necessidade de que outro as aprecie e se por acaso não têm isso, é como se seu mundo ruísse.

Talvez a coisa toda só fique ruim de fato quando mesmo sozinho, a pessoa se sente mal. Uma coisa é estar sozinho por opção e estar tudo bem, outra é não conseguir se ajustar e nem ficar só. É como um limbo emocional que você não consegue ir nem voltar. A coisa piora quando você percebe que mesmo entre os que deveriam acolher você, entender, você ainda parece estranho, e ao ver outras pessoas de fora se ajustando melhor que você é como se fosse um cisne em um ninho de patos. 

Tanto desajuste faz com que muitos não só comecem a preferir ficar sós, acabam gostando de tal forma que a solidão vira uma necessidade. O costume se enraiza de tal modo que só a presença de outras pessoas perto se torna um tanto incômoda, é como se a paz que ela desse a quem a abraça fizesse com que a pessoa perdesse a habilidade e vontade de ter que lidar com as outras pessoas, enfrentar as nocividades tão comuns no dia a dia, é um santuário de paredes de mármore no qual nada de fora pode atingir. Em casos extremos se torna perigoso, afinal perder a capacidade de estar perto de outras pessoas mesmo em casos quando se quer esta perto é de fato um problema.

Mesmo que muitos estejam se viciando em solidão, deve haver um meio termo entre o prazer de sua própria companhia e o prazer na companhia alheia. Afinal, sozinhos podemos ser muita coisa, aprender muita coisa mas ainda é com o outro que conseguimos evoluir de forma máxima.


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