O novo filme do Coringa está aí. Fiz questão de ir na pré-estréia para pegar toda a energia de algo que parecia inovador e totalmente inédito, devo dizer que em menos de 10 minutos de filme me identifiquei totalmente, creio que o mesmo ocorreu com muitos. Depois de grandes polêmicas desde o lançamento dos trailers e em parte por causa da imprensa, que chegou a ser proibida de comparecer aos eventos devido ás suas condutas capciosas. Ouso até a dizer que foi desafiada a assistir ao longa antes de emitir opiniões. É, foi-se o tempo em que os repórteres eram de fato investigadores, ao invés de meros criticadores.
Muito do que se disse sobre Coringa até hoje diz respeito sobre o emocional e condutas de Arthur (Joaquim Phoenix), o comediante falido e sem sucesso, que tenta inutilmente seu lugar ao sol mas só consegue desprezo não só dos que poderiam dar a tão sonhada chance mas da sociedade geral. Falo geral porque fica claro que Arthur tem alguma afecção de cunho psicológico/psiquiátrico, vide os takes mostrando suas consultas no asilo Arkhan assim como o claro escrito dele dizendo que as pessoas esperam que você que tem uma doença mental aja como se não tivesse. E nos próprios trailers sua risada incontrolável em situações nas quais ela não é pedida é totalmente escancarado a dificuldade de ajuste
Diante disso, começaram a pipocar relatos de que era um filme violento, pesado, perturbador... Além de cogitações e declarações sobre o medo de que algum atirador aparecesse nas sessões inspirado pelo personagem tal qual ocorreu em Batman, o Cavaleiro das Trevas. Não posso negar que sim, é um filme muito intenso, em quem viveu ou vive situações como as que Arthur vive pode ter despertado dentro de si, sentimentos assustadores e até os que podem ter superado traumas pode ter diante de si uma penseira trazendo uma penca de reminiscências e lembranças.
Mas ao se levantar a hipótese de que alguém na vida real pode se identificar com Arthur leva a algumas reflexões. A primeira é que de fato há pessoas sofrendo com suas afecções psicológicas e mais fato ainda é admitir que a sociedade as negligencia ou em casos extremos agride essas pessoas, tal como vemos na cena do metrô onde Arthur é espancado e chamado de esquisito. A segunda é que ao serem negligenciadas e agredidas, algumas pessoas podem mesmo chegar a um extremo, seja com elas mesmas através de tendências suicidas ou para com os outros, como já vimos tiroteios nacionais e internacionais ou até mesmo brigas escolares nas quais o bullying estava envolvido, expor esse medo descomunal que alguém se identifique é também ao mesmo tempo admitir que a sociedade pode ter participação/responsabilidade nisso. E terceiro, assumir que o filme é "violento e perturbador" é enfim admitir que talvez não consiga encarar doenças psiquiátricas de uma forma olho no olho, admitir que talvez não consiga entender que elas causam uma série de complicações na vida de um indivíduo ou demonstrar que está sendo confrontado na opinião de que as considere uma frescura qualquer, daí a repulsa, aversão e fala de que podem haver Coringas por aí. Em suma, essas reflexões só demonstram que quem começou a disseminar esses dizeres de medo só está dando um tiro no próprio pé.
Afinal, vamos raciocinar. Por mais que o assunto tenha sido tratado em muitos filmes, Coringa é um dos que vai mostrar isso com um personagem conhecido, em um filme feito por um estúdio famoso e notório, um diretor conhecido, Todd Philips. Talvez muitos não estejam conseguindo encarar isso com a naturalidade. Falemos abertamente, as pessoas acreditam mesmo que lidar com uma doença mental/psicológica é algo não violento? Algo maleável e flexível? Acreditam mesmo que uma pessoa deprimida vive como uma linha reta embaixo e do nada sobe? Não, são sucessivas ondas, uma hora a pessoa está embaixo se achando escória e na outra crê que pode conquistar o mundo e assim ela vai vivendo, instável e sofrendo. Uma pessoa com síndrome do pânico tem que lidar com ter uma gama de sintomas físicos independente de onde esteja, uma com tendência suicidas vai viver constantemente com a sensação de que seu dia é ou deve ser o último, e muitas vezes o é de fato. Ou seja, não é nada gentil ou simples lidar com isso.
E com isso se pega boa parte do gancho para entender o filme do Coringa. Dando o menos de spoilers possível, a história gira em torno de Arthur, como foi mencionado. Apesar do trabalho como palhaço, ele não só mal recebe recursos para o sustento como também mal tem o respeito dos colegas e do resto, por mais que se esforce é como se simplesmente não fosse engraçado o suficiente. E a condição do riso incontrolável dificulta as coisas.
O filme tem uma sequência bem linear, as coisas vão aumentando gradativamente conforme também os abusos e o peso da negatividade aumentam, até que o ponto de uma divisão de águas chega e o palhaço deixa de ser o cara de sorriso triste por trás das piadas e roupa colorida pra de fato se tornar o Coringa palhaço como o conhecemos, sádico, cru, que fala tudo na lata e se compraz com o caos. Um personagem de uma histórias que se passa em um asilo para doentes mentais escrita por um autor famoso disse: "Você não se conhece realmente até que chega ao seu limite. Somente ali você sabe até onde pode ir". É exatamente o que vemos com Arthur, somente no momento em que tudo ficou negativo um pouco mais é que ele tenha tomado consciência do que poderia fazer e onde poderia ir, mesmo que seja algo extremamente nocivo. Tal qual para muitos, o limite nem sempre significa a oportunidade da extrema resiliência e fé, mas a loucura como saída de emergência, como nosso próprio Coringa disse em A Piada Mortal, o dia ruim no qual o mais são vira a chave e se torna insano. E então, ainda que dentro do caos alguns conseguem fazer dele um palco e dançar.
Coringa não é um filme para pessoas que não conseguem enxergar o geral, tanto pessoas que estão no topo quanto aquelas que supostamente estão na base. Se o público for o tipo que se considera superior enquanto pessoa e chama os que supostamente estão abaixo dele de "palhaços", jamais vai conseguir entender a dura crítica social presente nem ver a mensagem deixada sobre a necessidade de conscientização de saber lidar com pessoas ditas diferentes e continuará passando por cima delas na calçada, ainda que estejam morrendo por dentro. É um filme que pode sim despertar sentimentos muito assustadores e dolorosos em quem já esteve por baixo ou possui alguma afecção psicológica, pior se estiver vivendo algo relacionado a elas, talvez Coringa seja o filme para os que foram traídos, rejeitados e ainda não foram exaltados ou vistos como deveriam ser... Logo, creio que não somente é um filme incrível, muito bem feito, com uma história boa mas também se soubermos estar abertos, ele dá um toca na ferida de algo que tanto na sociedade de Gotham quanto na nossa existe: de que algumas pessoas são invisíveis e que a sociedade não deveria permitir que elas se tornassem assim, mas acolhê-las para que também pudessem fazer parte da sociedade ao invés de só circulá-la na margem. E por isso a atuação de Joaquim, direção de Todd e todo o resto fazem desse filme nada menos que na minha humilde opinião, um dos melhores e mais memoráveis do ano. E em se tratando de Coringa, todos que já foram ele devem estar exibindo um enorme sorriso agora...



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