terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Síndrome do Fantasma da Ópera: meu teatro, meu playground, minha vida



"Eu o escondi do mundo e de suas crueldades. Ele não conhece mais nada além deste teatro. É como seu playground"

Quando olho para a história do Fantasma da ópera e como ele era com relação ao seu espaço, noto que há muitos fantasmas espalhados por aí. De fato, o luxuoso teatro no qual o Fantasma, cujo nome verdadeiro é Eric só pra constar, vivia, era para ele um mundo com possibilidades infinitas. Por mais que sua condição facial não fosse das melhores, no palco e nas ocultas catacumbas, ele tinha a capacidade de fazer coisas extraordinárias. Como a própria Madame Giry disse, ali era era músico, cantor, designer, artista, mágico, um gênio das óperas e da arte. Contudo a fama dele se resumia ao lugar do teatro somente. Das portas para fora, ele não tinha nenhuma influência ou poder, ninguém o conhecia e suas habilidades se limitavam.

O Fantasma possuía talentos raros, ele conseguia transitar pelo teatro, sabia os corredores e passagens, era elegante e distinto, embora ao mesmo tempo exercesse uma influência e sentimento de medo em todo ali. Mesmo que nunca ninguém, além de Madame Giry, o tenha visto, era como se soubessem tudo que ele podia fazer, logo os donos do teatro o tratavam com receio atendendo suas exigências. Todavia, permanecia o mesmo ponto: o medo, receio, tensão. continuavam apenas do lado de dentro, quando as cortinas se fechavam e o público ia embora, não mais existia toda aquela reverência e exaltação a figura do fantasma. E isso faz pensar em como há semelhança com o mundo real.

Em um mundo e sociedade nos quais poder, importância social e notoriedade são levados em grande consideração, talvez muitos se sintam extremamente essenciais onde estão, tal como o Fantasma se sentia dono do Opera Populaire. Porém, tal como ele, muitos caem no erro de se crer importantes mas permanecem cegos às suas limitações, sejam pessoais ou sociais. Quantas vezes vemos profissionais, por melhores que sejam, agirem com certa arrogância por se julgarem insubstituíveis ou querem dominar por completo seu local de trabalho? Isso em muito se deve por considerarem tal local algo estático, no qual sempre serão soberanos, crendo que nunca aparecerá outras pessoas tão boas quanto. Quando o Fantasma se deparou com outro homem por qual sua amada Christine teve mais apreço, não hesitou em fazer qualquer coisa para que o rival fosse afastado, na vida real vemos competições desleais em maiores ou menores níveis de estratégia, até apelando para o chamado golpe baixo, a fim de que não se perca o posto.

Vemos seja profissionalmente ou pessoalmente, pessoas que não expandem possibilidades. Vi na academia, pessoas que demonstravam muito mais abertura e acesso aqueles que eram de sua mesma área ou tinham mais conhecimento sobre determinados assuntos, ou seja, não davam chance para que outros pudessem se inserir e aprender também. Pessoas que permaneciam presas a ideia de uma única possibilidade de trabalho em um único lugar, negligenciando outras portas que pudessem ser abertas, em nome de um apego pessoal. Lógico que esses fantasmas do mundo real, em muitos casos, conseguem sobreviver dessa forma, ainda que suas atitudes e apego em muitas situações, no fim seja como um cão correndo atrás do próprio rabo: algo cíclico, repetitivo e sem sair do lugar. 

O maior problema dos que tem Síndrome do Fantasma da Ópera é que ficam presos a uma possibilidade e não conseguem expandir horizontes, não vêem nada além de seu teatro e em alguns casos existe até um medo do mundo fora dele. Permanecem num único lugar, opção, de trabalho ou pessoal, de tal forma que uma ruptura nesse ciclo parece algo extremamente torturante, é como se perdessem poder, uma parte de si, como se sofressem uma baixa tão grande que não conseguissem se recuperar. E nisso há desprendimento descomunal de esforço para não perder tudo envolvido com seu "teatro", se submetem a coisas, se envolvem, fazem o que for preciso para que não precisem encarar o mundo exterior e começar do 0, é como se não estivessem adaptados a começar novos ciclos ou possibilidades

O que é extremamente prejudicial, afinal mesmo o Fantasma precisou recomeçar depois que seu tão amado Opera Populaire foi consumido pelas chamas...

Nenhum comentário:

Postar um comentário