sábado, 18 de janeiro de 2020

Algumas Frases (errôneas) sobre Espiritismo: refutadas e explicadas



Dificilmente faço algo assim, afinal creio que vivemos em um país livre e diverso, logo devemos preencher tudo com o máximo de cor possível, contudo me mostraram algo que tive vontade de refutar. Uma certa página que se gaba muito por sua fé (católica) colocou uma imagem com frases sobre espiritismo. Não ligaria muito, como normalmente não ligo, mesmo considerando que são católicos fervorosos e meio fanáticos, e mesmo alguns que dizem ter conhecido a doutrina espírita não me passaram nenhuma segurança de terem entendido o que ela é. Os super críticos apenas demonstraram petulância e tal como a página no geral, parecem mais preocupados em demonstrar o quanto as religiões diferentes são erradas do que demonstrar o que a sua própria tem de bom. Daí o que acontece quando uma espírita lê essas coisas com uma fé que não se nebula com a razão?

“O Espiritismo é doutrina cristã sim, eles acreditam em Jesus” – Sim, o Espiritismo é uma religião séria e cristã. Muitos resumem a uma simples doutrina devido aos inúmeros estudos que fazem parte do conjunto de regras, contudo a religião se baseia em um tripé: ciência, religião e filosofia. Ainda que haja uma parte científica e racional, o que mais se trabalha são os preceitos deixados pelo Cristo, em especial os conceitos de caridade, amor a Deus e ao próximo.


“O Espiritismo não aceita a Bíblia como infalível revelação divina” – Errado. Se assim fosse não haveria o estudo do Evangelho contido na Bíblia. Porém, mesmo que esta esteja presente, há toda uma interpretação das parábolas e frases ditas pelo Cristo, considerando a fé raciocinada e razão. Em um episódio de Grey’s Anatomy, a Dra. April, médica cristã, explica a um rapaz que queria cortar a mão fora por levar a Bíblia ao pé da letra: “Quando Deus criou o mundo, Ele também criou metáforas... David, a Bíblia é um livro. É cheia de histórias bonitas, metáforas e poemas que não podem ser levados ao pé da letra. As histórias são inspiradas, não ditadas. O mandamento ”Não matarás” é literal, com certeza é. Se deve tornar praticante da palavra dentro da razão! Fazer o que ela diz dentro da razão! Nós não cortamos nossos braços! Não cortamos nossos bebês ao meio!”. Se não se consegue perceber o porquê Jesus falava por parábolas, é melhor trabalhar melhor a interpretação textual.


“Ensinam que Jesus não é o salvador, somente um guia” – Jesus veio para disseminar os conceitos de caridade, amor ao próximo e amor a Deus. O objetivo disso era nos guiar a um estado moral e espiritual melhor, ou seja, de algum modo nos salvar de nós mesmos, de nossas imperfeições. Logo, sim, ele era um guia e também salvador pelo exemplo que deu. Era literalmente O guia do mundo por ter sido a perfeição a caminhar entre os homens ordinários, se fez em carne e sangue, com dor, humano como o resto da humanidade para poder dar a nós a luz para que nos fosse possível conhecer a Deus verdadeiramente, seja em parábolas ou atitudes, especialmente no quesito perdoar algozes e andar com os renegados, esquecidos, proscritos da sociedade. “Não são os são que necessitam de médicos”, quantos conseguiriam passar pelos seus próprios orgulhos e petulâncias e acolher aqueles que consideram estar abaixo? Esse tipo de atitude inclusive tem sido criticada no próprio Papa Francisco, por ele estar acolhendo e abrindo os braços da Igreja para aqueles que eram considerados marginais e escória. Muitos dizem que estão se decepcionando por causa disso... Deve ser mesmo muito frustrante ver a autoridade maior demonstrando caridade e misericórdia com aqueles que muitos não gostam ou são mal quistos ou considerado pecadores desmerecedores de perdão. Logo, se você considera que Jesus com tudo que ensinou vai levá-lo no colo em direção ao Pai e você estará isento totalmente de se reformar para ser melhor do que é, releia a parábola do Bom Samaritano e da Mulher Adúltera.

“Que o Senhor não julga o homem, cada um julga a si mesmo” - Sim e Não. A ideia de julgamento é disseminada de forma errônea. Deus é concebido como Pai, logo enquanto pai não pune, não faz sofrer, não submete seus filhos a sofrimentos a menos que sejam necessários para seu adiantamento moral. Como Deus de amor e justiça vai sempre propiciar o melhor a todos os seus filhos para que aprendam, o que não necessariamente coincide com a vontade destes. Com relação a julgar a si mesmos, sim, é algo que se chama auto reflexão. É muito saudável pois se consegue perceber que atitudes você está tendo que podem ser nocivas a você e aos outros, daí se pode mudar isso pra ser mais feliz e evoluir. Mudar para que não sofra mais, para que possa ter uma visão maior, para que molde seu caráter... o homem julga a si mesmo porém é fato que nem sempre vai considerar suas atitudes erradas, mesmo quando estas não estão dentro dos conceitos de caridade. Deus permanece ao lado de todos, independente de quem seja, mesmo o mais “errado” não é abandonado pois isso não coincide com a ideia de amor de Deus. Creio que muitas pessoas cometem o mesmo erro que os gregos cometiam com seus polideuses: os faziam a sua imagem e semelhança. Muitos dizem “Deus não gosta disso, não gosta de tais pessoas, não aceita tais comportamentos” porém o que ocorre é que as próprias pessoas é que não gostam “disso”, não gostam de “tais pessoas”, não aceitam “tais comportamentos” e transferem para Deus suas próprias imperfeições e conceitos, muitas vezes numa tentativa de se abster. Ora, sentimentos como preconceitos, revanches, vingança são muito humanos e mesquinhos, Deus sendo um ser perfeito não possuiria características tão primitivas e sendo pai faria seus filhos aprenderem o quanto esses sentimentos são nocivos. Em um episódio de Supernatural, há uma boa exemplificação disso. Uma religiosa através de um ritual fazia seu marido “curar” pessoas que iam em seu culto mas em detrimento daqueles que ela julgava pecadores e imorais, a frase de Dean Winchester é exatamente o exemplo dessa transferência: “Que Deus nos salve da metade das pessoas daqueles que pensam que fazem o Seu trabalho”.

“Eles negam a ressurreição da carne” – Na verdade há uma passagem na qual Jesus diz: “Ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo”, alguns estudos dizem que isso faz referência a reencarnação. Se reencarnar é nascer em um novo corpo, é uma nova carne, então de certa forma, se crê numa ressurreição, porém num corpo novo e de espírito. O nascer de novo pode ser a própria reforma íntima, você nascer de novo enquanto pessoa, com conceitos renovados, disposto a se renovar. Deus e Cristo sendo fonte de amor, luz e justiça inesgotáveis, faz com que nós ressurjamos das trevas, equivalendo ressurgir da morte para a vida. Agora, voltando a parte de que a Bíblia é uma metáfora e as pessoas quiserem acreditar piamente que Jesus levantou do túmulo assim como podemos também, o que me parece meio estranho se pensarmos que pessoas são cremadas... bom, isso é uma escolha. Devo dizer que para muitos parece meio assustador, mas se sentem culpados caso não acreditem ou o fazem por medo de alguma punição eterna, me lembra a menina Leslie, do filme Terra para Terabítia depois de ir a igreja, disse que achava fascinante toda a história de Jesus embora não acreditasse em algumas coisas. Diante da afirmação de sua amiga cheia de medo, de que ela iria pro inferno caso não acreditasse na Bíblia ela simplesmente diz: “Vocês tem que acreditar e odeiam. Eu não tenho que acreditar e acho maravilhoso. Acho que Deus não sai por aí condenando as pessoas a viver no inferno, Ele tá ocupado demais governando tudo isso...”. Leslie é das minhas.

“Negam o nascimento virginal de Jesus pela ação do Espírito Santo” – Acredita-se piamente no nascimento de Jesus Cristo por Maria, inclusive a considerando como uma grande figura na proteção, no acolhimento, no amor a todos nós, meros humanos. Ela era uma mulher comum, simples, humilde, que concebeu o maior homem que pisou sobre a terra, ela está sempre mais perto de nós, nos acolhendo como filhos, nos dando consolo de mãe. Na doutrina não há negação do “Espírito Santo” na concepção de Jesus, uma vez que este é a forma da espiritualidade superior. Com relação a Maria ser virgem ao conceber, caracterizaria uma reprodução assexuada, o que é cientificamente na espécie humana não existe. O conceito de virginal pode dar margem a múltiplas interpretações. Muitos consideram virgem e puro quando se trata de mulheres, aquelas que nunca tiveram uma relação sexual, abominando totalmente aquelas que já tiveram. Historicamente, esse tipo de afirmativa foi usada para implantar culpas e evitar disseminação do que poderiam considerar promiscuidade. Numa opinião totalmente pessoal, Maria era pura de espírito, de modos, de condutas, tinha a nobreza de caráter tão grande que como dizem as palavras “uma dentre todas foi a escolhida”, porque a pureza dela nesses pontos a fazia se destacar das demais. Se numa hipótese, fosse divulgado que ela não era “virgem” quando concebeu Jesus, isso em nada mudaria minha devoção, admiração, respeito por sua figura, afinal, uma mulher com tal grandeza que concebeu nosso salvador e mestre e abraçou a todos enquanto filhos, temos que saudá-la com toda deferência. Agora se diante de todos esses pontos, algumas pessoas creem que a pureza de alguém se concentra em um hímen, são escolhas a serem feitas...

“Negam a divindade de Jesus” – Jesus era perfeito porque era divino e era divino porque era perfeito. Ele era divino porque mesmo com sua presença poderosa se dispôs a andar por entre homens imperfeitos, se dispôs a passar por humilhações, foi açoitado, crucificado, sentiu dor, sangrou e morreu na cruz perdoando seus algozes, deixando sua mensagem de amor ao próximo. Isso é se divino. É estar em um patamar que nós sequer podemos imaginar, o maior líder religioso, seja de qual religião for não chegaram nem perto dessa perfeição, dessa divindade que pisou sobre a terra. Logo, os espíritas não negam a divindade de Jesus, apenas colocamos outras palavras que querem dizer a mesma coisa, que dão o mesmo significado, olha a interpretação de novo aí...

Vi muitos comentários a respeito, inclusive de que o Espiritismo é uma religião que somente existe no Brasil. Alan Kardec não era brasileiro, era um pedagogo francês que tinha sérias ressalvas com relação a igreja e suas imposições. Ao se deparar com um fenômeno disseminado na França, ele decidiu investigar e fez incríveis descobertas sobre o mundo espiritual, o que foi a base para codificar o Espiritismo. Ele não era um ignorante, nem um curioso, ele fez o que qualquer pessoa inteligente e questionadora faria: buscou respostas. “A fé raciocinada, por se apoiar nos fatos e na lógica, nenhuma obscuridade deixa. A criatura então crê, porque tem certeza, e ninguém tem certeza senão porque compreendeu. Eis por que não se dobra.”, ou seja, a fé cega oprime, o indivíduo e os que estão a sua volta, por isso que não se deve pôr a candeia embaixo do alqueire, visto que, sem a luz da razão, a fé desfalece.

O Espiritismo é uma religião e doutrina, trabalha sua fé e também sua razão, seus pensamentos, seu amor a Deus e os ensinamentos de Jesus, para os que acham que não passa de um culto ou seita de fundo de quintal, o Espiritismo está presente em 36 países, 3,8 milhões de adeptos somente no Brasil, responsáveis por mudanças na vida de muitas pessoas que evoluíram e melhoraram suas atitudes assim como inúmeras obras de caridade para múltiplas pessoas. E só dizendo para os que diante dos meus argumentos quiseram intimidar ou parecerem muito superiores dizendo: “Que Deus tenha piedade de vós”, vou usar a mesma frase que Ragnar Lothbrok, da série Vikings disse a um padre que lhe falou que ele iria para o inferno e não para o céu: “Essa decisão não é sua”. E estou totalmente em paz com isso...

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