O filme Aves de Rapina: Arlequina e sua emancipação fantabulosa chegou aos cinemas. Lógico que para os que gostam da Arlequina desde sempre, é um prato cheio, contudo lógico que tem o outro lado, o de quem mesmo gostando dela, prefere sempre o tradicional que é tê-la associada com Coringa, enquanto sua eterna namorada ou com o Esquadrão Suicida, parecendo bem inconcebível que ela possa ficar sozinha.
Sendo bem sincera, quando vi o primeiro trailer minha empolgação foi menos do que a que tenho com apertos de mão. Não me pareceu algo grande como estavam pintando, embora tivesse Arlequina e outros nomes de personagens conhecidos dos quadrinhos como Canário Negro e Caçadora. Não demorou para que uma onda de críticas viesse dizendo que o filme não teria por função maior lacrar e disseminar feminismo ou outras ideologias, demonstrando clara intenção de desmerecer o filme desde sempre, com nenhuma intenção de sequer assistir. Além claro, não se pode deixar de mencionar, a polêmica com relação a dubladora Iara Riça, que foi substituída e tal situação usada pra o desmerecimento, sendo que a própria se pronunciou dizendo que já era uma situação repetitiva em muitos trabalhos. Com mais alguns trailers, eu até comecei a me empolgar, pois com uma maior visão, deu a entender que seria algo no mínimo divertido e bem colorido, afinal Arlequina não é uma personagem preto e branco. Seja nas roupas ou na personalidade, não tem tempo ruim com ela.
Com a estreia, o ódio que beirava a canalhisse eu diria ficou bem mais intenso e escrachado, muito se escuta mas desse muito, pouco é de fato vindo de quem viu o filme, de quem foi além do que páginas e twits torpes disseram. E definitivamente isso começou a incomodar porque explicita não só opiniões contrárias a atitudes da personagem mas também aversão a algumas coisas de fato erradas, como por exemplo, uma mulher que tenta sair de um buraco, ainda que tenha sido ela quem cavou e percebeu que não achou ouro. Então, diferente de uma crítica mencionando as atrizes, o enredo, os efeitos especiais e as lutas, já tão falados em outros textos, resolvi trazer as frases mais piegas que ouvi com relação a Aves de Rapina e desmistificar todas elas.
1. "Arlequina com um filme solo é coisa feminista, ela é só a mulher do Coringa".
Sempre acho que quem profere isso não sabe bem o que feminismo significa. Eu brinco dizendo que o feminismo é quando uma mulher não aceita ser agredida, humilhada, espancada, que gritem com ela e o agressor obviamente fica bem frustrado porque ao invés dela baixar a cabeça, passiva e com olhos marejados, manda ele pra casa do baralho. No caso de Arlequina, ninguém nega que ela começou como a namorada do Coringa, na verdade, eu creio que ele foi necessário para que ela se tornasse de Quinzel para Quinn, abrindo uma porta e dizendo que não tinha problema a palhacinha sair. Agora, negar que ela ganhou destaque, seja nos filmes, seja nas novas HQ's solo é tapar o sol com a peneira. Arlequina com o passar do tempo provou que não é uma personagem que fica reduzida a uma pessoa, aliás, vamos combinar que mesmo na vida real, "a mulher do Dr. fulano", "A noiva do policial beltrano", "o namorado da Fátima Bernardes" são formas de você literalmente reduzir um indivíduo a pessoa com quem ele se relaciona. Além de ser altamente limitante, você está meio como que dizendo que o outro não sobrevive sem o parceiro, não importando se ele está bem ou não. É como se o outro literalmente não tivesse seu valor, individualidade e luz próprias. No filme, vemos Arlequina tentar seguir como ela mesma, coisa que todos que já tiveram rompimentos precisaram fazer: se encontrar e seguir sem a pessoa que estava ao lado. Ela precisou lidar com o fato de muitos dizerem que ele não sobrevivia sozinha e que bastava Coringa estalar os dedos que ela voltaria. Embora ser namorada dele lhe conferisse proteção contra os outros chefões, já dizia um deles para o Batman na Piada Mortal: "Nós temos medo de você, mas temos pavor dele", ela tinha vergonha do término, pois afinal, estava só e com muita gente no seu pé, contudo ainda assim tentando seguir sua vida, sem grandes pretensões, só se recuperar e se manter viva no dia seguinte.
2. "Os homens são tratados como idiotas e bobalhões no filme e as mulheres parecem já saber de tudo, sem nada para aprender"
O Coringa especificamente é tratado como idiota. Ele é mencionado sempre com aversão e despeito, coisa que falando com sinceridade é perfeitamente comum quando se trata de ex-namorados (as). O vilão é um homem, não podemos fingir que ele não é. Um homem altamente narcisista, metrossexual, de uma vaidade extrema que o leva a cometer canalhices e crimes. Ele tem seus toques de crueldade e sadismo, com uma larga gangue de mascarados, que também estão presentes na HQ, a seu dispor. Alguns consideram que os homens são retratados como bobos porque apanham nas lutas, creio que é algo mútuo, as lutas em si ocorrem em uma pequena parte do filme, em outras podemos ver Arlequina sendo abusada e torturada por esses mesmos homens. Com relação a essa afirmativa de que as mulheres parecem ser sabe tudo, notei unicamente em uma personagem, René Montoya, que é meio como que a representação da lei. Ela de fato é uma policial brilhante que estava reunindo provas contra o vilão, desvendou crimes porém não recebeu os devidos créditos por isso e é sempre subestimada por outros colegas na delegacia, coisa que também é muito comum de ocorrer com qualquer pessoa, aliás já vi homens pegarem outros pelo colarinho por bem menos. Fora René, as outras seguem tentando mesmo é sobreviver e aprendendo como lidar com as coisas desafiadoras que vem pela frente.
3. "Emancipação Fantabulosa é exagero"
O filme mudou de nome com intenção de atrair público e essa parte do título saiu, contudo logo quando a palavra emancipação foi vista, gerou aversão nos que parecem não gostar de ver especificamente uma mulher se "emancipando". Apesar da palavrinha gerar todo esse rebu, no direito ela já era usada a tempos, ela tem por significado "ato de tornar livre ou independente", refere-se a quando um país se torna livre de outro, quando um menor quer ser responsável legalmente por si mesmo antes dos 18, podendo administrar bens e responder como maior ou quando qualquer pimbudo decide parar de depender dos pais e/ou quaisquer pessoa e arcar consigo mesmo saindo de casa, enfim, emancipar diz respeito a você assumir a responsabilidade por si, coisa que em teoria é o lógico para qualquer ser humano. No caso de Arlequina, ela quando diz que quer emancipação, significa que quer um começo tomando conta de si mesma, desvinculada de Coringa e até mesmo do mundo do crime. Nas novas HQ's inclusive ela é muito mais retratada como anti-heroína do que como vilã propriamente dizendo, uma vez que busca novos rumos, amizades e relacionamentos. Ela demonstra querer viver e se tornar melhor a cada por conta disso, lógico que por se tratar de Arlequina, tudo é mais colorido, explosivo, cheio de trejeitos. Creio que todo mundo que precisou encerrar ciclos, sejam eles quais forem, precisou se emancipar do estrago e limitações que muitos deles trouxeram, não é coisa de feminista ou lacração, é coisa de vida prática mesmo.
4. "O filme faz excessiva propaganda das mulheres que participaram da sua produção"
Isso é uma estratégia de marketing que existe desde o início dos tempos. Sempre mencionar por quem o filme foi produzido, os atores que estão nele, quem fez a trilha sonora e em casos mais avançados, os prêmios que ele ganhou numa tentativa de atrair mais pessoas para ver. Se a propaganda foi exagerada por terem muitas mulheres envolvidas, talvez isso faça muitos se sentirem meio incomodados. Ouvi inclusive coisas como se o filme desmerecesse homens, não sei se pelo modo como o vilão foi mostrado ou pelo fato de muitas mulheres participarem. Lógico que se o filme não agradou parcela do público, inclusive mulheres, ninguém deve se sentir obrigado a ir porque tem mulheres produzindo. Agora vamos combinar, existem mulheres médicas, engenheiras, cineastas, cientistas, até coveiras, esse argumento dos outros se sentirem desmerecidos porque elas estão ocupando espaços, não pra competir mas porque é direito de todo ser humano ir e vir, tendo destaque e notoriedade, creio que é uma boa oportunidade para rever os conceitos e analisar a sociedade, afinal ninguém nasceu do repolho e pelo menos no nascimento, estes outros são obrigados a reconhecer que o protagonismo foi de uma mulher.
5. "O filme não está fazendo sucesso"
Quando se trata de cinema existem três tipos de pessoas: as que pensam que um filme é de sucesso se arrasta multidões e faz dinheiro; as que pensam que um filme é de sucesso se ganha muitos prêmios da academia independente de qualquer coisa e as que pensam que se o filme diverte, faz rir ou emociona é bom, dificilmente os três tipos coexistem num mesmo indivíduo. Não se pode mentir, a bilheteria de Aves de Rapina está baixa, bem abaixo do que se esperava, se formos analisar os números puro e simples, de fato fracassou, detalhe: isso não dá o direito de ninguém disseminar ódio por aí. Só que tendo por base o Oscar recente, abre-se brecha numa reflexão: será que um filme de fato com sala cheia é de fato sucesso para todos? Mencionei um dia desses o Menina de Ouro, é um filme que muitos não sabem por onde começa nem por onde termina, muitos sequer verão por causa do gênero drama, mas no seu ano ganhou vários prêmios inclusive Oscar de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Atriz. E não pode se dizer que foi um boom de bilheteria que rendeu milhões, mas a história é boa. A atriz em questão é uma das poucas que já foi duplamente premiada com o Oscar, mas também não é muito conhecida e para os padrões Hollywoodianos também não é o ícone de beleza: Hilary Swank, e ainda assim muitos sequer conhecem. O filme Parasita, que se duvidar foi recordista em premiações esse ano também é um filme que se considerarmos bilheterias ocidentais e pessoas que de fato assistiram, não há quantidade, embora a história seja bem instigante. Capitã Marvel é odiada e muitos se recusam a assistir no cinema um segundo filme, mas arrecadou milhões. Daí voltemos para Aves de Rapina. O filme teve pouca procura até agora? Sim. Mas e os que viram, o que tem a dizer? Provavelmente gostaram e acharam divertido, então para esses valeu a pena ter visto, da mesma forma que grandes produções para esses mesmos não fizeram cócegas. Então, não vale usar esse argumento para dizer que o filme é ruim, pois aqui fora, nas salas e não nas contas dos estúdios, muito se torna bem subjetivo.
6. "Não sou o público alvo"
Quando ouvi isso pensei logo no outro filme que estreou esse mês: Sonic. E que muitos estavam fazendo campanha maciça para que fossem ver mas desmerecendo Aves de Rapina. Algumas páginas bem cretinas até usavam isso para disseminar umas ideias bem torpes, como se a Arlequina só servisse pra apanhar do Coringa e tudo só estivesse em ordem desse jeito. Mas enfim, quando ouvi essa frase, logo pensei: "Então não sou público alvo de Sonic. Nunca tive video game, nunca joguei, nem quando criança, tão pouco agora, o máximo que sei é que ele corre e pega uns aneizinhos. Ah, lembro vagamente de um desenho que passava na TV...". Quando você coloca isso de público alvo parece coisa de palestra universitária, lógico que tirando a parte de classificação indicativa que é outro ponto, se você está dentro dessa faixa etária e quer ver, é chulo dizer que não porque você não é o "público alvo". Se de fato não quiser, o gênero não atrair, tudo bem, mmais sincero admitir dessa forma sem envolver público alvo. Peguemos outros exemplos, quando Procurando Dory e Os Incríveis 2 foram lançados, tava na cara que eram filmes infantis, lógico que tinha a nostalgia, mas era pra crianças. Não faltou adulto que fez campanha pra elas não irem num filme... Infantil (!).
Detetive Pikachu estreou e muitos foram, fui pelo anime, nunca pelo game, embora tivessem referências do game ali, talvez o público alvo fossem os gamers, mas qualquer vovô sem nada pra fazer podia pegar um assento gratuito e ver. Cisne Negro devia ser só pra psicólogos e psiquiatras, porque qualquer pessoa sem conhecimentos prévios teria que fumar muito chapéu pra entender, eu assisti porque curtia o figurino, as danças e a trilha sonora. Alguns que falam isso de "alvo" tem na cabeça que Aves de Rapina é um filme "feminista", feito por mulheres para mulheres, logo não vai ser interessante a eles. Seja pelo visual, seja pelo enredo, pelo elenco, pelo que as mulheres fazem, porque vai ser um filme chato cheio de ideologias e etc.... Pra mim, se um filme me atrai, pode ser feito por quem for e de que tipo for, eu assisto. A premissa é bem simples: se eu paguei, eu sou o público alvo.
7. "Querem lacrar botando um grupo de mulheres pra bater em homens"
O grupo de mulheres em si diferente do que ocorreu em Esquadrão Suicida não foi criado do dia pra noite com todos dando as mãos dizendo "Unidos venceremos", as componentes do grupo estavam bem apartadas, embora ligadas por circunstâncias. Tudo em Gothan gira em torno de poder e pessoas que tomam atitudes a partir disso. Os mafiosos não se importam de matar, saquear e roubar, a polícia tenta combater isso e bota informantes dentro do covil, vítimas dos mafiosos se vingam. Paralelo, existem os ladrões de galinha que roubam pra comprar um sandubão ou ter uma pequena alegria, logo as integrantes do grupo acabam unidas por terem que combater um inimigo comum que queria todas mortas. Não eram amiguinhas numa festa do pijama embora nossa maluca Arlequina tenha brincado com a situação, eram pessoas que mesmo sendo extremamente diferentes precisaram usar suas habilidades para um bem maior. E para isso, tiveram sim que enfrentar uma gangue de homens que avançaram nelas, nada muito diferente do que se vê em qualquer filme onde se tenha combates.









Nenhum comentário:
Postar um comentário