Talvez poucas histórias sejam tão atuais e sirvam para todas épocas quanto Éramos Seis. O motivo para tal provavelmente esteja no fato de que a história se pauta na família e no que ela enfrenta de dificuldades e desafios, logo a menos que você tenha nascido do repolho com certeza sabe como uma família funciona e como é composta.
Éramos Seis é um livro que começa na década de 20 e termina por volta da década de 40. Conta a história de uma família de seis pessoas que com os revezes da vida vai se esvaindo até sobrar somente a matriarca. Aliás, a história é toda contada do ponto de vista da personagem principal Lola. A mãe, a esposa, a dona da casa que viveu para a família e nunca se importou em se sacrificar para tal. Por ser um enredo simples, é facilmente adaptável, não surpresa que tenha tido pelo menos 4 versões de novelas com a história, tendo diferentes atrizes ao longo das décadas no papel principal. Contudo, ao que parece, pela primeira vez em 77 anos, Lola não terminará do modo trágico que todas as suas antecessoras.
Dando um breve resumo, ela tem quatro filhos e era casada. Com o passar dos anos, o maior sonho era terminar de pagar o financiamento de uma casa, o marido Júlio trabalhava bastante em uma loja sendo sempre explorado enquanto ela tricotava. Com o avançar dos anos, ela fica viúva, os filhos crescem, um deles abandona os estudos para ajudar na casa e todos tem personalidades bem distintas. Seguem a vida com as dificuldades e tentando pagar o que resta da casa, porém é notado que apesar dos filhos perto, tirando o mais velho (que morre em determinado ponto) não se sente o ar de família por parte dos outros. Isso fica bem notório conforme vão crescendo, passam a ter diferentes interesses e não medem esforços para consegui-los.
Tendo isso em evidência, lógico que a mãe vai sofrendo ao longo da história com o apartheid dos seus rebentos, ainda que a personagem no livro em termos de idade não seja tão idosa, a história faz parecer uma mulher com seus 50 anos dar a entender que está no fim da vida, dado o cansaço, o peso dos anos, as lutas... Lola vê toda sua família se acabar até que sobra apenas ela, solitária em um pensionato de freiras, como se nunca houvesse tido uma família. Lógico que nas versões anteriores, isso cabia perfeitamente, os costumes e visões eram diferentes, a pirâmide etária do país era outra também, de modo que se com 20 anos sua vida já estava estabilizada, com 60 você já era um ancião, o que não ocorre mais e de longe exige outro final para a protagonista hoje.
Não é spoiler nenhum dizer que Lola não terminará só. Seria crueldade e totalmente não condizente com a realidade. As senhoras de hoje ao verem seus filhos criados, viúvas ou não, possuem algo que naquele tempo era quase inexistente a essa altura da vida: Perspectivas. Hoje, elas possuem atividades diversas, dança, artesanato, viagens, fora a própria confraternização com outros de sua mesma faixa etária, fazendo com que a juventude ainda permaneça, apenas possua outra nuance, mas proporcione uma saúde e vida longa. Isso a 50 anos atrás só de se imaginar pareceria chocante aos olhos da sociedade.
Prova disso são atitudes dos filhos de Lola na recente novela que se antes eram mais relevadas, hoje dificilmente passam sem reprovação severa, fruto também dessa mudança de perspectiva sobre as mães e seu papel. Lola se dedicou a família, passou por duas mortes dolorosas e viu seus filhos que sobraram seguir caminhos diferentes, nem sempre tão aprováveis assim. A filha se uniu a um homem desquitado, sem aviso. Um virou marinheiro saído fugido do país. O caçula que por costume muitos tem como o que sempre estará perto dos pais, foi o que se revelou mais fraco nesse sentido. Por ser o mais ambicioso por dinheiro e bens, Julinho recebe uma proposta para ser sócio da loja na qual trabalha, a mesma que seu pai recebera antes dele. Já envolvido com a filha do dono, ele precisa de capital para a sociedade, mesmo morando em outra cidade e com contato bem espaçado, ele recorre a mãe pedindo ajuda e sugere que ela venda a casa, seu único bem que levou a vida para pagar, para conseguir o dinheiro.
Existe na minha terra uma expressão chamada "Gigolô de mãe", gigolô é no sentido que se sabe: aquela pessoa que se aproveita de outro principalmente no sentido material e estendido no sentido emocional. No caso de mãe, a coisa fica mais séria porque o indivíduo utiliza do amor e afeição maternos para conseguir as coisas, quando devia por moral dar. É exatamente isso que vemos Julinho fazer, seja no livro seja na novela, falas como "Eu sou seu filho", "Me ajude", "Não me decepcione", "Vai ser melhor", "Não quero acabar como meu pai" são comumente utilizadas para que ele enrede a mãe e convença Lola a vender sua casa e dê o dinheiro a ele, a irmã mais nova também teria seu quinhão após a negociação. Sob forte argumentação, Lola cede e vai morar com o filho na casa da família da nora em outra cidade, longe de tudo que conhece e de seus amigos de anos, que o filho faz questão de dizer que ela não mais precisará uma vez que terá a "família" por perto.
Família essa que por ter uma condição financeira diferente, a humilha constantemente. A nora a coloca pra dormir no quarto dos fundos, demonstra chateação por ela ser simples e fazer coisas na casa, no casamento corta o bolo após a sogra sair, e o filho nesse meio, fica ao lado da família da esposa, cobrando que a mãe se adapte. E como grande acomodado e sem ação que é, permite que a mãe siga sendo subjugada como ele próprio o é, mesmo que sócio e casado com a dona da casa. O cúmulo foi quando a esposa o convence a mandar a sogra embora para a casa da cunhada, dando a ela uma passagem só de ida de "presente" durante o jantar, tudo sob o silêncio e cabeça baixa do marido Ou seja, a mãe foi útil para vender sua casa e ser afastada dos amigos, mas sequer merece uma palavra de defesa por parte dele. Conheço pessoas que por uma mãe, se divorciariam por muito menos, ou melhor, sequer chegariam a um matrimônio. Lei do retorno ou não, fato é que este personagem amargará sua ambição porque mesmo tendo uma mansão, carro e tudo que o dinheiro pode comprar, terá que conviver com uma esposa mimada e mesquinha, sendo sempre colocado como golpista e tratado como inferior.
Hoje embora exista, seria difícil ver uma mãe agir como Lola. Se desfazendo de tudo que tem, de modo impetuoso, para se subjugar a uma nora e suportar maus tratos. Lógico que questões de aposentadoria e previdência faziam diferença naquele tempo, como as pessoas mais velhas não tinham muitas opções de sustento, acabavam se submetendo a situações humilhantes por parte de filhos, noras e genros. Muitas viviam o relógio ao contrário, ao invés dos filhos, a exemplo de Julinho que ficou rico darem todo conforto e poupá-las do trabalho, ainda lhes tiram o pouco de paz e alegrias dos anos que restam. Mesmo que isso ainda ocorra atualmente, permanece sendo uma situação indignante.
A boa notícia é que o fim de Lola nesta versão de Éramos Seis é um lampejo de esperança e deixa o coração de mulheres como ela bem quentinho. Pois pela primeira vez, vai se ver a personagem tendo um final feliz, confortante e real. As mulheres como ela que já tem filhos criados e muitos desgarrados mesmo que o vazio esteja em seus corações, afinal filho é filho, não param suas vidas. Muitas conseguem ter um novo amor, alguém para terminar os dias de modo mais terno. Antes muitos filhos não aprovariam, fruto de uma cultura machista e conservadora, em nome de honras e memórias que na prática eram só conceitos caricatos, hoje,muitos filhos defendem suas mães sim, mas defendem também a felicidade delas, não importa a idade que tenham.
Éramos Seis e Lola mostra muito de família e como as coisas foram mudando ao longo dos anos. É gratificante ver que por mais que se tenha quebrado uma tradição, isso foi em nome de uma maior aproximação com o público. Mas se você quiser ver o original, com Lola desolada amargando sua solidão em um quartinho, as versões antigas e o livro estão aí. 


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