domingo, 31 de maio de 2020

Nós evoluímos... a que preço?


Fiz mestrado num programa que falava muito de Evolução Humana. Por mais que tudo fosse muito maluco em boa parte do tempo, deu pra aprender alguma coisa aqui e ali. Se batia muito na tecla de que nós tivemos que nos adaptar para poder evoluir, que as características sobressalentes foram selecionadas, permaneceram e passadas adiante para as próximas gerações e assim foi por milhões de anos até hoje. Nossos ancestrais andavam cerca de 3km pra conseguir achar um punhado de castanhas pra comer. 3km são 3000m, o equivalente a 30 campos de futebol. E castanhas são aquelas sementinhas que a nutricionista manda você comer no lanche da manhã antes do almoço. Nossos antepassados caminhavam exaustivamente pra isso, era uma felicidade sem tamanho se achassem um pedaço de tutano perdido numa carcaça qualquer... Todavia, não quero discutir aqui a felicidade com relação a comida que permaneceu em nossos cérebros, o ponto é que: nós desenvolvemos uma capacidade de adaptação surpreendente, quase espantosa.
 
Em tempos nos quais muitos viram seus pilares ruírem sem poderem fazer muito e a iminência das coisas voltarem ao normal, ou pelo menos uma tentativa disso, foi percebido que muitos souberam se adaptar, até se acostumar muito bem com a situação toda. Não digo que é algo ruim, é essa característica que nos permitiu viver por tanto tempo, porém a parte social quando se une a esta parte primitiva apresenta alguns reveses difíceis de lidar. Muito foi visto neste momento que estamos vivendo. E foi necessária muita adaptação, mas movida por muita sinceridade e observação, posso dizer que alguns se adaptaram muito melhor que outros. Não sei dizer se isso é algo tão positivo assim mesmo que evidente...

Começou com o uso de máscaras, necessário, preciso, logo esse acessório que era usado somente em hospitais e em fantasias, tomou conta das ruas. Pessoas que nunca souberam direito a diferente entre as inúmeras do mercado de repente se viam como especialistas explicando a diferença entre os filtros. Logo, todos se adaptaram a usá-las, em todo lugar, mesmo os que possuíam restrições. As costureiras logo se adaptaram a costurar máscaras de tecido ao invés de vestidos e roupas e os que vendiam álcool em gel e máscaras, logo souberam tirar vantagem cobrando o triplo do que valiam, surpreendentemente quem comprava não se importou em pagar o preço.

E com relação ao isolamento... não se tem muito o que se dizer. Boa parte está muito confortável com ele, se adaptar a ficar longe do resto do mundo não foi nada penoso. Alguns estão em gaiolas douradas, com as provisões em quantidade, vivendo até experiências novas e felizes (ainda bem), mesmo numa gaiola, não está sendo tão difícil e triste assim, é uma gaiola prazerosa no fim das contas. Não falta quem diga que está muito bem mesmo isolado, não sente falta de nada. Outros por sua vez por necessidade não conseguem mais ficar nessas gaiolas, alguns estão sendo duramente afeccionados por danos psicológicos sem precedentes, não por uma falta de adaptação, mas por uma circunstância desfavorável com relação aos mais “adaptados”. E estes por sua vez, em muitos casos é mais fácil criticarem, xingarem, apontarem seus dedos meio como que gritando superioridade do que perguntarem se quem viola o isolamento precisa de algo ou o porquê de fato fazem, em muitos casos não há muita preocupação se quem sai pode estar no meio de uma crise, tendo que segurar sozinho as pontas.

“Ah mas as pessoas não estão bem, estão com medo”. Essa também é uma das coisas mais curiosas da nossa evolução. Nós somos capazes de nos adaptar tão bem que nos adaptamos e acostumamos igualmente bem a medo, a sofrimento, a infelicidade... É o lado negro dela que adquirimos junto com outras capacidades. Se voltarmos um pouco no tempo e pensarmos nas guerras mundiais, veremos que as famílias dos soldados se adaptaram ao medo de perde-los. Dormiam e acordavam com essa sensação, conseguiram conviver com isso, não saindo ilesos mas vivos e sobrevivendo. Muitas viviam com o incômodo iminente de receber a notícia de uma morte ou com a esperança de uma volta, e viveram com a angústia de não ter nem uma coisa nem outra. Se acostumaram a ter a ameaça constante de bombas caindo do céu... Os soldados se adaptaram a lutar por suas vidas, com medo, com horror, convivendo com o que de mais terrível havia no ser humano. Mesmo hoje vemos isso: soldados que se adaptaram tanto com a guerra e suas crueldades, que não conseguiram voltar inteiramente e a paz os confundia. No filme A Vida é Bela ( um dos filmes mais pestilentes que existem pra mim), Guido precisou se adaptar a dura realidade, modifica-la para proteger seu filho Guiosé dos horrores do campo de concentração. Recentemente, em uma reportagem sobre a guerra do oriente, foi mostrado que um pai cantava para a filha durante os bombardeios para que ela se acalmasse. É uma forma de lidar, ainda que pesarosamente, com sentimentos como o medo.


Vendo essas coisas nos perguntamos como o ser humano consegue. Talvez tenhamos sido feitos pra isso afinal. Nós evoluímos por milhões de anos justamente nos adaptando aos ambientes mais inóspitos e carentes de recursos. Somos uma espécie que está presente no escaldante calor dos desertos e no frio congelante dos árticos e conseguimos nos encaixar mesmo assim. Vemos casos de pessoas vivendo em condições altamente insalubres, seja de fome, carência ou no meio de ambientes que propiciam a maior sorte de malefícios e há o questionamento de como isso se torna possível. A resposta é a mesma do porquê muitos estão bem isolados devido ao Corona Vírus: nos adaptamos bem, nos acostumamos bem, mesmo que seja algo que nos fira, que não seja agradável. Lógico que é necessário, é preciso em nome de uma sobrevivência de cunho maior, o ponto é que muitos estão confortáveis demais com a questão ou não sentiram tanto os reveses. Talvez não devêssemos nos acomodar tão facilmente a coisas do tipo mas isso só prova que o ser humano foi mesmo feito pra expiar e crescer independente do caminho que se tome, talvez a evolução seja sempre certa... Só cabe o questionamento: será que o costume e adaptação ao sofrimento e infelicidade é sempre o único modo de se evoluir? Será que não há outros modos e soluções? Uma questão para os sábios...

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