Fiz mestrado num programa que falava muito de Evolução
Humana. Por mais que tudo fosse muito maluco em boa parte do tempo, deu pra
aprender alguma coisa aqui e ali. Se batia muito na tecla de que nós tivemos
que nos adaptar para poder evoluir, que as características sobressalentes foram
selecionadas, permaneceram e passadas adiante para as próximas gerações e assim
foi por milhões de anos até hoje. Nossos ancestrais andavam cerca de 3km pra conseguir
achar um punhado de castanhas pra comer. 3km são 3000m, o equivalente a 30
campos de futebol. E castanhas são aquelas sementinhas que a nutricionista
manda você comer no lanche da manhã antes do almoço. Nossos antepassados
caminhavam exaustivamente pra isso, era uma felicidade sem tamanho se achassem
um pedaço de tutano perdido numa carcaça qualquer... Todavia, não quero
discutir aqui a felicidade com relação a comida que permaneceu em nossos
cérebros, o ponto é que: nós desenvolvemos uma capacidade de adaptação
surpreendente, quase espantosa.
Em tempos nos quais muitos viram seus pilares ruírem sem
poderem fazer muito e a iminência das coisas voltarem ao normal, ou pelo menos
uma tentativa disso, foi percebido que muitos souberam se adaptar, até se acostumar
muito bem com a situação toda. Não digo que é algo ruim, é essa característica
que nos permitiu viver por tanto tempo, porém a parte social quando se une a
esta parte primitiva apresenta alguns reveses difíceis de lidar. Muito foi
visto neste momento que estamos vivendo. E foi necessária muita adaptação, mas movida
por muita sinceridade e observação, posso dizer que alguns se adaptaram muito
melhor que outros. Não sei dizer se isso é algo tão positivo assim mesmo que
evidente...
Começou com o uso de máscaras, necessário, preciso, logo
esse acessório que era usado somente em hospitais e em fantasias, tomou conta
das ruas. Pessoas que nunca souberam direito a diferente entre as inúmeras do
mercado de repente se viam como especialistas explicando a diferença entre os
filtros. Logo, todos se adaptaram a usá-las, em todo lugar, mesmo os que
possuíam restrições. As costureiras logo se adaptaram a costurar máscaras de
tecido ao invés de vestidos e roupas e os que vendiam álcool em gel e máscaras,
logo souberam tirar vantagem cobrando o triplo do que valiam,
surpreendentemente quem comprava não se importou em pagar o preço.
E com relação ao isolamento... não se tem muito o que se
dizer. Boa parte está muito confortável com ele, se adaptar a ficar longe do
resto do mundo não foi nada penoso. Alguns estão em gaiolas douradas, com as
provisões em quantidade, vivendo até experiências novas e felizes (ainda bem),
mesmo numa gaiola, não está sendo tão difícil e triste assim, é uma gaiola
prazerosa no fim das contas. Não falta quem diga que está muito bem mesmo
isolado, não sente falta de nada. Outros por sua vez por necessidade não
conseguem mais ficar nessas gaiolas, alguns estão sendo duramente afeccionados
por danos psicológicos sem precedentes, não por uma falta de adaptação, mas por
uma circunstância desfavorável com relação aos mais “adaptados”. E estes por
sua vez, em muitos casos é mais fácil criticarem, xingarem, apontarem seus
dedos meio como que gritando superioridade do que perguntarem se quem viola o
isolamento precisa de algo ou o porquê de fato fazem, em muitos casos não há muita preocupação se quem sai pode estar no meio de uma crise, tendo que segurar sozinho as pontas.
“Ah mas as pessoas não estão bem, estão com medo”. Essa
também é uma das coisas mais curiosas da nossa evolução. Nós somos capazes de
nos adaptar tão bem que nos adaptamos e acostumamos igualmente bem a medo, a
sofrimento, a infelicidade... É o lado negro dela que adquirimos junto com
outras capacidades. Se voltarmos um pouco no tempo e pensarmos nas guerras
mundiais, veremos que as famílias dos soldados se adaptaram ao medo de perde-los.
Dormiam e acordavam com essa sensação, conseguiram conviver com isso, não
saindo ilesos mas vivos e sobrevivendo. Muitas viviam com o incômodo iminente
de receber a notícia de uma morte ou com a esperança de uma volta, e viveram com
a angústia de não ter nem uma coisa nem outra. Se acostumaram a ter a ameaça
constante de bombas caindo do céu... Os soldados se adaptaram a lutar por suas
vidas, com medo, com horror, convivendo com o que de mais terrível havia no ser
humano. Mesmo hoje vemos isso: soldados que se adaptaram tanto com a guerra e
suas crueldades, que não conseguiram voltar inteiramente e a paz os confundia.
No filme A Vida é Bela ( um dos filmes mais pestilentes que existem pra mim),
Guido precisou se adaptar a dura realidade, modifica-la para proteger seu filho
Guiosé dos horrores do campo de concentração. Recentemente, em uma reportagem
sobre a guerra do oriente, foi mostrado que um pai cantava para a filha durante
os bombardeios para que ela se acalmasse. É uma forma de lidar, ainda que pesarosamente, com sentimentos como o medo.
Vendo essas coisas nos perguntamos como o ser humano
consegue. Talvez tenhamos sido feitos pra isso afinal. Nós evoluímos por
milhões de anos justamente nos adaptando aos ambientes mais inóspitos e
carentes de recursos. Somos uma espécie que está presente no escaldante calor
dos desertos e no frio congelante dos árticos e conseguimos nos encaixar mesmo
assim. Vemos casos de pessoas vivendo em condições altamente insalubres, seja
de fome, carência ou no meio de ambientes que propiciam a maior sorte de
malefícios e há o questionamento de como isso se torna possível. A resposta é a
mesma do porquê muitos estão bem isolados devido ao Corona Vírus: nos adaptamos
bem, nos acostumamos bem, mesmo que seja algo que nos fira, que não seja
agradável. Lógico que é necessário, é preciso em nome de uma sobrevivência de cunho maior, o ponto é que muitos estão confortáveis demais com a questão ou não sentiram tanto os reveses. Talvez não devêssemos nos acomodar tão facilmente a coisas do tipo mas isso só prova que o ser humano foi mesmo
feito pra expiar e crescer independente do caminho que se tome, talvez a evolução
seja sempre certa... Só cabe o questionamento: será que o costume e adaptação
ao sofrimento e infelicidade é sempre o único modo de se evoluir? Será que não há outros modos e soluções? Uma questão
para os sábios...



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