quinta-feira, 23 de julho de 2020

Querido Tom 01


Querido Tom, os pensamentos hoje foram muitos. Tem vezes que os planos, vontades, os próprios pensamentos me confrontam. Muitos falam de viagens, lugares pra ir, eu acho caro e penso que nunca terei tempo; falam de projetos, empregos, parece que me acomodei... Me lembro daquele filme no qual o rapaz tetraplégico diz que queria voltar a um determinado lugar sendo ele, não o que era no momento, cheio de dificuldades. Eu queria um dia sentir o que senti naquele dia em que pensei que a vida se abriria pra mim, o dia que falaram meu nome, que conquistei algo tão bonito, incrível, pelo qual não apenas sonhei mas lutei. Foi a única coisa pela qual eu, mesmo sendo um botão de vida tive a real vontade de ter. Eu enfrentaria qualquer coisa, qualquer cansaço, como enfrentei todos os monstros e dava broncas em mim quando fraquejava só pra chegar naquele momento. O problema é que isso foi tudo que ele foi: um momento. Um momento finito, quando achei que seria uma porta. 

Nunca mais senti nada igual aquilo. Penso em muitos momentos mas não acho nenhum... Queria dizer que tenho esperança de sentir novamente aquela sensação, mas estaria mentindo. Até porque talvez não tenha mais esperança de sentir aquilo novamente, pelo simples motivo que não sou mais aquela pessoa. Nunca mais serei. Por vezes olho pra mim, tento mergulhar fundo no azul do meu oceano e tento achá-la, tento olhar pra ela, tento conversar com ela, dizer a ela que não se envolva motivada por empolgações voláteis, tento dizer a ela que mantenha os pés ao menos um pouco mais no chão... porém não a acho mais em lugar nenhum, ela não está mais ali...

Eu era jovem e inexperiente, por vezes penso que paguei um preço muito alto por um crime não tão grave. Por vezes penso que não foi justo, não foi certo, foi uma pena muito longa por tão pouco. Foi demais por algo que nem pode ser caracterizado de culpa. Tiraram meu sonho, minha alegria, meu mundo... E vi esses que de algum modo maior ou menor, foram algozes, seguirem, conquistarem coisas e respeito , admiração, foi bem duro. Do mesmo modo que é duro saber que ainda ainda com esforço, o mundo pode olhar você como alguém que nunca cresceu, mesmo que seu espírito esteja coberto de chagas, de cicatrizes, sua espada arranhada e marcada de tanto você ter que afiá-la para batalhas sem fim e tão pouca paz... Vi pessoas que eu levava no cinema e pagava lanches já tendo filhos, e o mundo as olha como sendo muito mais respeitáveis do que alguém que ainda tem cautela com certos estágios.

Já quis muito, mas acho que perdi um pouco a capacidade de planejar e hoje tenho até medo de desejar algo. Tanto foi tirado, que você automaticamente faz uma parede de escudos, com receio de que se tire o pouco que sobrou...

Nenhum comentário:

Postar um comentário