Quando você nasce está indefeso. Você precisa que o protejam, que o acalentem, que o coloquem no colo e não importa que chore ao infinito, estarão lá por você. Todavia conforme cresce você precisa aprender as coisas, aprender quando recuar e quanto avançar, e esse aprendizado nem sempre é fácil, você enfrenta muitos percalços ao longo do caminho e sequer estou falando das malícias do mundo adulto ou profissional, mas mesmo criança você vai precisar enxergar coisas que antes não precisava. Quantas não sofreram com o bullying ou aquele coleguinha maldoso que pegava seus lápis sem pedir ou o colega vaidoso que dominava todos os outros e você implorava pra ser amigo, caso contrário seria exilado o resto do ano? Muitos passamos por isso e a tendência foi a piora.
Não quero parecer pessimista nem desgostosa porém conforme o crescimento vem você vai criando o que chamo de escudos. Não que a vida seja uma guerra mas as paredes de escudos tinham por função proteger quem estava do lado de dentro, a pessoa enquanto escudo levantado avançava devagar, com cautela, ou ficava parada esperando o melhor momento, todavia sempre protegida, sempre segura de qualquer coisa que pudesse feri-la.
Quando se nasce, tão frágil todas as proteções são para você, os outros fazem a parede de escudos por você mas a medida que cresce você vai construindo a sua própria, até que chega um ponto que tem uma parede completa. Essa parede tem por função proteger você do mundo mas não no sentido de que se está em uma guerra com ele, mas no sentido de que sua experiência faz você ficar cauteloso com o avançar dos passos, pensar bem se a estratégia é a melhor, faz você lidar melhor com as coisas e pessoas.
Daí, quando você se depara com uma nova situação, seja um emprego novo, uma nova amizade, um convite, um relacionamento sempre começa com todos os seus escudos levantados. A velocidade com que vai baixando eles varia muito de pessoa para pessoa, no quão mais desconfiado/cauteloso alguém seja. Um a um eles vão sendo abaixados conforme o tempo também passa, dificilmente alguém que possui a parede de escudos completa abaixa todos de uma vez e muito rápido. Exige muita confiança e entrega a uma situação, um conhecimento mais profundo. Entretanto, existe um escudo que nunca é abaixado, ou em teoria nunca devia ser, não importa quanto tempo passe, o último escudo, o escudo da individualidade.
Esse escudo é o escudo que guarda seu cerne do outro lado. O escudo que guarda seu eu, um lado seu que é totalmente individual e existe independente do quão em guerra o lado de fora esteja, não importa quantas pessoas estejam ao seu lado, ou onde esteja, é um escudo feito de momentos consigo mesmo ou da solidão e por estes se mantém.
Este escudo demora pra ser feito, muitas vezes é construído e levantado em momentos nos quais se precisa de si mesmo mais do que de qualquer outra coisa no mundo, situações nas quais não se pode contar com mais nada ou ninguém. Ele nem mais é construído de madeira mas de ferro, quase impenetrável, fazendo com o que está dentro não saia nem o que está fora entre. Quando este escudo é quebrado, há coisas que podem acontecer. Uma é a pessoa por estar totalmente desprotegida, se submeter a relacionamentos abusivos, nocivos e ficar vulnerável a qualquer tipo de situação, se submeter a elas sem respeito por seus próprios desejos ou pessoa, pode ocorrer dela deixar que quebrem este escudo e o resultado será semelhante. Outra é a pessoa se perder, não saber bem o que é ou pra onde vai, imergir em um oceano profundo de confusões e escuridão. Para as mulheres, talvez por um filho esse escudo seja quebrado, pois o amor a um filho é capaz de fazer uma mãe esquecer de si mesma em prol dele e de sua proteção, já que isso se torna mais importante, daí talvez ao invés de um escudo há uma espada.
Um último escudo quebrado é bem ruim. Todavia existe um malefício em mantê-lo levantado o tempo todo. Você pode ter um escudo perto de si, mas estar carregando-o somente, sem estar com ele levantado 100% do tempo, como que esperando um ataque mesmo em tempo de paz. Essa situação denota uma pessoa que não mais consegue viver do lado de cá do seu próprio escudo, permanecendo sempre presa nele. Em todos há um lado que sempre será solitário, um lado que gosta do silêncio dos pensamentos, de estar só consigo, mas em quem esse escudo assume a parede toda, a solidão é 100% do tempo, mais do que uma conotação solitária existe uma preferência por ela, como um acolhimento que não se consegue ter com nada que esteja fora. Há uma vontade de se evitar pessoas e lugares, não se tem uma sensação de estar a vontade, como se não houvesse encaixe mais em um mundo fora de seu próprio escudo, é perigoso quando o último escudo toma conta ou começa a tomar muito espaço no ser de uma pessoa.
A parede de escudos é necessária, não se pode pensar em não tê-la, todavia saibamos quando levantar e quando abaixar, sem deixar nenhum escudo importante de fora, mas sem deixar que apenas um nos domine fazendo-nos esquecer como a vida pode ser do lado de lá da muralha.




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