Eu sempre gostei de novelas, acho que muitas tem coisas interessantes pra nos ensinar, fora a reflexão de como valores de determinadas épocas mudaram ou como permanecem, instigam algumas discussões e nos faz pensar na relação com vida real. Recentemente, no Canal Viva, a novela Mulheres Apaixonadas terminou. Se não lembram, alguns dos marcos dessa novela do Maneco foram a criação do Estatuto dos Idosos, a discussão sobre violência doméstica contra mulher e campanha de desarmamento. Uma das personagens, Dóris, conhecida por maltratar seus avós, ser intolerante, querer sempre algo maior do que tinha, foi uma das mais odiadas durante a novela inteira. Tão odiada que no capítulo final recebeu uma surra de seu pai seguida de humilhação que para muitos foi quase um orgasmo.
Hoje, anos depois da primeira vez que a novela foi exibida, com mais discernimento percebo que esta surra foi até sem nexo. Além de claro, cheia de falhas, foi como se o autor não soubesse como fechar o ciclo de Dóris e resolveu dar uma surra nela porque afinal, o público gosta desse tipo de coisa. Por partes, Dóris tinha falhas de caráter em muitos aspectos e imperfeições seríssimas, indefensáveis, os avós eram apenas um ponto. Insatisfeita com o padrão que tinha, queria mais, mesmo que não lutasse pra isso. Todavia, algo muito notório é que por mais que Dóris fosse a que dentro da família tivesse mais arestas, isso não eximia os outros, do pai ao irmão de terem também, e isso de forma nenhuma torna Dóris defensável.Comecemos pelo pai Carlão, a família morava no Leblon, um dos bairros mais caros do Rio mas ele dizia que eram uma família pobre. Ele trabalhava em casa e em momentos aparece sempre chateado, afinal como a própria esposa dizia, por não trabalhar fora, não tinha como reciclar a cabeça, não lidava com o mundo, não sugeria programas para o fim de semana e a vida deles não andava, fora que mencionava não conseguir sustentar a casa sozinho e precisava ainda da ajuda financeira dos pais idosos; ele não aprovou o trabalho de Dóris porque ela voltava tarde a noite, comumente dizia “não estou gostando disso”, como se fosse um trabalho indigno. Isso, fora o histórico de ter pedido pra esposa abortar a filha e insinuar que se esta também estivesse grávida, pediria o mesmo. Ele alega que a família passava por situação financeira difícil tendo que pedir para amigos ajuda, todavia ainda assim e mesmo com situação ainda relativamente difícil, teve outro filho.
Por sinal, ele fazia distinção entre os filhos. Não uma distinção de bens, mas no quesito de educação com relação a alguns assuntos. Uma vez que o filho Carlinhos assediava a empregada e Carlão achava engraçado e até dava incentivo, alegando que na juventude fazia o mesmo. Todavia com Dóris, mesmo mais velha, havia sempre uma crítica no sentido liberdade sexual e a conversa sempre vinha em tom de censura, de podamento.
Irene, a esposa, também vive insatisfeita. Não só com o marido e as dificuldades, mas com a situação em que a família vive. Pois quando foi feito o planejamento do espaço, esse seria para a família de quatro pessoas, com uma ocasional doença do avô, o espaço precisou ser dividido para seis pessoas, culminando em Dóris precisar dividir o quarto com o irmão. Irene sempre pensou que seria algo provisório, pois os idosos tinham sua própria casa.
Carlinhos, por sua vez era um adolescente até meio folgado. E tinha um desejo sexual acima do comum
para um adolescente de 17 anos. Tanto que ele cortejava as colegas de escola e assediava a empregada Zilda, espiando-a trocar de roupa, cercando-a até que eles chegam a relação sexual de fato. E Zilda, a empregada que era fixa, se envolvia não só com Carlinhos no sentido sexual, traindo o namorado com ele mas dava sempre opinião na intimidade da família, criticando Dóris em suas condutas explicitamente, num tom que remetia muito mais a uma amiga opinando e tomando liberdades com Carlinhos, como toques e gracejos ainda que talvez fosse anti-profissional. Os avós eram os mais inocentes, todavia mesmo com toda a situação incômoda, protelaram a ida para o Retiro dos Artistas que desejavam e acabavam sendo submetidos a tudo pelo filho Carlão. O filho podia ter a melhor das intenções, mas a família tinha sérias arestas como um todo, ele era responsável por algumas delas.
Lógico que os maus tratos nos idosos, fruto da insatisfação de Dóris por querer seu quarto era repugnante. Ela chegou a ser punida por isso, na primeira surra que levou do pai, após uma festa. Ele usou como justificativa clara que ela devia aprender a respeitar as pessoas, que os avós ficaram magoados com a atitude e por isso ela estava apanhando. Esta cena foi tida por muitos com a conotação de um pai educando sua filha, o que mesmo com a agressão, as palavras tiveram esse intuito. Foi uma punição em muito esperada, um vez que veio depois de uma malcriação e insinuação de inutilidade dos idosos na casa e como eles gastavam.
Dóris passa a novela cometendo delitos, desde reclamar dos avós até mesmo chegando ao furto deles. Mesmo quando trabalha, comete atos de suma grosseria e malcriação, inegável e de natureza torpe. Entretanto nota-se uma evolução de Carlão em algumas nuances que também se tornaram vis em alguns pontos. Pelo fato da filha trabalhar acompanhando a amiga Estela em festas a noite, ficava até tarde e acaba acordando tarde também, Carlão demonstrava incompreensão com isso chegando a dizer que não se importava com isso e que ela devia tomar café na cozinha.
Dentre as brigas mais memoráveis, estão a que ela enfrenta a família após passar a noite fora, se dizendo dona de si, uma vez que trabalhava, Carlão além de repreende-la pelas malcriações ameaça soca-la quando ela diz que não é mais virgem, por isso não tem motivo para tanta preocupação. O pai não permite que ela fique em casa e a manda para a rua pouco depois dela chegar. O teor se torna mais dramático porque Dóris joga na cara dele que ela sabe que foi pedida pra ser abortada, por isso a rejeição e o tratamento. É algo que deixa o público pensativo se toda a revolta dela não tem uma raiz mais profunda, embora não se justifique de forma alguma. O supra sumo foi quando durante uma briga com o irmão, ela empurra o avô e este cai, o pai a coloca pra fora de casa gerando toda uma situação, na qual a mãe não permite e a avó passa mal. Talvez se naquele capítulo, Dóris tivesse ido embora como de fato pretendia, quem sabe as coisas tivessem um rumo diferente. A mãe, sempre tentando apaziguar tudo, não permitiu alegando que ficaria difícil um retorno. Após isso, os bons idosos resolvem ir para o Retiro dos Artistas de vez, deixando o quarto vazio e o
pesar do filho Carlão para trás, que obviamente culpou Dóris pelo ocorrido.Era uma família complicada em vários aspectos. Após anos desde a sua estreia, hoje a mentalidade dos telespectadores mudou em muitos pontos e passou-se a questionar que talvez os personagens que pareciam tão sólidos em suas cores e delineamentos, possuem nuances de cinza e raios não tão nobres assim em suas condutas. Lógico que Dóris era a que mais possuía tons voltados para condutas infames, todavia nota-se que a família toda tinha defeitos também. Em um determinado momento, Carlão acredita que a filha está se prostituindo. Se nos primeiros capítulos ele se mostra preocupado com uma possível gravidez, ao final ele faz escândalo por encontrar preservativos na bolsa da filha, o que hoje sabemos ser uma medida de segurança para qualquer casal. E essa atitude denota certo domínio e necessidade de autoridade sobre Dóris e o que ela fazia com seu corpo.
E chega-se a última surra. Sempre reitero que sendo o último capítulo da novela, Dóris, assim como muitos personagens ficaram com seus finais vagos e em aberto. Não houve um fechamento de ciclo, muito ficou no campo das suposições. No momento em que tudo ocorre, Carlão vai até o hotel, no qual Estela morava, buscar Dóris. A amiga havia cedido o quarto e Dóris na cena está com um homem. Carlão adentra e muitos vibram, entretanto há inúmeras falhas.
Dentre as quais estão: Carlão entrando sem ser anunciado, coisa que em um hotel de luxo nunca ocorreria. Seria passível de processo e a reputação do local ficaria seriamente comprometida. Como ele sabia exatamente qual a suíte que Dóris estava sendo que nunca visitou a suíte de Estela? Logo não teria como saber. O motivo fica em nublado, Carlão foi buscá-la por qual motivo EXATAMENTE? Pelo simples fato de que ela estava fora de casa com um homem? Em muitos pontos há demonstração de contrariedade pelo fato de Dóris já se relacionar intimamente, mesmo que ela fosse uma mulher adulta e maior de idade.
Havia a suspeita de prostituição. Seja por um ou por outro, ela era uma pessoa maior de idade, logo responsável pelo seu próprio corpo. O Brasil é um dos países que mais consome pornografia e faz uso dos serviços dos profissionais do sexo, existe uma cultura em torno disso e falar como se fosse uma grande indignidade por parte destas pessoas é no mínimo contraditório. Fora que, independente do motivo que as levou a optar por tal vida, são responsáveis pelos seus atos, pelo que fazem consigo mesmas e mesmo que fosse o caso dos pais não aprovarem, a única pessoa a lidar com consequências seriam elas e mais ninguém.
Muitos alegam que foi pelos pais de Carlão terem ido embora. Sempre remetem ao fato de que Dóris maltratou os avós a novela inteira e justificam absolutamente tudo com isso. Neste ponto da novela, os idosos já estavam instalados no Retiro dos Artistas e não demonstravam vontade de sair de lá, em conversas com o filho falavam que estavam muito bem, muito felizes e gostavam do local, das companhias com amigos antigos de profissão, inclusive a mãe de Carlão disse que eles ponderaram os problemas futuros que poderiam ter na antiga casa.
Poderia ser revanchismo? Um extravasamento dos sentimentos reprimidos e rancor por achar que a filha foi responsável pelos avós terem ido embora? Continuaria sem nexo pois apenas ressaltaria a nuance negativa de que Carlão buscou Dóris no hotel apenas por uma questão de auto firmação, demonstração de superioridade e necessidade de humilhá-la, já que não somente houve a surra e tapas no rosto, mas ele fez questão de expô-la dizendo que ela era exemplo de péssima educação, que ele mesmo deu por sinal.
Mesmo com os
furos, muitos dizem sem pudor algum o quanto a cena foi regojizante e
excitante. A exaltação em torno da cena só faz pensar que o autor deu o que o
público queria, que era ver uma pessoa apanhando mesmo que em circunstâncias bem
confusas, como que pra satisfazer um sadismo das pessoas que é gostar de ver
uma pessoa que consideram “vilã” sendo espancada.
Algumas das questões levantadas em outras redes sociais foi que uma novela que mostrou o quanto a
violência contra mulher é repugnante de um lado, do outro faz com que esta pareça justa e até prazerosa de se ver. Há a questão de que Carlão era pai e boa parte das pessoas alega que ele tinha “direito” de espancar a filha como bem quisesse. Dóris em determinada cena fala para o espancador Marcos que sempre apanhou do pai e que este até mencionava que era melhor ela apanhar dele que outro na rua, ou seja, inconscientemente, foi feita uma associação entre os tipos de agressão. Hoje, com avanço de questionamentos sobre família, já se pontua até onde um pai/mãe pode mesmo espancar um filho usando como argumento o laço paternal/maternal, educação, disciplina, a questão de que sustenta a casa e paga despesas. No passado, não muito remoto, muitos pereceram sob tal alegação. Hoje, mesmo que menos, devido esclarecimento e informação disseminada, ainda é possível ver tal atitude, porém não mais sai tão impune em proporções assustadoras quanto um dia saiu. Como um público que se incomodava tanto em ver a personagem Raquel, que era vítima de seu marido apanhar com raquetes e socos se compraz tanto ao vez Dóris apanhando de cinto e sendo exposta de forma humilhante? “Uma merece e outra não”, eu ouvi dizer. Todavia a dor, as batidas, as marcas eram as mesmas. Ao se normalizar a violência, com o passar do tempo tende-se a encará-la de forma justificável em qualquer situação.Dóris fazia coisas terríveis, injustificáveis e cruéis com seus avós, ninguém diz o contrário, todavia hoje percebe-se o quanto já se enxerga nuances nos outros personagens considerados intocáveis na época em que a novela passou pela primeira vez. Ela merecia uma punição condizente com seus atos, algo que de fato surtisse efeito e convidasse a reflexão concisa. As surras não garantiriam que ela de fato passasse a considerar mais a família ou os avós, a cena final dela abraçando-os não é certeza pelo fato já mencionado que tudo ficou em aberto.
Foi de grande valia a discussão que Dóris com suas atitudes criou em torno de como lidar com os idosos, de como agrega-los na sociedade e de como eles por serem uma parte da população mais vulnerável devem ser amparados por leis específicas. Todavia, vem sendo de valia também que o público hoje, mais amadurecido, mais racional, não mais aceitam personagens totalmente taxados de “mocinhos” ou “vilões” e passaram a questionar as atitudes daqueles que eram considerados bons de cara, percebendo que existem arestas em maior ou menor grau. E isso de forma nenhuma configura-se em defesa de atitudes erradas, seja no caso de Dóris ou de quaisquer outro personagem feito para mostrar os tons de vilania, mas discernimento para enxergar que tal como na vida real, por melhor (ou pior) que alguém seja ou possa parecer haverá nuances e tentativas de melhora e modificação, bem sucedidas ou não, pois essa é a essência humana. A família de Dóris tornou-se um dos melhores exemplos disso.








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