Pra quem se lembra, havia um desenho muito legal chamado Doug Funnie, bem típico dos anos 90. O sucesso dele se fazia pela simplicidade e história até meio clichê. Doug e sua família se mudam para uma cidade nova, Bluffington e o garoto que tem por volta de 12 anos se vê em um ambiente desconhecido tendo que passar por todos aqueles processos de adaptação, seja na vizinhança, seja na escola, seja fazendo novos amigos.
A família de Doug é bem típica, pai, mãe e uma irmã mais velha daquelas que implicam sempre, Doug ao ir pra escola logo faz um melhor amigo (Skeeter), se apaixona por uma menina (Patti) que também é uma super amiga e tem rivalidade com o garoto chato (Roger). O vizinho Sr. Dink se torna uma espécie de conselheiro para Doug, a quem ele recorre quando precisa de ajuda com questões pessoais ou coisas maiores. Nada de novo até aí, pra muitos hoje essa
historinha pareceria até meio enfadonha, mas o que faz de Doug um desenho que toca até os adultos é como ele lida com todo esse meio que tem ao redor dele.
Doug tem um diário. Parece até inusitado, uma vez que diários eram bem mais típicos de meninas na época e considerando a tecnologia hoje, parece obsoleto imaginar adolescentes escrevendo ao invés de teclando, todavia lá estava Doug todo episódio começando com seu lápis e caderno, descrevendo seus pensamentos mais profundo e perturbadores. E nesse ato de escrever, percebemos algo que antes talvez quem assistia o desenho não notava ou pelo menos não sabia decodificar de forma tão literal em palavras: Doug é um ansioso nato.
Existe algo chamado “síndrome do jogador de xadrez”, é quando alguém tomado por suas ansiedades, excesso de futuro, formula tantas situações e desfechos em sua mente para um mesmo fato que ela fica a ponto de enlouquecer. Suas horas, minutos, dias, são consumidos com esses pensamentos, de modo que ela fica em um estado de exaltação cogitando um futuro que sequer pode existir. Esse estado é em muitos pontos tão nocivo que o indivíduo se martiriza, se preocupa, não come ou dorme direito nesse looping de mil e uma possibilidades. E o pior: quase nunca são possibilidades positivas, é sempre uma direção ruim, como se ele não se achasse merecedor de um melhor desfecho ou não acreditasse que tal desfecho pudesse existir.
Doug era assim. Óbvio que para um garoto de 12 anos, as menores coisas tinham nele um efeito bem maior do que tinham em um adulto, mas no desenho a graça é que além de jogador de xadrez, ele se deixava levar por uma imaginação fértil de fazer até roteiros em sua cabeça de como algumas situações ocorreriam. Em um dos
episódios, Doug retorna um pouco mais gordinho após uma temporada na casa de sua avó, quando sua irmã menciona o fato ele já em sua imaginação se vê 20 vezes maior do que realmente é, passando vexame ao entrar em uma lanchonete. O terror se potencializa quando seu amigo chega com um convite para uma festa na piscina, que ocorreria no fim de semana. O pobre Doug já faz o script em sua mente: tirando a camisa, cheio de gordura, caindo na piscina e esvaziando-a, acabando com a festa. E com isso, ele começa uma intensa semana de dieta e exercícios.
Outro exemplo foi quando ele e Skeeter acidentalmente quebram a churrasqueira do Sr. Dink, vendo o desastre que tinham feito, tentam a todo custo conseguir dinheiro com pequenos trabalhos para comprar uma nova, sem precisar contar ao vizinho do acidente. Nos seus pensamentos acelerados, Doug via o dócil vizinho se transformar em um monstro enorme no momento em que confessava o que tinha feito. E em outra ocasião, na qual Doug é convidado pra jantar na casa de Patti, ela brinca dizendo que o jantar será fígado, que Doug detesta. Ele tenta a todo custo passar por cima de sua aversão pra não fazer feio, desde hipnose até anestesiadores de língua, sendo que no fim, a solução para o problema e o estado de aflição é justamente experimentando e conseguindo engolir com esforço.
Todas essas situações ilustram como Doug ficava ansioso sobre o que lhe acontecia e ansioso em dobro com as situações que lhe eram amis importantes. Mas no fim, tudo se resolvia e de uma forma que nem mesmo ele esperava. Ele perdeu peso pra ir a festa da piscina, oSr. Dink no fim não ligou muito para a churrasqueira quebrada mas vendo o esforço dos meninos e como eles queriam pagar, fez uma proposta para que eles fizessem pequenos serviços para ele e no fim, Patti serviu hot dog com fritas em seu jantar dizendo que estava brincando. Com Doug vemos que as palavras podem ter uma influência muito grande sobre um ansioso escritor de script.
Óbvio que o mundo não tem culpa, essa característica é uma qualidade particular, cabe ao próprio indivíduo trabalhar isso, embora seja muito difícil. Essa peculiaridade de ser ansioso com o que vai acontecer e quase que imediatamente fazer um roteiro em sua cabeça pode ser ao mesmo tempo muito angustiante e frustrante. Angustiante porque se imagina mil e uma situações que podem ocorrer e frustrante porque muitos ao fazerem seu script, se preparam para aquilo, como em uma peça teatral e quando não ocorre do jeito como se idealiza, vem a decepção ou se perde aquela capacidade de se surpreender, afinal, se alguém imagina tantas possibilidades, acaba que está sempre na defensiva para elas ou para o que pode ocorrer.
Mas não apenas coisas negativas existem na Síndrome de Doug Funnie. Claro que a ansiedade, o script, a inquietação e angústia são mais do que pontos ruins, todavia existe algo também compensador: a imaginação. E isso pode ser trabalhado de forma extremamente positiva. Doug podia fazer em sua mente situações mirabolantes que angustiavam seus dias, mas ele também criou um mundo com personagens só dele, no qual ele era o herói e podia fazer o que quisesse, ser o melhor que podia. A imaginação é uma espada de duas lâminas, num ansioso ela é usada para fatos que o inquietam mas também possibilita a criação de algo que o conforta. Afinal, se você tem imaginação pra criar múltiplos desfechos e ainda assim nenhum deles pode ser o correto, também tem imaginação pra criar algo maravilhoso e encantador que lhe acolhe nesses momentos de angústia.
Doug era o exemplo de algo que hoje, em casos mais graves já é amplamente disseminado e recebe atenção especializada. Lógico que se percebe esses fatores no personagem, mesmo que atenuados e sempre de um jeito divertido. Doug mesmo em suas angústias tinha leveza e sempre uma lição ao fim, quase sempre elevando as coisas a um patamar positivo, de que não se devia esquentar tanto a cabeça, que as coisas podem ser melhores do que se imaginava e que tudo ao fim termina bem. Doug, mesmo depois de tanto tempo ainda é um desenho atual e extremamente educativo...





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